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    Carona, empregada e árvore de Natal: os bastidores da soltura de Sérgio Cabral

    Ex-governador do Rio de Janeiro sai de uma cela individual para um apartamento onde vai morar sozinho no bairro de Copacabana

    Pedro Duranda CNN

    no Rio de Janeiro

    Pouco antes das 20h30 desta segunda-feira (19), um cordão de isolamento começava a ser montado por policiais militares na única saída da Unidade Prisional da PM do Rio de Janeiro, em Niterói. Uma viatura da PM havia sido estacionada de atravessado na avenida que dá acesso ao presídio.

    A movimentação acontecia logo depois de uma oficial de justiça ter chegado, de táxi, com um envelope pardo em mãos.

    Os jornalistas que vararam o final de semana já sabiam o que aconteceria na sequência: a saída de um dos maiores troféus da Operação Lava Jato, o último político de peso que restava encarcerado. Sérgio Cabral estava pronto para ir para casa.

    Foram minutos marcados por um empurra-empurra entre PMs e jornalistas. Diferentemente de outros tantos presos que passaram pela cadeia, Cabral teve autorização para que o carro entrasse na área interna dos detentos e assim pudesse sair sem ser filmado.

     

    O ex-governador do Rio de Janeiro contou com a ajuda dos policiais para que, afastando os jornalistas, os dois carros com ele, os advogados e o filho, Marco Antônio, pudesse deixar Niterói rumo ao bairro de Copacabana, área de alto padrão na zona Sul do Rio de Janeiro.

    Com uma camiseta azul e um óculos de grau pendurado na gola, Cabral, mais magro do que quando fora preso, se posicionou no banco de trás do carona do carro dirigido pela advogada Patrícia Proetti, uma das quatro que compõe a banca que conseguiu livrá-lo da prisão mesmo com 25 processos e condenações que somam 400 anos.

    O ex-governador não tampou o rosto e nem tentou desviar dos flashes de mais de 20 câmeras que aguardavam sua saída.

    Ao contrário, ao chegar em casa, teve sua primeira imagem revelada nas redes sociais do filho, Marco Antônio. Ele aparece abraçando e beijando o pai no apartamento onde Cabral cumprirá prisão domiciliar até que seja inocentado ou condenado em última instância.

    Ao fundo, uma árvore de Natal iluminada, esperava a chegada do novo morador do imóvel da família localizado em Copacabana.

    Mais cedo, Marco Antônio esperava ansioso pela saída do pai. Ele disse à CNN que não havia falado com o pai até o momento em que, de fato, ele foi solto. Marco tentou ser reeleito deputado federal assumindo o sobrenome e o legado do pai na campanha e visitando regiões onde a família teve boa votação em anos anteriores.

    Acabou tendo pouco mais de 23 mil votos, um quinto do que teve quando foi eleito para a cadeira na Câmara Federal em 2014. Não conseguiu voltar à Brasília.

    A reportagem da CNN apurou que Sérgio Cabral vai morar sozinho e deve receber a visita constante dos familiares que, nos últimos anos, foram privados de ter contato com ele, o que inclui filhos e netos.

    Um deles, José Eduardo Neves Cabral, chegou a passar 20 dias na mesma prisão que o pai, depois de ser acusado de fazer parte de uma máfia internacional de contrabando de cigarros com apoio da milícia. Ele foi preso no último dia 25 de novembro mas foi solto na última quinta-feira (15).

    Um dia depois, na noite da última sexta-feira (16), a liberdade de Sérgio Cabral seria sacramentada. Foi graças ao voto de Gilmar Mendes, acompanhando os ministros Ricardo Lewandowski e André Mendonça, que a prisão preventiva foi derrubada.

    O STF, no entanto, só comunicou a Justiça Federal do Paraná na manhã desta segunda-feira (19). A liberação para Cabral com oito condições foi concedida pela juíza Gabriela Hardt, à tarde e, na sequência, a Vara de Execuções Penais e a Justiça Federal do Rio de Janeiro foram comunicadas.

    Por um problema técnico da Justiça fluminense, a designação e o envio de uma oficial de justiça para comunicar o presídio da PM sobre a soltura de Cabral acabou demorando mais que o previsto.

    Nesse meio tempo, os advogados encomendaram no presídio pizza, comida árabe e refrigerantes. Cardápio semelhante ao de um jantar que foi descoberto pela Vara de Execuções Penais em uma blitz feita na cadeia onde Cabral estava.

    Sob suspeita de ter, mais uma vez, recebido regalias internas, ele chegou a ser transferido para o Complexo de Gericinó, em Bangu, mas acabou voltando à Niterói, com o presídio reformado e uma cela individual.

    Agora em prisão domiciliar, Cabral só poderá receber visitas de parentes até terceiro grau e advogados constituídos. Ele não pode sair do apartamento em Copacabana, exceto em casos de emergência, como problemas de saúde. Terá também de custear a tornozeleira eletrônica e sua manutenção, além de comparecer ao fórum sempre que for convocado.

    Caso um novo mandado de prisão seja expedido, revogando a prisão domiciliar, ele precisará se apresentar à polícia voluntariamente, muito embora essa não seja, nem de longe, a expectativa dos advogados.

    Por uma orientação dos advogados, Cabral não dará entrevistas a jornalistas neste momento. A ordem é “deixar a poeira baixar”. Enquanto isso, a defesa continuará sustentando a estratégia de atacar as competências da Justiça Federal do Rio e Curitiba, mais especificamente o juiz Marcelo Bretas e o ex-juiz, e agora senador eleito, Sérgio Moro.

    A liberadade ao ex-governador é um marco no enfraquecimento e desmonte da Operação Lava Jato, responsável por sua prisão em 2016 e que tinha Moro e Bretas como figuras centrais.

    Também figuraram na lista de detentos de peso o futuro presidente Luis Inácio Lula da Silva (PT), os ex-ministros Antonio Palocci, José Dirceu e Geddel Vieira Lima e os ex-presidentes da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) Jorge Picciani e Paulo Melo. O algoz de Dilma Rousseff, o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, também conseguiu ir pra casa graças às estratégias da defesa.

    “Esses 6 anos te tornaram um homem melhor, mais preparado e mais forte! Na hora da dor, do sofrimento, a gente sabe quem é quem, e eu quero aproveitar para agradecer TODAS as pessoas que me enviaram mensagens de força, de carinho e de amizade em todos os momentos dessa luta, e agora na ida do meu pai para casa”, disse o filho de Cabral em sua conta no Instagram.

    “A história vai julgar cada um como deve ser julgado. Os algozes que nos fizeram passar por isso, estão aí, uns entraram para política, outros estão sendo investigados, mas não quero aqui fazer nenhum pré julgamento, pois aprendi uma lição que não somos capazes de julgar o nosso semelhante, essa tarefa é divina”, completou Marco Antônio.