Zambelli solta inverte papéis e revive rusga com a Itália no caso Battisti

Decisão da Justiça italiana pela não extradição de Carla Zambelli relembra decisão de Lula em 2010 por conceder asilo ao condenado italiano Cesare Battisti

Rafael Sotero, colaboração para a CNN Brasil, São Paulo
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A decisão da Corte Suprema de Cassação italiana em negar a extradição e autorizar a soltura da ex-deputada Carla Zambelli (PL-SP), reacende debates de uma antiga desavença diplomática entre Brasil e Itália.

A negativa das solicitações do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, recebida na última sexta-feira (22), marca uma inversão de papéis em comparação com um caso de grande repercussão envolvendo um italiano. Cesare Battisti foi condenado à prisão perpétua na Itália que teve sua extradição negada em 2010 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

"A decisão gera um constrangimento para o STF, é inegável, até porque a extradição era tida como muito provável. No entanto acredito que o constrangimento vai ser maior do que o abalo na relação político diplomática com a Itália. O ocorrido deve gerar um abalo momentâneo, mas não um terremoto entre as relações institucionais, até porque a decisão não foi política, como havia sido no caso de Cesare Battisti", afirmou a professora e doutora em Direito Internacional Priscila Caneparo.

Durante visita à Itália em 2025, os senadores Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Magno Malta (PL-ES) levaram a história de Battisti para o vice-primeiro-ministro italiano, Matteo Salvini, como argumento em defesa de Carla Zambelli.

“Lembramos a Salvini que foi Bolsonaro quem cumpriu o pedido da Itália e entregou Battisti, ao contrário do que fez Lula. Isso mostra quem realmente respeita a justiça e os tratados internacionais”, disse Malta na ocasião.

No entanto, a especialista destaca diferenças em relação aos dois casos. "É claro que no imaginário coletivo, o caso do Cesare Battisti volta à tona, mas existem diferenças cruciais. No caso do Battisti, de fato foi concedido asilo político para ele. O Brasil entendeu que naquele momento existiria uma perseguição política e ideológica. No caso da Zambelli, estamos ainda na fase judicial, que levanta apenas critérios técnicos" explicou Caneparo identificando como improvável a ação ter teor de resposta ou ressentimento em relação ao anterior.

Relembre o caso Cesare Battisti

O ex-ativista italiano Cesare Batistti foi condenado a prisão perpétua pela Justiça italiana pelo assassinato de quatro pessoas em 1970. Battisti era membro do grupo "Proletários Armados pelo Comunismo" (PAC) e ficou foragido na França e mais tarde no Brasil, onde foi preso em 2007.

Já em 2010, o então presidente Lula decidia pela não extradição de Battisti. A posição do presidente à época foi na contramão da tomada pelo STF, que já havia concordado em entregar o italiano.

Por meio de um comunicado à imprensa, a Presidência disse ter considerado “atentamente” todas as cláusulas do Tratado de Extradição entre o Brasil e a Itália. O tratado previa a não extradição em casos de “possível agravamento da condição social ou pessoal” do extraditado, termo utilizado para incluir perseguições políticas na interpretação do Governo.

Após a decisão de Lula, o ministro da defesa italiano Ignazio La Russa disse que caso o Brasil concedesse o status de refugiado político a Battisti, o país não ficaria “isento de consequências”. Na época, a atitude do mandatário brasileiro provocou protestos em Roma e indignação por parte do Governo italiano, que convocou de volta o embaixador da Itália no Brasil como movimento político após a negativa da extradição.

Trajetória da prisão de Carla Zambelli

Zambelli foi presa em 29 de julho do ano passado na Itália, após ter o nome incluído na Difusão Vermelha da Interpol como foragida internacional. Ela saiu do Brasil após duas condenações, uma referente à invasão ao sistema do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) e emissão de um mandado de prisão falso contra o ministro Alexandre de Moraes e outra por porte ilegal de arma pelo caso em que apontou um revólver contra um homem em São Paulo.

Na última quarta-feira (20) o ministro do STF Alexandre de Moraes determinou que o Ministério da Justiça e o Itamaraty adotassem as providências necessárias para iniciar o processo de extradição da ex-deputada federal. No entanto, dois dias após a determinação, a Corte Suprema de Cassação rejeitou o pedido para que ela voltasse ao Brasil, o que levou Zambelli à soltura da prisão na Itália.

Já em liberdade, a ex-paralementar agradeceu a Deus pelo resultado de sua soltura e disse que está em uma "vida de missão". "E agora a gente tá livre, graças a Deus, pra continuar uma vida de missão. Vocês não sabem ainda qual é essa missão, mas logo logo vocês vão saber", afirmou Zambelli em um vídeo publicado nas redes sociais de seu advogado.

A palavra final sobre o destino de Zambelli, no entanto, será do ministro da Justiça do país europeu, Carlo Nordio, que é subordinado à primeira-ministra Giorgia Meloni.