Ex-funcionária de Flávio Bolsonaro confirmou esquema de 'rachadinhas'

Dos 17 denunciados pelo MP, 14 foram nomeados para trabalhar com o hoje senador na  Assembleia Legislativa do Rio

Fernando Molica
Por Fernando Molica, CNN  
04 de novembro de 2020 às 19:43
Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj)
Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj)
Foto: Jairo Nascimento, da CNN


Uma das ex-assessoras de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio confirmou, em depoimento ao Ministério Público do Rio de Janeiro, a existência de um esquema de "rachadinhas" no gabinete do então deputado estadual. Dos 17 denunciados pelo MP, 14 foram nomeados para trabalhar com o hoje senador na  Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).

Segundo as investigações, todos os denunciados participaram do esquema de "rachadinhas". A maioria, segundo o MP, não exercia qualquer função no gabinete do então deputado estadual e era obrigada a devolver boa parte de seus salários e benefícios - os valores seriam depositados na conta de Fabrício Queiroz, apontado pelo MP como operador financeiro das operações.

De acordo com o MP, Queiroz chegou a utilizar o dinheiro do esquema para pagar despesas pessoais da família de Flávio Bolsonaro, como plano de saúde e mensalidades escolares das filhas do parlamentar.

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A CNN confirmou o depoimento em que uma das ex-assessoras, Luiza Souza Paes, detalhou o esquema. De acordo com o jornal "O Globo", ela afirmou aos promotores que era obrigada a devolver 90% de seus rendimentos - salários, vantagens e até restituição do imposto de renda. 

No depoimento, afirmou que entregava também valores correspondentes a décimo terceiro salário e tíquete alimentação. Embora constasse da folha de pagamentos da Assembleia Legislativa, afirmou que nunca chegou  chegou a prestar qualquer serviço para a instituição ou para o parlamentar. Declarou que ficava com apenas R$ 700 mensais. 

O Ministério Público já havia identificado que,  dos R$ 204.433,08 que Luiza recebeu da Alerj, R$ 155.732,20 ( 76% do total) foram depositados na Queiroz. No celular de Luiza, o MP encontrou mensagens de texto em que ela revelava preocupação com as investigações em torno de Flávio Bolsonaro. Ela tratou do assunto com, entre outros, seu pai, Fausto Antunes Paes, amigo de Queiroz.

Em mensagens trocadas em dezembro de 2018, depois de as investigações virem à tona, Luiza e Fausto tratam de um encontro com Queiroz para, segundo o MP,  combinarem uma "versão fantasiosa caso fossem chamados a prestar depoimento". 

Outras mensagens revelam que Queiroz indicara um advogado para Luiza, Luis Gustavo Botto Maia, que já atuara para Flávio Bolsonaro. As investigações revelam que, em janeiro de 2019, orientada pelo advogado, Luiza esteve na Alerj para assinar folhas de ponto relativas a 2017.

Em junho passado, o MP encontrara evidências de que Luiza cometera os crimes de peculato (desvio de dinheiro público), organização criminosa e obstrução de justiça.

Procurado pela CNN, o atual advogado de Luiza, Caio Padilha, afirmou que não poderia confirmar ou negar o teor do depoimento, que, ressaltou, está sob sigilo.

Ele se limitou a divulgar uma nota: "A defesa de Luiza Souza Paes não foi notificada do oferecimento de denúncia e ainda desconhece seu conteúdo. Ainda nesse momento inaugural do processo sobre o qual recai sigilo, não é possível tecer qualquer tipo de comentário extra-autos sobre as fases da investigação."