Punição de Deltan prova uso político do Ministério Público, diz Renan Calheiros

Senador concedeu entrevista à CNN após vitória em processo no CNMP em que acusa procurador de interferir em eleições

Da CNN, em São Paulo
08 de setembro de 2020 às 20:04 | Atualizado 08 de setembro de 2020 às 21:06

O senador Renan Calheiros (MDB-AL) disse considerar a punição de Deltan Dallagnol pelo CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) nesta terça-feira (8) como a "primeira vez que alguém consegue provar a utilização política e eleitoral do Ministério Público".

"[A punição] tem um significado importante: é o primeiro passo para responsabilização civil do Dallagnol por danos cometidos. Passa uma mensagem clara ao Ministério Público Federal que ele não pode continuar abusando", disse em entrevista à CNN

Foi Calheiros quem entrou com representação no CNMP, acusando o procurador de ter influenciado a eleição para a presidência do Senado —na qual perdeu para Davi Alcolumbre (DEM-AP).

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"O meu caso foi repetição do que aconteceu na eleição nacional. Ele postou vídeo, fez campanha, defendeu candidaturas alternativas. Ele não tentou influir, ele influiu decisivamente na eleição para o Senado Federal", declarou. 

O senador disse ainda que, ao se afastar da Lava Jato, Dallagnol teria tentado "sair de fininho". "Ele tentou sair de fininho, sem ser percebido, alegando problema familiar. Não é verdade, o que essa gente fez no sentido do abuso precisa ser punido e punido exemplarmente", afirmou. 

Deltan Dallagnol saiu da força-tarefa em 1º de setembro, dizendo que o único motivo era a saúde de sua filha de um ano e 10 meses.

O ex-ministro, no entanto, diz não ser contra a existência da operação. "Defendi sempre a Lava Jato, acho que ela deixa contribuições importantes para a sociedade, mas não defendo os excessos, abusos. No meu caso, entraram com pedidos de investigação para me tornar 'multi-investigado' e criminalizar a minha imagem", disse.

Ele afirmou que não acredita que haverá uma eleição em que a política foi tão criminalizada quando em 2018. "Qualquer pessoa de bom senso no Brasil sabia que os excessos da Lava Jato teriam fim, a decisão de hoje é importante porque chegou uma trava para impedir esses abusos."

Bolsonaro e o Nordeste

Para Renan Calheiros, o aumento na popularidade do presidente no Nordeste não significa que a região se tornou bolsonarista. 

"Eu entendo que o presidente continua errando, o pronunciamento em que fez no último sete de setembro é uma demonstração, em que defendeu valores democráticos, liberdade, e com a mesma ênfase, defendeu o golpe militar de 64", citou. "Quando você elege o presidente da República, você o elege para ser o pacificador do país, não para jogar na divisão da sociedade e defender nichos de interesse."

Ele acredita que, com a redução e, por fim, o encerramento do auxílio emergencial, a aprovação do presidente deve cair, não só na região, mas em todo o país. 

Reeleição no Senado

Calheiros, que já foi presidente do Congresso Nacional por quatro vezes, disse que não vai tentar uma nova candidatura em 2021 e que considera a reeleição tentada por Davi Alcolumbre como prejudicial.

"Essa tentativa já foi posta lá atrás e rejeitada pelo Congresso Nacional. Quando se impede a reeleição no meio de uma legislatura é para impedir um domínio duradouro e interminável. É ruim para a democracia, que se fortalece na rotatividade do poder", falou.

"Não sou candidato e nem serei, o MDB é o maior partido e ali não há escassez de bons quadros, temos excelentes nomes na bancada que podem somar e colocar o Senado ao lado dos outros poderes para tirar o Brasil dessa situação gravíssima que estamos vivendo", disse.

(Edição do texto: Paulo Toledo Piza).