De José Alencar a Bolsonaro, PL de Valdemar Costa Neto se prepara para 2022

Criado em 1985, no período da redemocratização, partido lançou candidato próprio à Presidência uma única vez, em 1989, com Afif, e se fundiu com o Prona, de Enéas, após o mensalão

O presidente Jair Bolsonaro e o líder do PL, Valdemar Costa Neto, precisaram entrar em um acordo para a filiação do chefe do Executivo
O presidente Jair Bolsonaro e o líder do PL, Valdemar Costa Neto, precisaram entrar em um acordo para a filiação do chefe do Executivo Divulgação/PL

Katia Brembatticolaboração para a CNN

em São Paulo

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“Não estamos lançando ninguém a cargo algum”, avisou o presidente Jair Bolsonaro durante evento de filiação ao PL nesta terça-feira (30). Mas caso seja lançado à reeleição no ano que vem, não será a primeira vez que o Partido Liberal lançará um candidato à Presidência da República.

Em 1989, a pauta liberal do PL foi embalada pelo jingle “juntos chegaremos lá”, do então candidato Afif Domingos – sexto colocado naquela disputa, com mais de 3 milhões de votos.

A origem da sigla tem ligação com políticos que vieram de partidos como o Partido da Frente Liberal (PFL, depois Democratas e atualmente União Brasil), o Partido Democrático Social (PDS, hoje PP) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). O PL foi criado em 1985, no período de redemocratização do Brasil.

O principal nome dessa primeira fase foi o do diplomata, advogado, cientista político e professor Álvaro Valle, que morreu em 2000, aos 65 anos, vítima de complicações de um câncer no intestino.

Autor de mais de 20 livros, foi seis vezes deputado federal e o partido o considera como o “cavaleiro do liberalismo social”. Também foi integrante de delegações na ONU e em outras missões no exterior.

Desde 2011, o prédio do anexo I da Câmara dos Deputados tem o nome de Álvaro Valle. Em 1974, foi o único deputado a ser acomodado no anexo que até então era utilizado somente como área administrativa.

A atuação dele na política estava ligada à pauta da educação e da cultura. Durante a legislatura de 1975 a 1979, foi o relator da lei que regulamentou a atividade artística no Brasil, que garantiu a existência como organização formal e sindical da categoria.

Foi justamente com Álvaro Valle que o PL passou o maior período de sua história na oposição, sem apoiar o governo. A sigla apoiou Fernando Henrique Cardoso em 1994, mas afastou-se já em 1995, quando FHC decidiu alterar a aposentadoria especial para os professores, um projeto que era de Álvaro Valle.

Valdemar Costa Neto e Jair Bolsonaro em evento de filiação do presidente da República ao PL / CNN / Reprodução (30.nov.2021)

O fundador do partido também considerava que as privatizações propostas no governo FHC eram uma espécie de dilapidação do patrimônio nacional. Em 1998, o partido apoiou Ciro Gomes (então no PPS) à Presidência.

A maior esfera de poder foi alcançada em 2002, com o então senador por Minas Gerais, José Alencar, na posição de vice-presidente da República. A articulação ficou por conta do sucessor de Álvaro Vale no comando do PL, o então deputado Valdemar Costa Neto.

Filho de Waldemar Costa Filho, ex-prefeito de Mogi das Cruzes, Valdemar (com V), é formado em administração de empresas e começou a carreira como chefe de gabinete do próprio pai. Da experiência local, passou a disputar eleições.

Para o professor do Insper Leandro Consentino, Valdemar Costa Neto personifica o que a ciência política classifica como cacique partidário. É daquelas figuras que “são muito bem articuladas, conhecem muito bem o jogo parlamentar e político. Via de regra, estão mais ligados a esse jogo parlamentar e aos dividendos político partidários que uma negociação pode trazer do que orientados pela ideologia de fato da sua agremiação do seu partido”.

Para o professor, a filiação de Bolsonaro traria uma mudança na curva da história do Partido Liberal, já que daria muito mais visibilidade ao partido no espaço público.

“A esses partidos não interessa o holofote, pois implica ficar na mira da imprensa, ser escrutinado. Mas o PL imagina que trazendo o presidente para dentro poderia estar mais perto da administração federal e ter pelo menos nesse final de mandato e mais um mandato inteiro, caso ganhe, os favores presidenciais.”

PL e o mensalão

Um dos maiores desafios de Valdemar Costa Neto à frente do PL ocorreu em 2005, durante o mensalão, em que o governo petista foi acusado de pagar dinheiro a deputados em troca de apoio.

Hoje do mesmo lado no apoio a Bolsonaro, Roberto Jefferson (PTB-RJ) foi o algoz de Costa Neto, ao denunciar o colega parlamentar pelo recebimento de dinheiro no mensalão.

Valdemar Costa Neto foi deputado federal por seis vezes e renunciou ao cargo em duas ocasiões diferentes: em 2005 e em 2013.

No mensalão, Valdemar Costa Neto foi condenado a sete anos e dez meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Em valores da época, o PL teria recebido cerca de R$ 10 milhões do PT, ao longo de dois anos, supostamente para votar em projetos de interesse do governo.

Costa Neto afirma que esses recursos eram para pagar dívidas de campanha da chapa presidencial encabeçada por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e com o empresário José Alencar, filiado ao PL, na vice.

O ex-deputado também recebeu uma multa de R$ 1,6 milhão. Foi preso em 2013. Cumpriu pena em regime semiaberto e aberto e usou tornozeleiras eletrônicas.

Em 2015, recebeu um indulto do STF. No ano seguinte, foi beneficiado por uma decisão do ministro Luís Roberto Barroso, que lhe concedeu o perdão da pena depois que o ex-deputado cumpriu um quarto da pena.

O político também foi envolvido na Operação Porto Seguro, que investigou um suposto esquema de fraudes com pareceres técnicos em órgãos federais e agências reguladoras.

Também foi citado na Operação Lava Jato pelo dono da UTC Engenharia, Ricardo Pessoa.

Valdemar foi acusado de receber R$ 200 mil para manter as portas abertas com o então PR, que comandava o Ministério dos Transportes à época. Mas a denúncia não avançou e foi arquivada por falta de provas. O ex-deputado nega todas as acusações.

O cientista político Carlos Pereira, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-RJ), considera que as condenações de Valdemar Costa Neto não devem respingar na imagem de Bolsonaro.

O especialista avalia ainda que o presidente perdeu a chancela do discurso anticorrupção quando Sergio Moro (agora filiado ao Podemos) saiu do governo, no ano passado.

“Esse é um tema que Bolsonaro vai procurar evitar durante a campanha. Essa vai ser uma bandeira dos candidatos da terceira via. A maior parte dos eleitores sensíveis a esse tipo de demanda já o abandonou”. As principais preocupações para as próximas eleições estariam ligadas com a crise econômica, desemprego, inflação e taxa de juros, avalia.

Fusão com o Prona de Enéas

A crise do mensalão gerou um período conturbado na história do partido. É depois do mensalão que ocorreu a fusão com o Prona (Partido de Reedificação da Ordem Nacional), fundado por Enéas Carneiro, candidato à Presidência em 1989, 1994 e 1998.

A união das siglas foi selada em 2006, pouco antes da morte de Enéas. Surge então o PR, Partido da República. O objetivo era conseguir passar da cláusula de barreira, que exigia um percentual mínimo de 5% dos votos para eleger deputados.

O então PR fez parte da base parlamentar de Lula, compôs a aliança com Dilma Rousseff e se fortaleceu na última década como uma das principais forças do centrão. Em 2019 a sigla volta a se chamar Partido Liberal.

Para o cientista político e professor de Direito na Universidade Positivo, Francis Ricken, a legenda também se consolidou nos últimos anos como um partido de municípios, sempre com uma quantidade significativa de vereadores e deputados estaduais. “Os membros normalmente são de famílias tradicionais, são pessoas ligadas à política há um longo período”, destaca o professor.

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