Coaf aponta transações milionárias suspeitas em empresas de Francisco Maximiano

O relatório mostra que, dos R$21,7 milhões creditados na conta da Precisa, R$14 milhões foram depositados pelo mesmo titular

Bárbara Baião e Rachel Vargas, da CNN em Brasília
06 de julho de 2021 às 14:58 | Atualizado 06 de julho de 2021 às 18:52

Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) aponta que a Precisa Medicamentos, empresa intermediária na compra da vacina indiana Covaxin, movimentou, entre 17 de fevereiro e 14 de junho de 2021, R$43,7 milhões em transações consideradas atípicas.

O valor considera entradas e saídas de uma conta bancária. O documento obtido com exclusividade pela CNN foi elaborado com base nos critérios do órgão de controle e entregue a pedido da CPI da Pandemia, com base nos critérios do órgão de controle.

O Coaf destaca que a maior parte dos recursos foram movimentados entre empresas pertencentes à mesma pessoa: Francisco Maximiano, responsável por negociar a Covaxin com representantes da vacina na Índia e com integrantes do governo federal.

O relatório mostra que, dos R$21,7 milhões creditados na conta da Precisa, R$14 milhões foram depositados pelo mesmo titular. O documento explica ainda que dos R$22 milhões que deixaram a conta, R$14 milhões tiveram como destino a BSF Gestão Saúde Ltda, empresa de Maximiano.

Transação que saltou aos olhos do órgão de inteligência.“Identificamos que os créditos mais expressivos ocorreram por meio da mesma titularidade, dificultando assim a identificação, os ordenantes, a origem de fato, valores esses repassados para a BSF GESTÃO EM SAÚDE LTD, empresa do grupo, somado ao volume transacionado estar superior ao faturamento anual cadastrado”, diz um trecho do documento.

O relatório aponta as seguintes ocorrências: incompatibilidade da atividade econômica ou faturamento informado com o padrão apresentado por clientes com mesmo perfil; movimentação de recursos incompatível com o patrimônio, atividade econômica ou ocupação profissional; recebimento de recursos com imediata compra de instrumentos para a realização de pagamentos a terceiros.

Outras empresas de maximianos

Nas 17 páginas, o documento relaciona 55 empresas e 40 pessoas físicas ligadas financeiramente à Precisa. E, novamente, chama a atenção a movimentação da BSF Gestão em Saúde LTDA, cuja sociedade, além de Maximiano, inclui a Global Gestão em Saúde - alvo de ação do Ministério Público pela venda de remédios, nunca entregues, ao Ministério da Saúde.

O relatório informa que num período de, aproximadamente, seis meses (1/9/2020 a 28/2/2021) passaram pelas contas da BSF R$ 68,1 milhões, volume considerado “incompatível com a capacidade financeira presumida da empresa”. O último faturamento informado da empresa é de R$5,4 milhões (referente ao período de janeiro a junho de 2019).

Dentre as movimentações consideradas suspeitas está o pagamento “sem fundamentação econômica-financeira” a empresas do ramo de viagens, localizadas em estado diferente da de atuação da BSF, além de depósitos para outras do setor mobiliário, cuja atividade de atuação é diferente dos serviços prestados pela empresa.

O Coaf elabora relatórios de inteligência financeira a partir de comunicações de setores regulados de operações com características suspeitas, como alto valores em espécie. Quando há indícios de prática de crime, como lavagem de dinheiro, por exemplo, os documentos são produzidos. Os relatórios, por si só, não são provas, mas servem de indício para que investigadores aprofundem as apurações. O que deve acontecer com o documento enviado à CPI.

O contrato no valor de R$ 1,6 bilhão para a compra de 20 milhões de doses da Covaxin foi fechado no dia 25 de fevereiro, e previa a entrega em cinco lotes a partir de março. Até junho nenhuma vacina havia chegado ao Brasil, e o ministério da Saúde decidiu, na semana passada, suspender o contrato após recomendação da Controladoria Geral da União. O caso é citado em diversos pontos do relatório.

Outro lado

A CNN procurou as empresas citadas e o escritório de advocacia que representa Francisco Maximiano. A defesa do empresário, a BSF Gestão em Saude e a Precisa deram o mesmo retorno, afirmando que as transações são lícitas e regulares.

"Tratam-se de transações financeiras regulares, lícitas, entre empresas coligadas. Considerar isso ilegal é querer distorcer os fatos, eis que o conceito de transação atípica do Coaf não é necessariamente de operação financeira irregular.”

Foto: Reprodução