Witzel foi ‘cooptado’ para esquema quando era juiz, diz empresário em delação


Leandro Resende e Lucas Janone, da CNN, no Rio de Janeiro
15 de setembro de 2020 às 13:56

O governador afastado do Rio Wilson Witzel foi “cooptado” para participar de esquemas criminosos que saquearam os cofres do estado quando ainda era juiz federal, em 2017. Uma vez escolhido para concorrer ao governo do Rio, Witzel recebeu R$ 980 mil em dinheiro vivo - uma forma encontrada pelo grupo denunciado para garantir “conforto” a Wtizel caso ele perdesse a corrida eleitoral.

As afirmações são do empresário Edson Torres, em depoimento aos procuradores do Ministério Público Federal, e constam na segunda denúncia movida pela Procuradoria Geral da República (PGR) contra Witzel, a primeira-dama Helena e outras dez pessoas acusadas de integrarem uma organização criminosa que saqueou os cofres do governo do Rio.

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O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel

O governador afastado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil (29.nov.2018)

O documento narra em detalhes como Torres decidiu, após ser preso, contar como funcionavam os desvios no governo do Rio. Aos procuradores ele estimou que só na Saúde foram desviados R$ 50 milhões no governo Witzel. Torres foi preso na Operação Tris in Idem, que afastou Witzel do cargo no final de agosto e prendeu, entre outras pessoas, o presidente do PSC, Pastor Everaldo. Ao ser solto, decidiu dar sua versão da história.

De acordo com a denúncia, o avanço da Operação Lava Jato no Rio e a saída do grupo do ex-governador Sérgio Cabral do poder fez com que “velhos atores” procurassem um novo rosto para voltar ao poder. Witzel foi escolhido, e participou de uma primeira reunião no final de 2017. Logo depois, Edson Torres e Pastor Everaldo decidiram ser necessário “dar um conforto” e uma “segurança financeira” para Witzel, uma vez que, para ser candidato, ele precisaria largar o cargo e o salário de juiz federal.

Após uma série de reuniões, Edson Torres narra que os membros da organização criminosa passaram a repassar dinheiro vivo para Witzel - uma forma de investimento para depois cobrar espaço no governo, caso ele fosse eleito. Assim, em 2018, Witzel recebeu R$ 980 mil, em cinco parcelas - a última paga em abril de 2018.

Em troca do investimento quase milionário, Torres afirmou ao MPF que foi criado uma “caixinha da propina” na Secretaria de Saúde, com a cobrança de 3% a 7% dos totais dos contratos celebrados pela pasta. O dinheiro era dividido entre o empresário, o ex-secretário Edmar Santos, o doleiro Victor Hugo Cavalcante, e 40% dos valores arrecadados eram divididos por Witzel e Pastor Everaldo, parte da estrutura do governo.

Em nota, Witzel e Pastor Everaldo negaram as acusações feitas pelo MPF.

Veja as íntegras a seguir:

Nota Witzel

Mais uma vez, trata-se de um vazamento de processo sigiloso para me atingir politicamente. Reafirmo minha idoneidade e desafio quem quer que seja a comprovar um centavo que não esteja declarado no meu Imposto de Renda, fruto do meu trabalho e compatível com a minha realidade financeira. Todo o meu patrimônio se resume à minha casa, no Grajaú, não tendo qualquer sinal exterior de riqueza que minimamente possa corroborar essa mentira. O único dinheiro ilícito encontrado, até agora, estava com o ex-secretário Edmar Santos."

Nota Pastor Everaldo

A defesa do Pastor Everaldo esclarece que ainda não teve acesso à íntegra da investigação e da delação que embasaram sua prisão, ocorrida há 20 dias. A defesa informa que a nova de denúncia não está juntada aos autos processo e que não comentará trechos do processo que correm em segredo de Justiça. O Pastor Everaldo, que sempre esteve à disposição das autoridades, reitera sua confiança na Justiça e na sua libertação.