Investigadores não veem “bala de prata” em depoimento de Moro


Caio Junqueira
Por Caio Junqueira, CNN   da CNN, em Brasília
05 de maio de 2020 às 07:30 | Atualizado 05 de maio de 2020 às 16:44
O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça Sergio Moro

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça Sergio Moro

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Investigadores envolvidos no inquérito que apura as acusações do ex-ministro da Justiça Sergio Moro ao presidente Jair Bolsonaro avaliaram que não foi apresentada nenhuma “bala de prata” contra ele nas mais de oito horas de seu depoimento no último sábado, na sede da Superintendência da Polícia Federal do Paraná, em Curitiba.

Exclusivo: leia a íntegra do depoimento de Sergio Moro à Polícia Federal

A análise é a de que, a despeito da duração do depoimento, não houve avanço significativo em relação à fala do ex-ministro durante seu ato demissional na manhã do dia 24 de abril. Apontam, nesse sentido, dois indicativos disso. O primeiro é o tamanho em si do depoimento em sua versão final —- as oito horas viraram dez páginas, que devem se tornar públicas a qualquer momento pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O segundo indicativo foram os próprios pedidos de diligências feitos pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, na tarde dessa segunda-feira (4).

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Segundo fontes, as solicitações basicamente “espelham” o que foi falado no depoimento. Moro citou ministros de estado (Luiz Ramos, Braga Netto e Augusto Heleno) como testemunhas de uma reunião fechada no dia 23 de abril, em que ele [Moro] teria sido pressionado a substituir Maurício Valeixo da PF (o que motivou o pedido para ouvi-los).

Ele também falou sobre sua assinatura ter aparecido no Diário Oficial da União que exonerou Maurício Valeixo do comando da Polícia Federal (o que justifica o pedido de Aras dos procedimentos legais da publicação). O ex-juiz ainda mencionou a reunião ministerial do dia 22 de abril em que Bolsonaro lhe cobrou a saída de Valeixo (o que fez Aras pedir o vídeo completo do encontro), além de ter mostrado mensagens de celular que já haviam sido se tornadas públicas. 

Nada, portanto, para investigadores, que avançasse significativamente na narrativa que ele já havia falado publicamente quando deixou o cargo. A leitura é a de que Moro evitou regredir no tempo em sua relação com Bolsonaro justamente porque poderia se auto-incriminar. 

Isso porque, se houvesse alguma prova de que Bolsonaro tentou interferir no passado na PF e Moro nada fez, ele poderia incorrer em prevaricação, tipo penal pelo qual o funcionário público deixa de denunciar algum crime. Ademais, Moro não regrediu no tempo pois pegou o hábito de apagar mensagens antigas depois que teve seu celular hackeado e conversas divulgadas.

Há também a avaliação de que Aras pediu as diligências muito mais para evitar ser apontado de antemão como “engavetador” – ele costuma receber críticas por sua proximidade com o Palácio do Planalto – do que por acreditar que as diligências pedidas irão evoluir para apontar de modo irrefutável a interferência política de Bolsonaro na PF.

Os ministros que serão ouvidos, por exemplo, despacham diariamente com o presidente e são os mais próximos dele em toda a Esplanada. Ninguém espera que dali saia algo certeiro para desestabilizar Bolsonaro. A mera cobrança por parte dele da substituição de Valeixo feita em reunião ministerial do dia 22 de abril também é colocada muito mais como um ato de exercício regular do cargo – ele pode cobrar a substituição de integrantes do governo – do que como uma prova irrefutável de interferência política.