Cezinha usaria o cargo para aparentar influência sobre ministros, diz Dino

Ministro apontou indícios de que o deputado Cezinha de Madureira "aparenta utilizar a ascendência de sua função parlamentar" para passar a percepção de influência sobre magistrados de tribunais superiores

Jonatas Martins, da CNN Brasil, Brasília
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O ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), apontou que há indícios de que deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) "aparenta utilizar a ascendência de sua função parlamentar para incutir em terceiros a percepção de influência sobre magistrados de tribunais superiores". O político foi alvo de operação da PF (Polícia Federal) na manhã desta segunda-feira (14).

Em nota, a defesa do deputado federal afirmou que os fatos serão devidamente esclarecidos no devido processo legal, com a demonstração de que nenhuma irregularidade foi cometida: "Cezinha de Madureira está à disposição das autoridades e prestará todos os esclarecimentos necessários".

Segundo a investigação, a ação busca "elucidar a existência, a extensão e a estabilidade de estrutura destinada à comercialização de influência" junto ministros do STF, além de membros do STJ (Superior Tribunal de Justiça) e do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Tudo isso, de acordo com a representação policial, ocorreu "mediante remuneração vultosa e ajustada por meio de contratos de honorários e de cessão de crédito celebrados por advogadas" ligadas ao deputado federal, sendo que uma delas seria a própria esposa do parlamentar.

Na decisão do ministro, há o registro de diversas mensagens trocadas entre a advogada Valéria Linhares, a servidora da Câmara Mariângela Fialek e o próprio deputado federal. Os diálogos, na percepção de Dino, indicam que as mulheres "estabeleceram parceria com o fito de obter decisões favoráveis em processos judiciais em trâmite no STF, contando com o auxílio de Cezinha de Madureira".

Apesar da citação de ministros e agentes do alto escalão do Judiciário, a PF esclareceu que não há elementos de aceitação ou recebimento de vantagem indevida por juiz ou ministros dos tribunais, tampouco indícios de que os profissionais agiram em desconformidade com o direto.

"Os magistrados nominalmente referidos nos diálogos comparecem nestes autos exclusivamente como destinatários cogitados da influência anunciada pelos investigados — vale dizer, como elemento descritivo do tipo penal —, e jamais como suspeitos", esclarece a representação.

Ainda que tenha sido citada na decisão de Dino e que já tenha sido alvo de outras fases da operação policial, Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, não foi alvo dos mandados da operação desta segunda-feira.

Servidora da Câmara, Tuca é investigada por supostamente ser uma das operadoras do chamado "orçamento secreto" durante a gestão de Arthur Lira (PP-AL) no comando da Casa.

Operação Transparência

A PF realizou nesta segunda-feira a terceira fase da Operação Transparência e tem como um dos alvos o deputado Cezinha de Madureira. A ação mira possíveis irregularidades na destinação de emendas parlamentares e possível tráfico de influência.

Os policiais federais cumpriram quatro mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e em São Paulo. Os alvos investigados teriam negociado o "pagamento de valores expressivos, condicionados ao resultado de processos em curso, a pretexto de influir em decisões judiciais".

A operação ocorre em meio à crise no Supremo. Cezinha de Madureira é próximo do ministro André Mendonça. Em 2025, o parlamentar teria atuado como intermediador de um encontro entre o ministro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.

A advogada Valéria Rodrigues Linhares também foi um dos alvos da operação. Ela é filiada ao PSD, partido anterior de Cezinha da Madureira.

Em 25 de agosto, ela teve quantia de R$ 510 mil apreendida pela PF em uma mala no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Na ocasião, a defesa de Valéria declarou não haver ilegalidade e que o valor apreendido teria sido todo declarado.

A PF suspeita que esse montante seria parte do caso apurado. Na operação desta quarta, a PF investiga possíveis práticas dos crimes de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

A CNN procurou a defesa de Valéria Linhares e a defesa Mariângela Fialek sobre a decisão de Dino e aguarda resposta.

Posionamento de Cezinha de Madureira

Os advogados de Cezinha de Madureira enviaram nota à imprensa após a operação desta segunda-feira. Leia a íntegra:

"Com a tranquilidade de quem confia plenamente na Justiça e certo de sua conduta sempre ilibada, o deputado federal Cezinha de Madureira está à disposição das autoridades e prestará todos os esclarecimentos necessários.

O deputado está certo de que, assegurados o contraditório e o amplo acesso da defesa aos elementos da investigação e à integra do processo, os fatos serão devidamente esclarecidos no devido processo legal, com a demonstração de que nenhuma irregularidade foi cometida.

Importante ressaltar que, conforme a jurisprudência do STF estabelece, medidas de tamanha repercussão deveriam ter sido conduzidas com a devida distância de qualquer circunstância política ou eleitoral".