Na CPI, Wizard se esquiva de perguntas e nega existência de ‘gabinete paralelo’

Logo no início da sessão, o empresário afirmou que exerceria o direito concedido pelo STF de ficar em silêncio

Empresário Carlos Wizard depõe à CPI
Empresário Carlos Wizard depõe à CPI Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Murillo Ferrari, Rafaela Lara e Renato Barcellos, da CNN, em São Paulo, e Bia Gurgel, da CNN, em Brasília

Ouvir notícia

A CPI da Pandemia ouviu nesta quarta-feira (30) o empresário Carlos Wizard Martins, apontado como integrante de um suposto “gabinete paralelo” de aconselhamento ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no enfrentamento à pandemia de Covid-19 e já inserido na lista dos primeiros 14 investigados da comissão.

Durante a fala inicial, Wizard negou a existência de um “gabinete paralelo” e ressaltou que nunca esteve a sós com o chefe do Executivo. Após as declarações iniciais, ele próprio afirmou que permaneceria calado sobre todas as questões “conforme a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF)” e se recusou a responder 45 questões elaboradas pelo relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL).

O empresário quebrou o silêncio apenas em duas oportunidades. Na primeira, negou que tenha relacionamento com a empresa que negociava vacinas da CanSino e, na segunda, disse que não tinha interesse em participar do mercado de imunizantes. 

Diante do silêncio do depoente, o vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), apresentou um vídeo em que Wizard defendia a utilização de remédios sem comprovação científica contra a Covid-19 e zombava de pessoas mortas pela doença na cidade de Porto Feliz, no interior de São Paulo, porque “ficaram em casa” e que “não foram em busca do tratamento precoce”.

Logo depois a exibição do vídeo, o presidente da comissão, senador Omar Aziz (PSD-AM), afirmou que vai recorrer da decisão do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), que concedeu o direito ao empresário de permanecer em silêncio durante a comissão.

A primeira oitiva de Wizard estava marcada para 17 de junho, mas ele não compareceu ao alegar que estava nos Estados Unidos acompanhando um parente em tratamento médico.

O empresário tentou ser ouvido por videoconferência, mas teve o pedido negado pela mesa diretora da CPI.

Ao retornar ao país na segunda-feira (28), o empresário teve seu passaporte retido no Aeroporto de Viracopos (SP), medida autorizada Justiça Federal.

Resumo da CPI da Pandemia:

• Aziz afirma que CPI vai recorrer de decisão do STF que permitiu Wizard ficar em silêncio

O senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia, afirmou durante a sessão desta quarta-feira (30) que vai recorrer da decisão do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), que concede o direito ao empresário Carlos Wizard de permanecer em silêncio durante a comissão.

Aziz deu a declaração após o vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), exibir um vídeo de Wizard defendendo a utilização de remédios sem comprovação científica contra a Covid-19 e zombar de pessoas mortas pela doença na cidade de Porto Feliz, no interior de São Paulo, porque “ficaram em casa” e que “não foram em busca do tratamento precoce”.

“É duro a gente ouvir isso do senhor, para quem perdeu um ente querido. A forma como o senhor fala machuca demais, eu peço à Mesa que recorra da decisão do ministro Barroso que recorra da decisão em relação ao habeas corpus que lhe concedeu o direito de vir aqui e ler uma única frase”, afirmou Aziz, que perdeu um irmão em janeiro por conta da Covid-19.

No último dia 16, o ministro Luís Roberto Barroso concedeu uma liminar para o empresário poder ficar em silêncio durante depoimento à CPI da Pandemia no Senado Federal. O magistrado argumentou que, na sua avaliação, todo depoente que fale a uma CPI tem direito a não responder às perguntas, partindo do princípio de que toda pessoa tem direito a não se incriminar perante os investigadores.

Amparado pela decisão do ministro, Wizard optou por não responder à maioria das perguntas proferidas pelos senadores.

“Iremos recorrer fazendo um apelo ao Supremo para que possamos mostrar essa fala de senhor como exemplo do que não pode ficar impune. O senhor não pode ficar impune em nome de 512 mil vidas”, finalizou o presidente da CPI.

Após mais uma discussão entre governistas e oposicionistas, a líder da bancada feminina, senadora Simone Tebet (MDB-MS), sugeriu a votação de um ofício para transformar o empresário — que depõe como investigado — em testemunha. 

“Vamos convocá-lo de novo para depor porque estamos perdendo uma tarde inteira de trabalhos preciosos. Nós temos uma série de investigações para fazer. Tire a condição de acusado, passe para a condição de testemunha e vamos convocar o doutor Wizard novamente”, sugeriu Tebet.

• Otto Alencar diz que Wizard ‘amarelou’ e provoca discussão com advogado de Wizard

Ao ocupar a presidência da comissão e se referir ao depoente, o senador Otto Alencar (PSD-BA) afirmou que Wizard “amarelou” diante da CPI da Pandemia.

“Seu advogado está corado, parece que tomou banho de mar, e o senhor, seu Carlos, amarelou aqui na Comissão Parlamentar de Inquérito”. O advogado de Wizard, Alberto Toron, após ser mencionado, pede a palavra e Alencar não concede.

“Vossa excelência se referiu a mim e não quer que eu responda? Isso é de uma covardia”, disse. As falas iniciam uma discussão na comissão. Alencar, então, pede para que polícia legislativa retire o advogado de Wizard da sessão.

“Eu não quis ofender, fiz uma brincadeira, vou mandar retirá-lo daqui, chame a polícia legislativa para tirar esse senhor daqui”, disse Alencar, que ressaltou que o advogado não tem direito a fala na comissão.

“O senhor me chamou de covarde”, disse. Toron então responde a Alencar: “O senhor se referiu a mim de forma jocosa. Eu tenho respeito e admiração por vossa excelência. Advogo para muita gente que o senhor conhece. Estou aqui apenas fazendo o meu trabalho”.

Otto Alencar volta a afirmar que se tratou de uma brincadeira, a discussão foi encerrada e Toron permaneceu na sessão.

• Wizard não responde perguntas de Eliziane Gama, que cita a Bíblia

Ao ser questionado pela senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), o empresário voltou a ficar em silêncio. Eliziane então passou a citar passagens bíblicas ao interpelar o empresário. “Jesus esteve ao lado de pobres, órfãos, viúvas e excluídos”, disse.

“Quero dizer ao senhor que todos nós que estamos nessa comissão temos uma responsabilidade grande com a sociedade brasileira. Provérbios diz que ‘a morte e vida estão no poder da língua e àquele que a ama provará do próprio fruto'”.

“Estou fazendo varias exposições da Bíblia porque o senhor iniciou falando exatamente da Bíblia e de Jesus Cristo. A diferença entre a morte e a vida pode ser uma orientação, que pode levar milhares de vidas do Brasil. Agora, para mim, fica mais claro que não foi apenas negacionismo, não apenas questão ideológica, foi corrupção mesmo”, disse.

O presidente da comissão e o relator elogiaram as falas da senadora, que lamentou o fato de Wizard não responder suas questões.

“Talvez tenha sido um dos posicionamentos desse Senado, sem ser piegas, mas com palavras cirúrgicas. Me orgulha você estar nessa CPI e participar dessa comissão”, disse Aziz. Renan diz que concorda com o posicionamento do presidente da comissão e parafraseia outra passagem bíblica dizendo “que o perverso cairá pela sua falsidade”. 

• Wizard optou por não responder mais de 45 questões do relator da CPI

O empresário Carlos Wizard preferiu não responder mais de 45 questões dirigidas a ele pelo relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL).

Ele usou a frase “me reservo ao direito de permanecer ao silêncio”, ou variações dela, para declinar dos questionamentos –  liminar concedida pelo ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), lhe garantiu o direito de poder ficar em silêncio durante depoimento.

Wizard só quebrou essa orientação de sua defesa em dois momentos. Primeiro ao ser perguntado se tinha algum relacionamento com a empresa Belcher Pharmaceuticals, que até 17 de junho negociava em nome da CanSino.

“Senho relator, citei esse aspecto na minha fala inicial. Inclusive, fiz questão de apresentar aqui nesta mesa, ajuntada referente a este assunto”, disse o empresário.

Depois, quando Renan perguntou se as empresas de Wizard tinham interesse em participar do mercado da venda de vacinas contra Covid-19, inclusive ao Ministério da Saúde. Neste caso, ele foi sucinto: “Não senhor”.

Em sua conclusão, Renan disse estar satisfeito pelas peguntas que fez e, até mesmo, pelas respostas que não obteve.

“A tecnologia, hoje, nos permite guardar esses vídeos que foram veiculados em função de campanhas produzidas pelo governo federal e que contou, lamentavelmente, com muitas pessoas – até empresários valorosos – na sua veiculação como charlatanistas”, concluiu o senador.

• Após fala inicial, Wizard diz permanecerá em silêncio sobre todas as questões

Após a fala inicial feita pelo empresário Carlo Wizard, ele próprio e também seu advogado afirmaram que permaneceria calado sobre todas as questões “conforme a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF)”.

Antes, ao falar aos senadores, Wizard justificou sua ausência na primeira data para sua oitiva dizendo que estava nos Estados Unidos acompanhando o pai, de 87 anos, que está com a saúde debilitada e exigindo cuidados em tempo integral.

“O que os senhores fariam se os senhores tivessem na minha condição? Deixar o pai sozinho no momento que mais precisam de apoio? Como se isso não bastasse, tenho minha filha que também mora nos EUA e está enfrentando uma gravidez de risco e terá o bebê nos próximos dias”, afirmou o empresário.

• ‘Jamais tomei conhecimento de qualquer gabinete paralelo’, disse Wizard

Wizard disse também que conheceu o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello em 2018, quando ele, a mulher e dos filhos, resolveram ser missionários em Roraima e acolher refugiados venezuelanos que entraram no Brasil.

“Trabalhamos em cooperação com a operação acolhida liderada por Eduardo Pazuello. Fomos em missão humanitária sem nenhum interesse a mais. Oferecíamos alimento, medicamento, tratamento, apoio, tudo que era necessário para a manutenção da vida”, relatou. 

Wizard disse que, depois que foi nomeado secretário-executivo do Ministério da Saúde, Pazuello ligou para ele pedindo apoio para combater a pandemia e salvar vidas. 

“Eu falei que ele podia contar comigo, desde que eu fosse voluntário, sem vínculo com nenhum órgão, e sem receber remuneração.”

E negou que tenha feito parte do suposto “gabinete paralelo” que aconselharia o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no combate à pandemia.

“A minha disposição em servir o país combatendo a pandemia faz com que eu seja acusado de pertencer a um suposto gabinete paralelo. Eu jamais tomei conhecimento de qualquer gabinete paralelo. Se isso existiu eu jamais tomei conhecimento. Jamais fui convidado, abordado ou convocado para participar de gabinete paralelo”, declarou.

Ele disse também que nunca participou de reunião em privado com o presidente da República, o que mostra que jamais teve qualquer influência no pensamento do presidente.

Por fim, o empresário afirmou que nunca fez recomendação do uso de medicamentos contra a Covid-19 e nem fez qualquer recomendação sobre a imunização de rebanho por ser “outro tema que escapa meu entendimento”.

• Em votação tumultuada, CPI convoca deputados Ricardo Barros e Luis Miranda, além de envolvidos em suposto pedido de propina para vacina

Depois de quase meia hora de discussões acaloradas entre os senadores, a CPI da Pandemia aprovou nesta quarta-feira (30) dezenas de requerimentos entre pedidos de informação, convocação/convite e quebra de sigilos.

Os destaques são a aprovação do pedido para ouvir o deputado Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara, que foi citado pelo deputado Luis Miranda (DEM-DF) em seu depoimento à comissão na sexta-feira (25) – os senadores também aprovaram a reconvocação de Miranda.

Além disso, também serão ouvidos nos próximos dias o empresário Luiz Paulo Dominguetti Pereira – que afirmou ao jornal “Folha de S.Paulo” ter recebido pedido de propina de US$ 1 por dose de vacina em troca de fechar contrato com o Ministério da Saúde – e o ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias – a quem ele acusou de cobrar a propina.

• Eduardo Braga pede retirada de 41 itens da pauta da CPI

 O senador Eduardo Braga (MDB-AM) pediu uma questão de ordem para requisitar a exclusão de 41 requerimentos adicionados entre a terça e a quarta-feira na pauta da sessão desta quarta-feira (30) da CPI “a fim de que possamos ter domínio do mérito para ter a fundamentação para votar”.

“Se, por um lado, vossa excelência busca entendimento para votar a matéria do Consórcio do Nordeste, por outro lado, precisamos o mérito e a fundamentação de 41 requerimentos adicionados na pauta”, disse Braga.

O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), afirmou que a maioria dos requerimentos foram feitos e assinados por ele e se tratam, basicamente, de questões do estado do Amazonas.

“Eu afirmo que há fortes indícios de que uma conselheira [do TCE] está recebendo vantagens para o filho dela [o deputado estadual Fausto Junior, ouvido na véspera pela CPI] não indiciar o governador Wilson Lima (PSC). Se vossa excelência quiser adiar, eu vou adiar”, afirmou Aziz.

O presidente da CPI determinou, então, que esses requerimentos sejam adiados para a sessão de sexta-feira (2).

A convocação de Wizard para a CPI

A convocação de Wizard foi solicitada por meio de requerimento apresentado pelo senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), que julga ser essencial “esclarecer os detalhes de um “ministério paralelo da saúde”.

Esse grupo seria responsável pelo aconselhamento extraoficial do governo federal com relação às medidas de enfrentamento da pandemia, “incluindo a sugestão de utilização de medicamentos sem eficácia comprovada e o apoio a teorias como a da imunidade de rebanho”, disse Vieira.

Também já foram aprovados requerimentos para quebra de sigilo bancário, telefônico, telemático e fiscal de Wizard.

O empresário Carlos Wizard Martins fala à CPI da Pandemia
O empresário Carlos Wizard Martins fala à CPI da Pandemia
Foto: Reprodução/CNN Brasil (30.jun.2021)

(Com informações da Agência Senado)

Mais Recentes da CNN