Carta de Braga Netto sobre 64 é 'compensação' ao presidente, avalia historiador

Professor da UFRJ, Carlos Fico classificou de 'crise militar inédita' troca dos três comandos das Forças Armadas na última terça-feira (30)

Produzido por Thiago Felix e Vinícius Tadeu*, da CNN, em São Paulo
31 de março de 2021 às 08:33

Historiador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Carlos Fico classificou, em entrevista à CNN, como uma "crise militar inédita" a troca dos três comandos das Forças Armadas. Ele também analisou como "uma demonstração de frases para agradar o presidente" a carta divulgada por Braga Netto, ministro da Defesa, sobre a intervenção militar de 1964.

Ao mesmo tempo, os chefes do Exército, Aeronáutica e Marinha deixaram os cargos na terça-feira (30), após reunião com Braga Netto.

"Acredito que o que Bolsonaro pretendia era o chamado alinhamento [político], sobretudo uma manifestação do então comandante do Exército [Pujol] em relação às políticas tresloucadas do presidente, que não concorda com lockdown e gostaria, talvez, de manifestações dos comandantes militares nesse sentido", afirmou o especialista.

"Essa nota relativamente absurda do ministro da Defesa celebrando o golpe de estado de 64 provavelmente é uma espécie de compensação", disse. "Para agradar o presidente, se fará declarações como essa do Braga Netto, mas provavelmente não se ultrapassará a linha de obediência institucional que as Forças Armadas devem ao país". 

Ministro da Defesa, Walter Braga Netto (03.abr.2020)
Foto: Isac Nóbrega/PR

Fico também relembrou a trajetória de aproximação do presidente Jair Bolsonaro às bases militares. Segundo o historiador, ele não era mais considerado um militar pelas forças do Exército por estar há mais de 20 anos na política. "O que houve foi que, a partir dos anos 90, ele conseguiu algum tipo de apoio dos oficiais generais por defender o soldo às mulheres e viúvas [de militares]."

"Outro aspecto é que existe apoio difuso das baixas patentes e nas polícias militares, que são os grupos estaduais que mais me preocupam, não no sentido de ruptura institucional, mas a possibilidade de algum tipo de rebelião, como vimos no Ceará [em 2020]".

(*supervisionado por Elis Franco)