Vídeo fortalece tese de interferência na PF? Cardozo e Admar Gonzaga debatem

José Eduardo Cardozo e Admar Gonzaga discorreram sobre o vídeo da reunião de Jair Bolsonaro com ministros em abril

Da CNN, em São Paulo
23 de maio de 2020 às 13:45 | Atualizado 23 de maio de 2020 às 14:15

Os ex-ministros José Eduardo Cardozo (Justiça) e Admar Gonzaga (Tribunal Superior Eleitoral) debateram neste sábado (23) sobre os principais pontos do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, divulgado após autorização do ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Cardozo, que também atuou como advogado-geral da União durante o governo de Dilma Rousseff, entende que as imagens fazem parte de um conjunto de evidências levantadas pelo ex-ministro Sergio Moro sobre a tentativa de interferência de Jair Bolsonaro (sem partido) na Polícia Federal.

"O vídeo acaba fortalecendo a evidente tentativa de Jair Bolsonaro de controlar a Polícia Federal, confirmada pela nomeação de [Alexandre] Ramagem e a troca do superintendente do Rio de Janeiro", disse.

Secretário-geral da Aliança pelo Brasil, partido que Bolsonaro tenta criar, Gonzaga não vê indícios de nada além de uma reunião do presidente da República com seus ministros.

"A revelação do vídeo mostra que a denúncia do ex-ministro Sergio Moro não tem nenhuma sustentação. O presidente, com seu jeito autêntico de falar, reclama de falta de informações para o seu governo em matéria de segurança e ainda reclama sobre a falta de segurança da sua família, amigos e pessoas que moram em outras cidades que ele cita ali", pontuou.

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Há crime evidenciado na reunião ministerial?

Admar Gonzaga não vê indícios de nenhum crime cometido pelo presidente Jair Bolsonaro nas imagens divulgadas. "O que se vê é um presidente pedindo coerência de seus ministros, que eles façam a defesa do governo e que não tenham uma agenda própria. (..) Quem tiver outra opinião, que espere outro governo ou faça o seu próprio", defendeu.

Para Cardozo, no entanto, há diversos crimes comprovados no vídeo da reunião ministerial, mas ressalta que as imagens não podem ser analisadas de forma isolada, mas sim em conjunto com outras acusações recentes contra o presidente da República.

"Bolsonaro chega a falar que as atividades privadas funcionam mais que as do governo, e isso casa com a denúncia do empresário Paulo Marinho, que diz que recebeu informações privilegiadas. Tudo isso somado evidentemente fornece indícios que o presidente tenta controlar a Polícia Federal, tenta impor nomes para poupar seus filhos e proteger amigos. Isso é absolutamente ilícito. É crime de responsabilidade, desvio de poder, improbidade, é indigno um presidente da República agir dessa forma", disse o ex-ministro.

Vídeo prova acusações de Sergio Moro?

José Eduardo Cardozo apontou que a divulgação da reunião ministerial não foi boa tanto para a imagem de Sergio Moro como do presidente Bolsonaro. "Sergio Moro não saiu bem, saiu fraco. Mas do ponto de vista da denúncia dele, ela saiu reforçada. A denúncia andou na linha da demonstração evidente daquilo que Moro disse antes e da atitude do novo diretor-geral da PF em substituir exatamente quem investigava a família e amigos do presidente. Sai mal o presidente Bolsonaro, mas sai pior o povo brasileiro que passa pela pandemia com um circo montado no governo federal."

Admar Gonzaga discordou ao destacar que, na verdade, Bolsonaro saiu com um "selo de honestidade e sinceridade". "O que demonstra que ele é um homem autêntico. Bolsonaro teve a coragem de cobrar de Moro uma  postura coerente dentro do seu governo ou então que saísse. Moro não passava informações e isso não é atitude de um ministro. Ele sai minúsculo dessa situação e, ao contrário do que disse Cardozo, o povo sai maior porque viu que Bolsonaro continua com as mesmas bandeiras que o elegeu."