Pesquisadores indicam falta de estratégia do governo e apontam mortes evitáveis

Estudos apresentados por Jurema Werneck e Pedro Hallal mostram que até 400 mil mortes por Covid-19 poderiam ter sido evitadas no Brasil

Gregory Prudenciano, Murillo Ferrari, Rafaela Lara e Renato Barcellos, da CNN, em São Paulo, e Bia Gurgel, da CNN, em Brasília
24 de junho de 2021 às 09:19 | Atualizado 24 de junho de 2021 às 18:40
Pedro Hallal e Jurema Werneck prestam depoimento á CPI da Pandemia
Pedro Hallal e Jurema Werneck prestam depoimento á CPI da Pandemia
Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

A CPI da Pandemia ouviu nesta quinta-feira (24) o epidemiologista e pesquisador da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Pedro Hallal, e Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil e representante do Movimento Alerta.

Durante a oitiva, Werneck ressaltou que a falta de investimento para adequar o sistema de saúde e a falta de uma liderança nacional para orientar a população de modo estratégico foram fatores que contribuiram para o Brasil ter mortes "acima do esperado".

Diretora-executiva da Anistia Internacional, Jurema Werneck -- que também é médica -- apresentou à CPI um estudo coordenado por ela. Segundo o levantamento, nas primeiras 52 semanas de pandemia no Brasil, houve 305 mil "mortes em excesso". Ainda de acordo com a médica, o país não teve medidas de controle da transmissão do vírus. Caso as devidas providências tivessem sido tomadas, haveria uma redução de 40% no potencial de transmissão do vírus.

Já o epidemiologista Pedro Hallal apresentou dados do estudo EPICOVID, que diz que quatro de cada cinco mortes pela Covid-19 no Brasil poderiam ter sido evitadas se o país tivesse seguido políticas adotadas por outros locais do mundo. Os dados já haviam sido apresentados à CPI pela microbiologista Natalia Pasternak. 

"Quatrocentas mil dessas 507.240 mortes poderiam não ter aconteido se o Brasil estivesse na média mundial", disse Hallal.

Segundo o médico, embora o Brasil represente 2,7% da população mundial, o país registra 12,9% das mortes por Covid-19 no mundo. "Ontem, uma de cada três pessoas que morreram por Covid no mundo foi no Brasil", ressaltou.

Ainda de acordo com Hallal, a demora na compra de vacinas levou a pelo menos 95,5 mil mortes que poderiam ter sido evitadas. No entanto, outras pesquisas apontam que esse número pode ser ainda maior: 145 mil vidas poderiam ter sido salvas.

Os depoimentos estavam previstos inicialmente para a sexta-feira (25), mas foram antecipados pelo presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM). Com a decisão, a audiência do assessor do Palácio do Planalto Filipe Martins, prevista para esta quinta, foi adiada.

Resumo da CPI da Pandemia:

• 'Afirmação de que tratamento precoce salvou vidas é absolutamente equivocada'

Questionado pela senadora Soraya Thronicke (PSL-MS) a respeito da efetividade do chamado "tratamento precoce", com uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19, Pedro Hallal disse que "todos os estudos em relação à cloroquina mostram que não salvou nenhuma dessas vidas". "Não tem nenhuma evidência de que a cloroquina diminua o risco em comparação com não fazer nada", disse Hallal.

O epidemiologista disse que a afirmação de que o tratamento precoce salvou vidas "é absolutamente equivocada" e comparou quem celebra os mais de 16 milhões de curados da Covid-19 com quem comemorou o gol de honra do Brasil no jogo contra a Alemanha na Copa do Mundo de 2014, quando a seleção europeia venceu por 7 a 1. 

"Dezesseis milhões de curados significa que 16 milhões de pessoas ficaram doentes, muitas delas vão ter sequelas de longo prazo. Não é motivo para comemoração", afirmou Hallal.

• Epidemiologista diz que cerca de 400 mil mortes poderiam ter sido evitadas

Coordenador do estudo EPICOVID, Pedro Hallal apresentou dados apontando que quatro de cada cinco mortes pela Covid-19 no Brasil poderiam ter sido evitadas se o país tivesse seguido políticas adotadas por outros locais do mundo. 

 "Quatrocentas mil dessas 507.240 mortes poderiam não ter acontecido se o Brasil estivesse na média mundial", disse Hallal.

Segundo o médico, embora o Brasil represente 2,7% da população mundial, o país registra 12,9% das mortes por Covid-19 no mundo". "Ontem, uma de cada três pessoas que morreram por Covid no mundo foi no Brasil", ressaltou.

Ainda de acordo com Hallal, a demora na compra de vacinas levou a pelo menos 95,5 mil mortes que poderiam ter sido evitadas. No entanto, outras pesquisas apontam que esse número pode ser ainda maior: 145 mil vidas poderiam ter sido salvas.

"Outros pesquisadores, usando um método, com toda tranquilidade pra dizer isso, inclusive mais robusto do que o nosso, porque eles analisaram os dados não especificamente dessas vacinas, mas o ritmo da campanha de vacinação que teria sido, caso tivéssemos adquirido, e eles estimaram 145 mil mortes especificamente pela falta de aquisição de vacinas tempestivamente pelo governo federal", finalizou. 

• Hallal: Bolsonaro deveria ter exercido sua liderança, mas não o fez

O epidemiologista afirmou que quem foi eleito para administrar o país e deveria ter exercido a liderança durante a maior crise sanitária desta geração, não o fez. 

Em resposta ao senador Humberto Costa, Hallal ressaltou: "Não podemos deixar de admitir que a liderança nacional tem um papel, nem o senhor, nem o senhor e nem eu fomos eleitos com 57 milhões de votos. Quem é eleito com 57 milhões de votos tem um papel na maior crise sanitária do país".

Na avaliação do médico, a responsabilidade em torno da pandemia deve ser partilhada com outros gestores, "mas não se pode tirar as responsabilidades federais".

Para Jurema Werneck, no entanto,  o caos da pandemia foi instituído por negligência e falta de atenção com o SUS.

"A liderança nacional coordena, une. As lideranças locais tentaram fazer algo, mas foi insuficiente. A doença requer confiança nas medidas, requer ações e estímulos para a indústria do Brasil. O governo deveria ter cuidado com viajantes, com portos e aeroportos", disse.

• Pesquisadores ressaltam a importância do uso de máscaras e dizem que não é o momento de deixar de usá-las

O pesquisador da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) afirmou que os brasileiros não devem deixar de usar a máscara de proteção. Segundo Pedro Hallal, o Brasil não atende quatro requisitos básicos para descartar o acessório: número de casos baixo, leitos de UTIs vagos, óbitos controlados e alta taxa de vacinação.

"Os requisitos são quatro critérios tradicionais, temos que ter: número de casos muito baixo, não é o momento. O Brasil ontem quebrou recorde no número de casos diários. Precisamos ter espaço suficiente nas unidades de internação, não é a realidade. Precisamos ter os óbitos controlados e precisamos ter a vacinação avançada. O Brasil, infelizmente, tem apenas 12% da população total vacinada. Isso faz com que não seja momento de retirar a máscara", disse.

"Todas as vezes que via discurso de Hitler tinha gente aplaudindo, não estou fazendo nenhuma comparação, mas que é normal que Bolsonaro tenha sido aplaudido por suas falas", completou.

Já a médica Jurema Werneck ressaltou a necessidade e a urgência da criação de um decreto garantindo distribuição de máscaras.

"A resposta imunológica por contágio é temporária e desaparece dentro de um certo tempo.O descontrole no Brasil corre risco de não demorar para termos uma variante cuja vacina não seja eficiente. Por isso é urgente a distribuição de máscara, testagem, informação baseada em conhecimentos já adquiridos", afirmou.

• Brasil não teve ondas, mas um grande tsunami de Covid-19, diz Werneck

A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) também questionou os especialistas sobre a ocorrência de ondas do novo coronavírus no Brasil.

Eu sua resposta, Jurema Werneck disse que o estudo do Grupo Alerta nem trata a pandemia dessa forma, mas leva em consideração a presença da doença e as mortes em decorrência disso.

"Mas olhando de onde a gente olha, e o doutor Pedro [Hallal] pode demonstrar, não estamos em ondas, estamos sendo arrastado por um grande ‘tsunami’, uma grande tragédia que nunca acaba porque o Brasil não está tomando as medidas necessárias de controle da pandemia, de controle da transmissão, de vigilância epidemiológica e de preparo do sistema de saúde", afirmou.

"Estamos sendo atropelados de uma vez só, como a gente vai levando um caixote [gíria carioca para tombo no mar] atrás do outro, a gente não coloca a cabeça para fora para respirar. Não tivemos essa chance de baixar para, depois, subir."

Hallal afirmou, por sua vez, que o conceito de ondas não se aplica para a pandemia no Brasil pelo fato de o país nunca saiu da primeira. "A segunda engoliu a primeira e a terceira está engolindo a segunda."

Ele disse que existem duas razões pelas quais esse terceiro momento pode ser pior do que os anteriores e uma razão pela qual ele pode ser menos ruim.

"As duas razões que pode ser pior é que o patamar inicial é muito mais elevado, já partimos com 2 mil mortes por dia (...) e o segundo fator é a contribuição de novas variantes", destacou o especialista.

"Por outro lado tem um fator que pode atenuar essa terceira onda que é a vacinação. Infelizmente, nosso ritmo ainda é lento, mas já tem 12%, 13% da população vacinada e isso pode causar um fenômeno: que a terceira onda seja a maior de todas, em termos de caso, e talvez não seja a maior de todas em termos de óbitos – porque as vacinas protegem muito mais contra óbitos do que contra casos.

• 'Não existe supernotificação de óbitos por Covid-19 no Brasil'

Questionado pela senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) sobre as estimativas de casos e mortes por Covid-19 no Brasil, Pedro Hallal afirmou que há, sim, no país, uma subnotificação de casos, "como na maior parte do mundo", devido à quantidade de testes realizada no país.

"Mas, primeiro, deixa eu esclarecer, não existe supernotificação de óbitos [por Covid-19] no Brasil. Essa foi uma informação que foi trazida pelo presidente da República de um documento que teria vazado do [Tribunal de Contas da União] TCU – acredito que essa comissão vai averiguar –, mas não existe nenhum estudo científico sugerindo que tenha superestimação de óbitos", disse o epidemiologista.

Ele disse que, na verdade, existem alguns estudos que mostram o contrário: que existiriam mais mortes pela doença no país do que o registrado oficialmente.

"Não é uma magnitude tão grande. A pessoa que mais me referencio para falar deste assunto é o professor Paulo Lotufo, um epidemiologista como eu, que vem monitorando isso, de subestimativa de óbitos", continuou.

"Ele [Lotufo] tem estimado que, hoje, a subnotificação é na casa de 12%, ou seja, peguemos a estatística oficial de 504 mil [vítimas], multipliquemos por 1,12 e teremos uma noção do número de pessoas que perderam a vida para a Covid-19 no Brasil."

• 'Ministério da Saúde falhou e continua falhando no combate à Covid-19'

O relator da CPI perguntou aos dos especialistas qual a responsabilidade do Ministério da Saúde em evitar mortes causadas pela pandemia de Covid-19.

"Ao não colocar em prática, não mover o Sistema Único de Saúde com o potencial de liderança, de indutor do sistema, de não fazer as previsões e não fazer os investimentos necessários, não há dúvida que o Ministério da Saúde falhou terrivelmente – poderia ter sido diferente – e segue falhando", disse Jurema Werneck. 

Pedro Hallal disse concordar integralmente com a representante da Anistia Internacional. "Essa responsabilidade é obviamente do Ministério da Saúde que é a instituição na nossa estrutura governamental responsável por lidar com a pandemia", completou.

Questionados se os estudos apresentados por eles aos senadores podem ajudar a apurar as responsabilidades por essas falhas, Werneck disse que o estudo feito pelo Grupo Alerta aponta uma série de medidas que deveriam ter sido tomadas.

"E aponta também que havia recursos – é verdade que estamos diante de um SUS enfraquecido em comparação com anos anteriores –, mas não investiu para adequar o sistema de saúde às necessidades do que estava por vir", disse ela. 

"Durante esse período o Brasil teve 4 ministros da saúde. Por mais que eu tenha elogios e criticas na atuação dos quatro, os principais atos negacionistas não foram de nenhum dos quatro e sim o presidente da República", respondeu Hallal, se referindo a Jair Bolsonaro.

"Não existe como defender a promoção de aglomeração sem máscara, por exemplo. É a pior postura que observamos como pesquisadores durante a pandemia."

• Hallal: Fui censurado em apresentação para o governo

Questionado pelo vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP),  Pedro Hallal voltou a falar à comissão sobre um episódio em que disse ter sido censurado pelo Ministério da Saúde.

Segundo Hallal, ele foi informado 15 minutos antes de uma entrevista coletiva sobre o Epicovid de que um slide com dados sobre infecções por etnias – com destaque para infecções entre indígenas – havia sido removido da apresentação.

"Não tenho como saber se a ordem foi dada por algum superior imediato, mas quem estava lidando com a coletiva na época foi o ex-secretário executivo Élcio Franco. Não sei se teve alguma interferência de outra pessoa, mas se não, foi dele."

Ainda sobre o programa, ele disse ter custado R$ 12 milhões e foi custeado com verba do Ministério da Saúde enviada para a Universidade Federal de Pelotas.

"O processo foi muito ágil. Foram contratadas 3 fases, as 3 foram concluídas. E o monitoramento foi interrompido e em seguida foi agora, em fevereiro, março, foi lançado um estudo chamado Prevcov – com um tamanho praticamente igual ao nosso, mas só em capitais, diferente do nosso que pegou o interior – e custando R$ 200 milhões", disse.

Ele disse que ficou sabendo da interrupção do Epicovid pela mídia e que a explicação do então ministro, Eduardo Pazuello, foi que optaram por fazer outros estudos – que, até hoje, não teriam ido a campo.

• 'Imunidade de rebanho tem efeito perverso na sociedade', diz Werneck

Ao complementar a fala de Hallal sobre a imunidade de rebanho, a pesquisadora afirmou que se trata de uma estratégia que tem "efeito perverso na sociedade". 

"A noção de imunidade de rebanho tem efeito perverso na sociedade. Ser humano não é rebanho, estamos falando de imunidade coletiva, esse é o primeiro ponto", disse.

Segundo ela, quando se trata de rebanho, os pecuaristas e veterinários adotam a vacinação para a proteção desses animais. 

"Quando pensamos no rebanho, na imunidade do rebanho, a gente deve perguntar a qualquer pecuarista ou veterinário: O que eles fazem para imunizar o que seu rebanho? Eles vacinam. Eles garantem as vacinas para salvar o seu rebanho. Ser humano não é gado, e a gente quer que todos estejam imunes", disse Werneck.

• Jurema Werneck diz que faltou 'liderança nacional' no controle da pandemia

Sobre as medidas não farmacológicas implementadas no Brasil, a pesquisadora Jurema Werneck afirmou que "faltaram muitas coisas" no enfrentamento da pandemia. 

Ela destacou o desencontro de informações, as fake news propagadas sobre a Covid-19 e a "falta de liderança nacional". "É preciso que a liderança tenha uma mensagem única garantindo a confiança da população."

"Isso infelizmente faltou e ainda falta, é preciso uma liderança nacional firme, baseada em evidências, que cumpra e faça cumprir as medidas necessárias para salvar vidas", disse.

• Atraso na compra de vacinas causou ao menos 95,5 mil mortes, diz epidemiologista

Hallal também apresentou estimativas feitas por ele e por outros pesquisadores sobre os possíveis impactos que a demora do Brasil na aquisição de vacinas contra Covid-19 causaram em relação aos mortos pela doença no país.

"Fizemos uma análise que estimou, especificamente, que o atraso na compra das vacinas da Pfzier e da Coronavac, resultou em 95,5 mil mortes", disse o epidemiologista.

Ele afirmou ainda que outros pesquisadores, usando um método mais robusto de pesquisa – com análise de dados do ritmo da campanha de vacinação – estimaram 145 mil mortos "pela falta de aquisição de vacina tempestivamente pelo governo federal".

Desta forma, ele concluiu afirmando que o Brasil "é um dos piores países do mundo na resposta à Covid-19 (..) Não há outra justificativa que não a postura anti-ciência adotada no país".

• Hallal: 'Cidades com mais votos em Bolsonaro em 2018 apresentam mais mortes por Covid-19'

Em sua apresentação, Pedro Hallal apresentou dois gráficos de mortalidade no Brasil, um geral e outro específico sobre Covid-19, fazendo o cruzamento com os votos no presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na eleição presidencial de 2018.

"As cidades em que o presidente foi mais votado tiveram mais casos e mortes por Covid e isso não deveria ter relação", disse.

O pesquisador foi interrompido pelo senador Fernando Bezerra (MDB-PE), que perguntou qual a relação entre as duas coisas.

"Qual é a base cientifica para fazer uma afirmação dessa natureza? É preciso ter cautela ao fazer afirmações. Está tentando se construir uma narrativa", disse o emedebista, que é líder do governo Bolsonaro.

"Os dados mostram que de acordo com o percentual de votos do atual presidente aumenta a mortalidade por Covid-19. Cada pessoa faz a interpretação que achar mais adequada desse resultado", respondeu Hallal. 

"O que estou dizendo que isso não se observa por acaso. Quando a gente compara com mortalidades em geral, não existe essa tendência, ela é específica para Covid-19."

• Hallal fala em '7 pecados capitais' no enfrentamento da Covid-19

Em sua fala inicial, Pedro Hallal, apontou o que considera serem os "7 pecados capitais", do ponto de vista da epidemiologia, cometidos pelo país no enfrentamento da Covid-19:

  1. Pouca testagem, rastreamento de contatos e isolamento
  2. Demora na compra e desestímulo à vacinação
  3. Promoção de tratamentos ineficazes
  4. Ausência de liderança do Ministério da Saúde e de um comitê de crise
  5. Desestímulo ao uso de máscaras
  6. Uso de uma abordagem clínica vs. epidemiológica
  7. Falta de uma comunicação unificada

Hallal defendeu ainda o uso do número de mortes ao invés do registro de casos já que o dado dobre casos não pode ser considerado conviável por depender da estratégia de testagem do país.

Ele disse ainda que é preciso usar relativos ao invés de números absolutos ao fazer comparações e defendeu a importância de usar fontes confiáveis de dados.

"Já ouvi aqui, nesta CPI, que o Brasil é o 4º país que mais vacina no mundo. É lamentável essa afirmação ser feita. Em números relativos, o Brasil não está entre os 70 países que mais vacinam", disse Hallal.

"Assim como também não é o segundo país com mais mortes no mundo. É o 8º, 9º, depende dos últimos dois ou três dias, se mudou."

• Pesquisadora propõe 5 medidas que deveriam ser adotadas pelo país

Jurema Werneck concluiu sua fala inicial aos senadores da CPI da Covid com cinco recomendações de medidas que deveriam ser adotadas daqui para frente pelo país:

  • Criação do Memorial Nacional das Vidas Perdidas para a Covid -19
  • Criação de um Plano de Responsabilização e Reparação
  • Criação de Frente Nacional de enfrentamento da Covid-19 no Brasil
  • Garantir a implementação consistente de medidas não farmacológicas para a redução da transmissão
  • Adequação da dimensão, abrangência e responsabilidades do Sistema Único de Saúde (SUS) aos atuais e futuros desafios epidemiológicos

"A gente precisa viver como coletividade, como nação, esses rituais e processos de luto. Essa CPI pode e precisa liderar esse processo", disse. "Falamos de reparação individuais às famílias, mas principalmente de forma coletiva."

Há um desafio que está colocado: outras epidemias virão. E a gente precisa do SUS, daquele sonho colocado na Constituição de 1988. Há vidas que ainda podem ser salvas", concluiu

• Medidas poderiam ter evitado 120 mil mortes em um ano

Ainda segundo os estudos, Jurema Werneck afirmou que se medidas eficientes de distanciamento e controle da transmissão, e de vigilância epidemiológica de saúde tivessem sido adotadas, haveria redução de 40% no potencial de transmissão do vírus.

"A gente poderia, ainda no primeiro ano de história da pandemia, nas 52 primeiras semanas epidemiológicas, ter salvo 120 mil vidas", disse. "Não são números, são pais, mães, irmãos, sobrinhos, são tios, vizinhos, gente que eu não conheço, mas habitam esse país como eu."

"A gente poderia ter salvo pessoas se uma política efetiva de controle, baseada em ações não farmacológicas tivesse sido implementada", complementou.

Ela destacou ainda que o risco de morte não foi o mesmo para toda a população brasileira.

"As iniquidades fizeram diferença. Com base em dados da Pnad-Covid sobre testagem no primeiro ano da pandemia, concluímos que menos de 14% da população brasileira fez testes de diagnóstico para a Covid-19", afirmou. "Isso mostra que o país não estava buscando medidas básicas para garantir o controle da transmissão."

Jurema também destacou que pessoas com renda superior a quatro salários mínimos consumiram quatro vezes mais testes do que pessoas que receberam menos de meio salário mínimo e que a maioria das pessoas que morreram eram negras, indígenas, de baixa renda e baixa escolaridade. 

• Primeiro ano da pandemia resultou em 305 mil mortes acima do esperado no Brasil

Em sua fala inicial, Jurema Werneck apresentou dados de um estudo conduzido entre março de 2020 – após a primeira morte confirmada por Covid-19 no país – e março de 2021 sobre as mortes causadas por Covid-19 no Brasil.

"A pandemia no Brasil, ao longo de 52 semanas, produziu aquelas mortes em excesso. Quantificando, podemos afirmar que foram 305 mil mortes acima do esperado no Brasil no primeiro ano da pandemia", afirmou, se referindo a uma comparação com o número médio de mortes registrado no país entre 2015 e 2019.

Ela disse ainda que dentro desse número de 305 mil mortes estão tanto casos diretos de pessoas que foram vítimas do novo coronavírus quanto mortes causadas indiretamente pela presença da pandemia no país.

"Significa que [foram contabilizadas] pessoas que retardaram o pedido de ajuda ou que buscaram ajuda, mas o serviço [de saúde] estava sobrecarregado e não foi capaz de dar atenção necessária. Ou seja, são todas as mortes que a pandemia provocou, direta ou indiretamente."

Sobre as medidas que poderiam ser tomadas para reduzir as mortes por Covid-19, ela disse que estudos mostram dois caminhos: a redução da transmissão e a preparação do sistema de saúde.

Sobre o primeiro ponto, ela disse que deveria ter sido posto em prática uma vigilância epidemiológica, com ampla testagem e rastreamento de contatos para conter a transmissão do vírus, além da adoção de medidas não farmacológicas.

"Estudos já comprovam que uso de máscara é uma alternativa importante, o distanciamento físico é uma alternativa importante, a restrição da mobilidade e a redução da taxa de contato, isso tudo os estudos mostram que teria feito diferença."

Sobre o sistema de saúde, ela disse que era necessário ter "oferta de profissionais treinados em quantidade suficiente", além da oferta de leitos em hospitais, principalmente os de UTI.

• Relator da CPI pede que CPI garanta proteção de dono da Precisa Medicamentos

O relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), pediu ainda que a CPI da Pandemia garanta a segurança do empresário Francisco Maximiano, da Precisa medicamentos, para não incorrer em prevaricação.

"A Precisa será alvo a partir de agora. É uma testemunha muito importante e precisamos garantir a segurança de vida dele. A empresa teria levado dinheiro público, mas precisamos garantir a segurança de vida dele", disse Renan. 

O pedido foi rebatido pelo líder do governo no Senado, Fernando Bezerra (MDB-PE), que disse que Maximiano não fez nenhum tipo de pedido em relação à sua segurança.

Ao responder ao pedido de Renan, o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM) afirmou que pedirá para a secretaria da mesa-diretora da CPI entrar em contato com os advogados do empresário sobre essa questão.

"Caso ele não peça [proteção], não tenho porque demandar esse tipo de solução. Se ele quiser, demandaremos na mesma hora."

• Sessão é aberta com questões de ordem

A sessão da CPI nesta quinta-feira (24) foi aberta com uma questão de ordem do senador Eduardo Girão (Podemos-CE) que pediu ao presidente da CPI a definição da data do depoimento do ministro-chefe da Controladoria-geral da União (CGU), Wagner Rosário.

"[O requerimento] foi aprovado duas semanas atrás e o próprio ministro declarou que quer vir depor. Solicito que paute, por gentileza, o depoimento – se possível – na próxima semana", disse Girão.

Já o senador Humberto Costa (PT-PE), em outra questão de ordem, afirmou que protocolou na CPI um requerimento para que o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência do Brasil, Onyx Lorenzoni, seja convocado pela comissão.

Esse pedido do senador petista foi apoiado também pelo relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), que chamou de "bravata" a entrevista coletiva de Onyx na véspera sobre as acusações de irregularidades na compra da vacina Covaxin.

"Ele [Onyx] comete um crime porque é um caso clássico de coação de testemunha e de dificuldade de avanço da investigação (...) Se esse senhor continuar a reincidir, não temos outra coisa senão requisitar a prisão dele", disse Renan.

Justificativas para convocações

Os requerimentos são de autoria do relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL). Na justificativa, ele explica que Hallal conhece a situação brasileira em relação à pandemia e as políticas públicas a serem adotadas nessa situação. 

“Por ser gestor e médico, acadêmico e cientista de grande respeitabilidade nacional e internacional, certamente contribuirá para que os integrantes desta comissão possam avaliar os fatos com a profundidade que merecem”, ressaltou.

Já em relação a Werneck, Renan classifica sua participação como “necessária” para subsidiar os membros da CPI com informações e esclarecimentos. Ele explicou que o Movimento Alerta é formado por entidades da sociedade civil que trabalharam na consolidação de dados e informações sobre as mortes ocorridas durante a pandemia.

Pedro Hallal (E) e Jurema Werneck (C) são ouvidos pela CPI da Pandemia
Foto: Jefferson Rudy - 24.jun.2021/Agência Senado

(Com informações da Agência Senado)