Conheça o caminho que levou ao desgaste de Paulo Guedes

As promessas não entregues por Guedes pegaram mal no mundo político e econômico

Daniela Lima
Renata Agostini
01 de outubro de 2020 às 16:47 | Atualizado 01 de outubro de 2020 às 18:03

O ministro Paulo Guedes, hoje, se vê como um homem imerso em uma batalha, lutando para manter as âncoras de sua agenda liberal – a principal delas, o teto de gastos.

O problema é que, durante essa missão, transformou aliados em inimigos públicos, perdeu apoio de políticos importantes e começou a despertar questionamentos se, de fato, poderá entregar aquilo que prometeu aos agentes financeiros quando se colocou como o fiador da política econômica de Bolsonaro.

Hoje, Guedes é criticado dentro do próprio governo. Muitos dizem, inclusive, que se contêm diariamente para não responder a ataques, velados, atravessados, mas com destino certo para quem conhece os bastidores de poder.

O ministro sabe que ocorre um cerco e que ele está sob ataque. A uma pessoa próxima, logo após atacar Rodrigo Maia na quarta (30), e romper em definitivo com o presidente da Câmara, ele disse que, em Brasília, “ficou engraçado” xingá-lo, “dar um chute no PG” e que essa atitude passou a ficar “impune”. O ministro afirmou então que precisava revidar e mirar alguém forte para que os outros soubessem que haveria “luta”.

Na lista de aliados que passaram a adversários estão desde Rogério Marinho, ministro do Desenvolvimento Regional, ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

Muitos desses conflitos foram travados publicamente. Alguns recados que Paulo Guedes enviou para defender seu receituário liberal o fizeram perder musculatura política. O ministro diz a aliados que, sim, há um cerco contra ele. E o desgaste percorreu um caminho até o atual momento.

O mês é abril. A crise da Covid-19 despontava no Brasil. Havia uma disputa por recursos. Uma ala defendia que o governo injetasse dinheiro em obras públicas para ajudar a alavancar a economia.

Guedes não gostou e lutou para manter o orçamento sob seu controle. Mas, ao fazer isso, ofendeu os colegas da esplanada.

E não parou por aí. Em agosto, seguia a discussão sobre qual o melhor caminho a seguir para destravar projetos e bancar um programa social assegurando a continuidade de um agenda que rendeu frutos políticos para o presidente Jair Bolsonaro.

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O ministro da Economia, Paulo Guedes
O ministro da Economia, Paulo Guedes
Foto: CNN (23.set.2020)

Entrou na linha de frente do debate o chamado teto de gastos, instrumento que impede o governo de ampliar muito seus gastos. Numa fala bem acima do tom, Paulo Guedes reconheceu uma debandada em sua pasta e disse que integrantes do governo estavam empurrando Bolsonaro para o impeachment.

A palavra "impeachment" sendo pronunciada por um integrante do governo não soou bem no Palácio do Planalto. E aí começou uma operação para moderar as falas do ministro.

O time de articulação política de Bolsonaro passou a ter mais voz. O próprio Guedes disse ter sido enquadrado.

E temos aí o ato final. De ontem. O ministro, em uma fala pública, acusa o presidente da Câmara, nome forte e reconhecido no mercado financeiro como patrocinador da Reforma da Previdência e da Reforma Tributária, de sabotar privatizações. Rodrigo Maia não ficou quieto e disse que Guedes está desequilibrado.