Investigações envolvendo Salles apontam para 'lavagem' de carga florestal

Em ofício enviado ao Supremo, PF afirma que madeireira utilizou de documentos falsos e tentou dar roupagem legal a carga extraída de forma irregular

Gabriela Coelho e Giovanna Galvani, da CNN, em Brasília e São Paulo
20 de julho de 2021 às 15:17 | Atualizado 20 de julho de 2021 às 16:53

A Polícia Federal informou ao Supremo Tribunal Federal, por meio de ofício enviado na segunda-feira (19), que uma das apurações que atingem o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles aponta para o uso de documentos falsos e "lavagem" de produtos florestais.

O ofício, assinado pelo delegado Franco Perazzoni, pede para que o ministro Alexandre de Moraes designe as investigações deflagradas pela Operação Akuanduba para a Justiça Federal de Altamira, no Pará, já que os elementos adquiridos até o momento apontam que a madeira ilegal foi retirada daquela região.

Por ter sido exonerado de seu cargo de ministro, os processos envolvendo Salles não podem mais ficar no STF.

De acordo com os investigadores, os elementos indicam a ocorrência de uma "lavagem" de produtos florestais. Em outras palavras, teria havia uma tentativa de "legalizar" materiais extraídos de forma ilegal com a utilização de documentos expedidos oito meses após a exploração das áreas.

Salles e outros ex-servidores do Ibama foram alvo da Akuanduba em maio de 2021. A investigação apurou informações obtidas junto a autoridades estrangeiras, que relataram desvio de conduta de servidores brasileiros no processo de exportação de madeira. Os possíveis crimes cometidos são de corrupção, prevaricação, advocacia administrativa e organização criminosa.

Dados obtidos junto às autoridades aduaneiras e ambientais da Bélgica e da Dinamarca apontaram que a empresa Tradelink, uma exportadora de madeira investigada no caso, teria entrado em contato com os países de dentro da Superintendência do Ibama no Pará.

Além disso, a PF solicitou ao Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos - que denunciou em primeiro lugar a situação irregular da madeira recebida no porto de Savannah, Georgia - a documentação enviada junto à carga para verificar se havia informação sobre a origem dos produtos florestais. Com isso, foi possível identificar irregularidades no processo.

"É possível verificar que 3 das 4 origens declaradas são de concessões florestais no interior da Floresta Nacional de Altamira, Unidade de Conservação Federal situada em sua maior parte no interior do referido município, localizado no estado do Pará e, por conseguinte, na jurisdição da 
Subseção Judiciária em Altamira/PA", diz o ofício.

Ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles
Foto: Carolina Antunes/PR

Um laudo pericial ainda confirmou que a origem dos produtos que foram exportados para os EUA pela Tradelink tinham um Documento de Origem Florestal (DOF) com data posterior aos sinais de exploração da região - um ponto que reafirmou suspeitas de "lavagem" da madeira, informa a PF.

"A origem dos produtos florestais que foram exportados por meio do contêiner TCNU7091944 apresentou DOFs emitidos mais de 08 (oito) meses após o final dos sinais de exploração florestal detectados em imagens de satélite, o que é bastante inusual e reforça a possibilidade de 'lavagem' de produtos florestais de outras áreas a partir de documentos emitidos por essa origem", escrevem.

Procurada pela CNN, a defesa de Ricardo Salles informou que "a PF indica possíveis irregularidades dos madeireiros, mas nada sobre o ex-Ministro Ricardo Salles".