À CNN, Witzel admite corrupção de agentes, mas diz ser perseguido por Bolsonaro

Impeachment do governador afastado do Rio será julgado na próxima sexta-feira (30)

Texto de Renato Barcellos e reportagem de Pedro Duran, da CNN em São Paulo e no Rio de Janeiro
23 de abril de 2021 às 21:26 | Atualizado 24 de abril de 2021 às 00:33

Em entrevista exclusiva à CNN, o governador afastado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), admitiu que houve corrupção por parte de agentes durante a gestão dele, mas disse que tem sofrido perseguição do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

De acordo com o Witzel, “está provado no processo” que o ex-secretário de Saúde do Rio Edmar Santos “roubou mais de R$ 18 milhões”. Apesar de reconhecer a existência de corrupção, o governador afastado defendeu a gestão feita por ele e reclamou de medidas tomadas pelo Palácio do Planalto.

“Eu fui o primeiro Governador na história do país a dar autonomia à Polícia Civil do Estado e à Polícia Militar, e criar, na Civil, um Departamento de Combate à Lavagem de Dinheiro para estar alinhado à PF, mas nada disso aconteceu, ao contrário, nós estamos assistindo ao desmonte da Lava-Jato e à utilização de estruturas do Estado, como o Ministério Público, para perseguir Governadores e Prefeitos”, declarou. “[O Ministério Público] está sendo utilizado para atingir governadores contrários ao interesse do Bolsonaro, que é negacionista e não dialoga com os governadores”

Com o julgamento de impeachment marcado para a próxima sexta-feira (30), Witzel disse que está preparado para o resultado e avaliou uma possível nova candidatura. “Nesse processo não vão conseguir me condenar por corrupção”, declarou.

Embora tenha confiança de que será inocentado, o governador afastado afirmou “não ter a menor ideia” de quanto será o placar. No entanto, ressaltou que a condenação seria uma “irresponsabilidade”

“Eu não consigo saber exatamente o porquê eu estou sendo cassado. O processo não tem uma denúncia formal, foi votado na Alerj, se falou em milhões de coisas, mas não há nenhum elemento concreto que aponte qual é a minha responsabilidade. Não posso te dizer, porque eu não consigo fazer uma avaliação técnica de um processo que é nulo. O processo foi um vale tudo, se perguntou de tudo. Todos os juízes que estão lá não tem experiência em matéria criminal”, afirmou.

Caso saia inocentado do tribunal e retome os poderes políticos, Witzel vai convidar a Assembleia Legislativa do Rio para administrar a área de saúde do estado ao lado dele.

Segundo o ex-juiz, há reclamações por parte da Alerj de que não havia uma integração com os deputados. No entanto, Witzel alertou que cada um tem seu papel.

“Deputado tem que legislar e fazer o controle das usas atividades administrativas. Eu fiz uma proposta de convidar, diante dos fatos que ocorreram, a comissão de saúde da Alerj para compor um conselho de gestão da saúde do estado. Eu abro mão de administrar a saúde do Rio e convido os deputados de dividir comigo o que fazer com a saúde do Rio”.

Sobre o governador em exercício, Cláudio Castro, Witzel afirmou que não tinha amizade com ele, mas ressaltou que também não tem nenhum sentimento negativo.

“Eu não tenho raiva de ninguém. Eu não nutro esse sentimento de raiva. Eu fui juiz, a minha visão da justiça é que ela tem que ser aplicada de acordo com princípios legais”, disse.

A CNN entrou em contato com o governador em exercício do Rio, Cláudio Castro, que ainda não se manifestou sobre a entrevista. O Palácio do Planalto disse que não vai comentar as declarações de Wilson Witzel. O Ministério Público, citado por Witzel, lembrou que, por causa do foro privilegiado do governador afastado, a investigação cabe à Procuradoria-Geral da República. A PGR disse que não comenta declarações.

Wilson Witzel (PSC-RJ), governador afastado do Rio de Janeiro (23.abr.2021)
Wilson Witzel (PSC-RJ), governador afastado do Rio de Janeiro (23.abr.2021)
Foto: Reprodução/CNN