AstraZeneca informou ao governo que não negociava vacinas por intermediários

A informação consta em e-mail enviado ao Ministério da Saúde no dia 29 de janeiro; farmacêutica cobrava 'ação fiscalizatória' da pasta

Gabrielle Varela e Rafaela Lara, da CNN, em Brasília e São Paulo

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Documentos enviados pelo Ministério da Saúde à CPI da Pandemia revelam que em janeiro a farmacêutica AstraZeneca informou à pasta que não negociava vacinas por meio de intermediários do mercado privado. 

A CNN teve acesso aos documentos e a informação consta em um e-mail enviado no dia 29 de janeiro. “Toda a produção da vacina AZD 1222 durante o período da pandemia é destinado exclusivamente a governos e organizações internacionais de saúde ao redor do mundo, ou seja, não há possibilidade de comercialização da vacina produzida pela AstraZeneca no mercado privado”, diz trecho do e-mail. 

O e-mail foi direcionado à Agência Nacional de Vigiliância Sanitária (Anvisa) – constam, em cópia, uma funcionária do Ministério da Saúde e a Secretaria Executiva que, à época, era chefiada por Elcio Franco. No Brasil, a AstraZeneca seria representada, inicialmente, pela empresa Davati Medical Supply, que chegou a negociar a venda de vacinas diretamente com o Ministério da Saúde.

Segundo o revendedor da Davati e cabo da Polícia Militar, Luiz Paulo Dominghetti, foi na oferta dos imunizantes que teria ocorrido o pedido de propina de US$ 1 por dose. A Davati ofertava 400 milhões de doses da AstraZeneca ao Brasil.

Segundo Dominghetti, o pedido de propina aconteceu em um restaurante em Brasília e foi feito pelo então diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, que foi exonerado em 30 de junho. 

O e-mail da AstraZeneca, enviado em 29 de janeiro, não menciona a Davati. No entanto, outras duas empresas negociavam a venda deste imunizante com o governo e são citadas na comunicação.

Outro trecho do documento enviado à CPI pede uma “ação fiscalizatória” do Ministério da Saúde. “Com base nesses elementos, a AstraZeneca entende que seria fundamental uma ação fiscalizatória focada nas empresas mencionadas, de forma a se permitir a confirmação definitiva dos ilícitos que estão sendo praticados pelas mesmas e a cessação da prática”.

As empresas mencionadas no email da farmacêutica AstraZeneca são a Biomedic e Virality Diagnostic. “A AstraZeneca Brasil gostaria de reportar a esta 4ª Diretoria o grave fato que tomou conhecimento a respeito da oferta à venda por duas empresas da vacina para a Covid-19 (AZD1222)”, diz outro trecho.

Profissional da Saúde prepara dose de vacina da AstraZeneca contra Covid-19
Profissional da Saúde prepara dose de vacina da AstraZeneca contra Covid-19
Foto: Yves Herman – 15.mar.2021/Reuters

Segundo as informações, o gabinete da Secretaria Executiva do Ministério da Saúde também questionou “a veracidade da informação recebida em que a empresa Biomedic, sediada em Vila Velha – ES, comunica que possui contrato de exclusividade com ‘uma trading e com o laboratório AstraZeneca’ de 300.000.000 de doses da vacina e oferece essas unidades para entrega ainda em fevereiro”, diz trecho do e-mail. 

“Já a empresa Virality Diagnostic oferece 50 milhões de doses da vacina acabada”, detalha a comunicação. Em 30 de junho, a AstraZeneca já havia informado, em nota, que não negociava por meio de intermediários. “Neste momento, todas as doses da vacina estão disponíveis sob acordos assinados com governos e organizações multilaterais em todo o mundo, incluindo a Covax Facility.”

“Atualmente a AstraZeneca não disponibiliza a vacina por meio do mercado privado ou trabalha com qualquer intermediário no Brasil. Todos os convênios são realizados diretamente via Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e Governo Federal”, dizia a nota. 

Biomedic cobrou respostas do Ministério da Saúde

Em e-mails enviados à pasta, obtidos pela CNN, a empresa identificada como Biomedic Distribuidora oferece doses da Astrazeneca por US$ 9 a unidade. A proposta comercial era de, no mínimo, 110 milhões de doses e, no máximo, 300 milhões – conforme relata o e-mail da AstraZeneca em 29 de janeiro. As ofertas tiveram início em janeiro deste ano.

Em outro e-mail, enviado em 26 de janeiro, uma pessoa identificada como Christian, da empresa Biomedic, pressiona o Ministério da Saúde por resposta e diz que “se este documento e outras coisas não fossem reais eu não sairia de casa com a coluna fraturada, gastaria dinheiro e enfrentaria um avião até Brasília se não estivesse todo documentado.”

Em outra troca de mensagens eletrônicas, ele afirma que sabe “que o processo está em clima acelerado, mas infelizmente certas coisas só aparecem uma vez na vida.”

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