Após polêmica, governo confirma comboio militar na Esplanada
O ato, inédito, gerou controvérsia por ocorrer no mesmo dia da votação da PEC do voto impresso, bandeira do presidente Jair Bolsonaro
O governo confirmou na noite desta terça-feira (9) o comboio de blindados na Esplanada dos Ministérios para entrega de um convite ao presidente Jair Bolsonaro visitar uma base militar em Formosa, em Goiás.
De acordo com uma nota assinada pela Marinha e distribuída pelo Ministério da Defesa, "a entrega do convite ao Presidente da República foi planejada para contemplar um comboio composto por algumas das principais viaturas, cujo total da Operação é 150, e que iniciaram o deslocamento para o Planalto Central desde o dia 08 de julho. Desse comboio, 14 viaturas ficarão em exposição durante essa terça-feira, em frente ao prédio da Marinha na Esplanada dos Ministérios. Os eventos buscam valorizar e apresentar, à sociedade brasileira, o aprestamento dos meios operativos da nossa Marinha."
O governo chegou a avaliar se haveria o desfile do comboio. O ato, inédito, gerou controvérsia por ocorrer no mesmo dia da votação da PEC do voto impresso, bandeira do presidente Jair Bolsonaro que deverá ser enterrada pelo Congresso Nacional.
Na ala política, há uma percepção de que o evento é desnecessário e que houve falta de sensibilidade, tendo em vista a alta tensão em que se encontra o conflito entre as cúpulas do Executivo e do Judiciário e as declarações constantes de Bolsonaro de que não haverá eleições e de que poderá usar algo fora das quatro linhas da Constituição. Já os militares do governo se esforçam para minimizar o evento e tratá-lo como algo normal e sem qualquer relação com o fato de ele ocorrer no mesmo dia em que a PEC do voto impresso será votada pela Câmara dos Deputados.
A CNN apurou que o evento desta terça-feira foi decidido na sexta-feira à tarde, mesmo período em que o presidente da Câmara, Arthur Lira, levou a PEC do voto impresso para o plenário. Na nota na noite desta segunda-feira, a Marinha diz que "a entrega simbólica foi planejada antes da agenda para a votação da PEC 135/2019 no Plenário da Câmara dos Deputados, não possuindo relação, ou qualquer outro ato em curso nos Poderes da República".
Até mesmo dentro das Forças Armadas o assunto foi questionado. Depois que a Marinha divulgou o aviso de pauta na manhã desta segunda-feira, na qual detalha que o "comboio com veículos blindados, armamentos e outros meios da Força de Fuzileiros da Esquadra, que partiu do Rio de Janeiro, passará por Brasília, a caminho do Campo de Instrução de Formosa (CIF)", integrantes das outras duas forças, quando procurados, sob reserva, deixaram claro que não se tratava de evento de suas tropas.
No STF, chegou a ser feita uma checagem na legislação para verificar se ela permitia tanques pela rua sem ser data comemorativa. A ideia era interpretar se haveria desvio de finalidade das tropas, mas concluiu-se que se tratava de um factoide do presidente. O presidente da corte, Luiz Fux, chegou a ser convidado para o evento, mas recusou.
Oficialmente, a entrega do convite para o presidente da República visitar a Operação Formosa, município a 80 quilômetros de Brasília, ocorre há anos, mas nunca houve desfile de blindados. Outra diferença é de que sempre foi um evento exclusivo da Marinha. A deste ano está sendo coordenada pelo Ministério da Defesa e é considerada internamente como o primeiro grande evento da gestão de Braga Neto. Uma terceira diferença é que a entrega ocorreria quando, em princípio, todos os ministros do governo estarão no Palácio do planalto para uma reunião agendada para esta terça-feira das 8h às 11h. Ou seja, todos os ministros, inclusive os civis, obrigatoriamente assistirão ao ato.
O Exército, por exemplo, passou o dia em reunião do seu Alto Comando. Ao ser questionada se a força havia sido consultada, uma fonte disse que à CNN que não caberia questionar o Exército sobre aquilo que não lhe diz respeito e que não havia nada no evento que se relacionasse ao comandante, Paulo Sergio Nogueira. A Aeronáutica também foi na mesma linha. A presença de tanques se deve ao fato de fuzileiros navais da Marinha terem também tanques nas suas operações.
A CNN questionou o Ministério da Defesa formalmente sobre em que dia foi decidido que a entrega do convite seria no dia 10 de agosto, quando ficou definido que o evento seria organizado pela Defesa e não mais pela Marinha e se os três comandantes foram consultados, mas não houve resposta. Também foi enviado um questionamento a Secom do Palácio do Planalto sobre quando foi definido o evento, mas não houve resposta.