Bolsonaro inaugura trecho de obra e reivindica para si chegada de água ao Ceará

O governador do estado, Camilo Santana, recusou convite para o evento, alegando a pandemia do novo coronavírus

Guilherme Venaglia, da CNN em São Paulo
26 de junho de 2020 às 12:01 | Atualizado 26 de junho de 2020 às 14:44

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) inaugurou nesta sexta-feira (26) uma obra do Eixo Norte da transposição do Rio São Francisco. O presidente participou do acionamento de uma comporta que permitirá que a água que já abastece o Reservatório Milagres, em Pernambuco, chegue até o Reservatório Jati, no Ceará.

Em entrevista à TV Brasil, Bolsonaro disse que "é uma novela que chega ao fim".

"Foi a recomendação desde o início do governo que não deixaríamos obra parada. Nós ficamos felizes em trazer água para quem realmente precisa", disse o presidente, que não mencionou que a obra foi iniciada e conduzida em governos anteriores.

Convidados, os governadores do Ceará, Camilo Santana (PT), e de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), não compareceram ao evento. Ao analista da CNN Igor Gadelha, interlocutores do petista disseram que a recusa se deve à pandemia do novo coronavírus. 

Sem os governadores, o presidente foi ao estado acompanhado de ministros. A ponte entre o governo federal e os estados ficou com o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, que viajou um dia antes e se reuniu com Camilo Santana em Fortaleza nesta quinta-feira (25). Na reunião, Marinho anunciou a liberação de R$ 54 milhões para obras hídricas no estado.

Segundo a analista da CNN Basília Rodrigues, aliados do presidente Jair Bolsonaro veem peso político grande no ato desta sexta. O presidente quer crescer em popularidade na região Nordeste e quer marcar este como "o dia em que o governo vai levar água para o Ceará". Ela também cita que Bolsonaro foi cobrado a viajar mais pelo país e participar de eventos ao lado de parlamentares em suas bases eleitorais.

 

Disputas políticas

A obra inaugurada por Bolsonaro no estado é razão de intensas disputas políticas entre diversas lideranças. A construção começou ainda no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), quando o ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT) era ministro da Integração Nacional. 

O projeto é listado por Lula como seu, mas Ciro também o reivindicou na propaganda eleitoral de sua campanha à Presidência da República em 2018. O presidente Jair Bolsonaro se une agora aos ex-presidentes Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB) entre os que também clamam para si a responsabilidade pela obra, que atravessou todos os governos. 

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O Eixo Leste foi inaugurado em 2017, no governo Temer, cerca de um ano após o impeachment de Dilma. Menos de dez dias depois, a ex-presidente foi ao mesmo local acompanhada de Lula, em ato simbólico de inauguração que acusava Temer de tentar roubar os louros das gestões petistas.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento Regional, todo o projeto soma 477 quilômetros de extensão e é o maior empreendimento hídrico do país. 

"Quando todas a estruturas e sistemas complementares nos estados estiverem em operação, cerca de 12 milhões de pessoas em 390 municípios de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte serão beneficiadas", diz a pasta.