Empresa de Moro oferece serviços que, em sentença, ele recomendou à Odebrecht

Procurada pela CNN, a A&M afirmou que não foi contratada pela Odebrecht para prestar serviços na área de compliance

Fernando Molica
Por Fernando Molica, CNN  
03 de dezembro de 2020 às 21:03 | Atualizado 03 de dezembro de 2020 às 21:57

 

Na sentença de março de 2016, em que condenou o empreiteiro Marcelo Odebrecht, o então juiz Sérgio Moro recomendou que o Grupo Odebrecht fechasse acordos de leniência e, para isso, adotasse medidas de "compliance" (adaptação a normas de integridade corporativa) que fazem parte do foco de seu trabalho na consultoria Alvarez & Marsal, empresa na qual acaba de ingressar na condição de sócio-diretor.

Na sentença, Moro citou, entre as medidas que deveriam ser praticadas pela Odebrecht para "recuperar a sua reputação", a adoção "de sistemas internos mais rigorosos de compliance". 

Sugeriu também que o grupo tomasse  a iniciativa de "assumir a responsabilidade por suas faltas pretéritas". "É pior para a reputação da empresa tentar encobrir a sua responsabilidade do que assumi -la", frisou o juiz.

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Moro acrescentou: "A admissão da responsabilidade não elimina o malfeito, mas é a forma decente de superá- lo, máxime por parte de uma grande empresa. A iniciativa depende muito mais da Grupo Odebrecht do que do Poder Público."

Em nota que trata da contratação de Moro, a A&M afirmou que o ex-juiz irá trabalhar na área de Disputas e Investigações e que o foco de seu trabalho será "ajudar empresas clientes no desenvolvimento de políticas antifraude e corrupção, governanças de integridade e conformidade e políticas de compliance."  

Procurada pela CNN, a A&M afirmou que não foi contratada pela Odebrecht para prestar serviços na área de compliance, e que o grupo é cliente da unidade de negócios dedicada à administração judicial. 

Disse que ter sido nomeada pela Justiça para "acompanhar, fiscalizar e zelar pela correta condução do processo de recuperação judicial, que é liderado pela companhia em recuperação judicial e seus assessores."

A empresa também afirmou que, até por questões contratuais, Moro não prestará qualquer serviço para a Odebrecht ou para outras empresas envolvidas na Operação Lava Jato.  

A A&M ressaltou que a administração judicial é uma área diversa da de Disputas e Investigações, onde Moro atuará.

Não descartou, porém, a possibilidade de a Odebrecht, um dia, "demandar o serviço de complicance, ou qualquer outro que seja de desenvolvimento da área de Disputas e Investigações". 

Mas ressaltou que esta eventual prestação de serviços "não terá qualquer envolvimento do Moro" já que isso é proibido pela  cláusula contratual que cita conflito de interesses.

"Moro não atuará em projetos de clientes que tenham tido envolvimento com a Lava Jato", completou.