Brasil vê processo de retaliação como "seguro" contra novas tarifas dos EUA

Governo fala em cautela, mas quer "cartas na manga" para reagir

Jussara Soares e Daniel Rittner, da CNN, em Brasília
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O Brasil quer usar o início do processo de retaliação contra o tarifaço de Estados Unidos aos produtos brasileiros como uma espécie de "seguro" contra eventuais novas sanções do presidente Donald Trump.

Integrantes do governo descartam a intenção de reação em um curto prazo, mas alegam que era necessário buscar respaldo legal neste momento para estar pronto a reagir politicamente caso haja uma escalada das penalidades aplicadas pelo governo americano.

O argumento é que o processo que, ao final, pode dar respaldo para reação pode levar de seis meses a um ano.

O Brasil ainda tem a opção uma reação emergencial dentro da Lei de Reciprocidade com tarifas sobre bens, caso a situação com os EUA se agrave.

Às vésperas do início do julgamento de Jair Bolsonaro (PL) e outros sete réus pelo plano de golpe de Estado na terça-feira (2), o governo prevê uma escalada de medidas determinadas por Trump em reação a uma possível condenação do ex-presidente.

O governo ainda quer ter uma carta na manga como uma possível resposta a futuras medidas no âmbito da Seção 301. Os Estados Unidos abriram um investigação contra o Brasil por supostas práticas de comércio desleal.

O início do processo que pode resultar na aplicação da Lei Reciprocidade contra os EUA foi comunicado oficialmente nesta sexta-feira (29) pela embaixada brasileira em Washington ao USTR (Representante Comercial da Casa Branca)

O aviso ocorreu um dia depois do Itamaraty receber o aval do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e acionar a Camex (Câmara de Comércio Exterior) para iniciar consultas e investigações para uma resposta à tarifa de 50% imposta a produtos brasileiros.

Inicialmente, são trinta dias para verificar se o tarifaço de Trump se enquadra na aplicação da Lei de Reciprocidade. Caso aceite, um grupo de trabalho será criado para discutir contramedidas com o setor privado.

Fontes a par das negociações citam que o aval de Lula para o acionar a Camex é uma sequência natural de medidas que já vinham sendo tomadas desde que Trump anunciou o tarifaço contra o Brasil em 9 de julho. Todavia o governo segue tratando as contramedidas de reciprocidades como último recurso na crise entre os país

Integrantes do governo Lula tem afirmado que o a notificação sobre o início das consultas da Camex abre espaço para que o governo Trump se manifeste, permitindo diálogo e negociação diplomática a qualquer momento.

Porém, conforme apurou a CNN, não há expectativa no Planalto que o processo para a aplicação da Lei da Reciprocidade vá influenciar na disposição dos Estados em negociar. A avaliação é que o interesse americano segue sendo no julgamento de Bolsonaro e que a tensão seguirá até as eleições de 2026.