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    De Maluf a Temer: como os descendentes sírio-libaneses se destacaram na política nacional

    Representatividade árabe no Congresso já chegou a 8% dos eleitos, segundo estimativa; famílias Tebet, Haddad, Boulos e Feghali devem estar nas urnas em 2022

    Famílias sírio-libanesas marcam a política brasileira
    Famílias sírio-libanesas marcam a política brasileira Arte CNN

    Giuliana Viggianocolaboração para a CNN

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    Quando aportou a turismo em Beirute, atual Líbano, em novembro de 1876, dom Pedro 2º não poderia imaginar que a apenas 70 quilômetros dali, no pequeno vilarejo de Btaaboura, viviam os progenitores do homem que comandaria o Brasil 140 anos depois: Michel Temer.

    Os pais do ex-presidente estavam entre os cerca de 140 mil sírio-libaneses que imigraram para o Brasil entre 1890 e 1969. Mas ele não é o único político brasileiro cuja ancestralidade está ligada àquela região do Oriente Médio.

    As eleições de 2022 deverão ter, por exemplo, o nome da senadora Simone Tebet nas urnas, como pré-candidata à Presidência pelo MDB. Ela é neta de libaneses.

    Já o pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, é descendente de libaneses, enquanto Alexandre Kalil, que deixou a Prefeitura de Belo Horizonte para concorrer ao governo de Minas Gerais pelo PSD, é neto de sírios.

    De Maluf a Boulos, de Kassab a Feghali, de Simon a Jereissati, os nomes sírio-libaneses marcam presença na política nacional. O fenômeno não é novidade, como indica um estudo publicado em 2003 pelo historiador Sérgio Lamarão.

    Segundo ele, entre 1945 e 1999, o Brasil teve 163 deputados federais e senadores com sobrenomes sírios e libaneses, perdendo somente para os 236 parlamentares de origem italiana.

    Nos últimos anos, a representatividade árabe no Congresso Nacional permaneceu notável, com algumas legislaturas chegando a 8% de eleitos com sobrenomes sírio-libaneses. A estimativa é do jornalista Diogo Bercito, autor de “Brimos: Imigração sírio-libanesa no Brasil e seu caminho até a política” (2021, Fósforo).

    O autor observa que a presença de tantos patrícios na política brasileira não pode ser explicada de forma simples. “Há uma série de fatores que justificam, em partes, [o fenômeno]”, disse em entrevista à CNN.

    A descoberta do Brasil pelos “turcos”

    No fim do século 19, grande parte dos moradores das áreas hoje conhecidas como Síria e Líbano, região que à época fazia parte do Império Otomano, sofria com uma crise econômica. Além disso, diversos grupos minoritários viviam em constante sensação de insegurança causada por conflitos religiosos e étnicos na região.

    No Brasil, as mudanças econômicas causadas pelos movimentos abolicionistas criaram a necessidade de encontrar uma nova fonte de mão de obra barata. Essa procura estava alinhada a um ideal eugenista, segundo estudiosos.

    “O movimento para trazer os europeus e as pessoas do Oriente Médio para cá foi arquitetado em busca do branqueamento da população”, afirmou Claude Hajjar, autora de “Imigração Árabe: 100 Anos de Reflexão” (1985, Ícone), em entrevista à CNN.

    No fim do século 19, grande parte dos moradores das áreas hoje conhecidas como Síria e Líbano, região que à época fazia parte do Império Otomano, sofria com uma crise econômica / Arte CNN

    Dessa forma, quando dom Pedro 2º visitou a área nos anos 1870 e descreveu o Brasil como receptivo e cheio de oportunidades, aqueles que queriam sair de sua terra natal passaram a ver o país como alternativa para fixar residência.

    Além de atrair uma parcela abastada de árabes, essa “propaganda” cativou uma parte da população local que ficou impressionada com uma característica pessoal do Imperador: sua destreza intelectual.

    Hajjar explica que o domínio do Império Otomano limitava a liberdade da população, inclusive de estudo, e isso era sentido principalmente pelo grande número de universitários que moravam por lá. “A erudição de Dom Pedro 2º incentivou a vinda daqueles que buscavam conhecimento fora do Império”, disse a pesquisadora.

    As imigrações sírio-libanesas para cá, portanto, já apresentavam, no início, características muito particulares se comparadas às europeias, pois os fluxos migratórios desses países eram majoritariamente compostos por parcelas mais pobres e sem instrução da população. Mesmo quando o perfil socioeconômico dos imigrantes árabes se tornou mais semelhante ao dos outros grupos, no início do século 20.

    Isso porque a dissolução do Império Otomano levou à criação de mandatos europeus, o que dificultava a saída da área. “As condições de imigração eram totalmente diferentes, por exemplo, das de italianos e japoneses, que vinham com concessão do Estado”, afirma Hajjar. “Como não existiam Estados, as pessoas migravam de forma autônoma e voluntária.”

    Logo, quando chegaram ao Brasil, os sírio-libaneses não precisavam cumprir contratos de trabalho pré-estabelecidos, diferentemente de outros imigrantes. Isso os permitiu circular por todo o país, e o trabalho rural não lhes pareceu nada atraente.

    Os “turcos”, como eram erroneamente chamados pelos brasileiros, encontraram outra função para desempenhar: o comércio. E aí o sucesso veio rápido.

    “Por aqui, os sírio-libaneses foram pioneiros na mascateação”, explica Oswaldo Truzzi, pesquisador e autor de “Patrícios: sírio e libaneses em São Paulo” (1997), em entrevista à CNN.

    “Além disso, em uma sociedade que era muito polarizada, existiam poucos estratos de classe média que se dedicassem a fazer a intermediação [entre esses grupos], e esses imigrantes acabaram ocupando essa função”, diz.

    Da 25 de Março ao Congresso Nacional

    O sucesso como vendedores ambulantes permitiu que os imigrantes sírio-libaneses, majoritariamente concentrados em São Paulo, abrissem suas próprias lojas, boa parte na rua 25 de Março, no centro da cidade.

    Com a passagem do tempo e a necessidade de “dinheiro novo” na economia nacional, agravada pela crise de 1929, esses imigrantes passaram a ser cada vez mais aceitos pela elite brasileira ― e viram seus pequenos negócios prosperarem.

    A partir daí, o próximo passo foi investir na educação dos filhos e netos. Eles acreditavam que, assim, a assimilação dos patrícios à elite brasileira seria mais fácil, e sua ascensão social, legitimada.

    “Havia uma clareza por parte dos pais de que os filhos deviam se tornar ‘doutores’, isto é, médicos, advogados e engenheiros”, detalha Truzzi. E foi justamente a inserção no ensino superior, principalmente em universidades de elite, que levou muitos patrícios à política.

    Imigrantes incentivaram o acesso de filhos e netos ao Ensino Superior, o que abriu espaço na elite brasileira e na política / Arte CNN

    Em sua análise publicada em 2003, Sérgio Lamarão investigou a prevalência de patrícios “doutores” na política brasileira. De acordo com o estudo, dentre os 165 parlamentares que eram filhos ou netos de sírio-libaneses, 131 (79%) tinham diplomas universitários.

    A instituição que mais credenciava estudantes para a entrada na política era a Faculdade de Direito do Largo São Francisco da Universidade de São Paulo (USP); Michel Temer e Fernando Haddad, por exemplo, estão entre seus ex-alunos.

    Nas outras áreas, se destacavam a Faculdade de Medicina e a Escola Politécnica, também da USP, e a Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

    Longe dos centros urbanos, contudo, a entrada das primeiras gerações de patrícios na política se deu de outra forma. Segundo Truzzi, no interior do Brasil, foi precisamente o triunfo no comércio que favoreceu a eleição dos descendentes de sírio-libaneses.

    “A difusão dos imigrantes pelo território é um fator [que, alinhado ao] estabelecimento de lojas nas regiões centrais das cidades interioranas, [influenciou a questão]”, aponta o pesquisador.

    Ele explica que, por ser uma atividade que exige bastante contato, o comércio acarreta certa popularidade ao mercador na comunidade local. Isso era favorável para os comerciantes que desejavam entrar na política.

    Desse jeito, a eleição de patrícios para cargos locais se tornou comum em cidades do interior do Brasil e, em última instância, levou muitos deles ao Congresso Nacional. “A partir de mandatos locais, [esses políticos] se lançavam como deputados”, pontua Truzzi. “E a base interiorana rendia votos.”

    Patrícios, patrícios, política à parte

    Para os imigrantes sírio-libaneses, ter patrícios atuando no Congresso Nacional era motivo de orgulho, e isso os levava a votar nesses candidatos. Mas também é verdade que o apoio da comunidade tinha pouca influência no resultado das eleições.

    O insucesso pode ser explicado pela pluralidade. Por conta de diferentes ideologias, os candidatos se filiavam a partidos também diversos, levando à dispersão dos votos. Ademais, tais discrepâncias tornam, até hoje, organizações parlamentares como o Grupo Parlamentar Brasil-Líbano, fundado em 1984, meramente ilustrativos.

    Para Lamarão, uma das causas da falta de cooperação entre os patrícios é que, para boa parcela deles, a etnia não vem em mente na hora de fazer política.

    O estudioso embasa o argumento em uma série de entrevistas que realizou com ex-parlamentares: das 39 pessoas com quem conversou, 33 atribuíam pouca ou nenhuma importância à dimensão étnica na sua atuação parlamentar.

    Entretanto, embora pesquisas como a de Lamarão sejam fundamentais para compreender a presença dos patrícios na política brasileira, elas têm limitações. Como explica Diogo Bercito, há pouca literatura sobre o assunto e boa parte dela foi produzida por não falantes de árabe.

    “São estudos excelentes, mas limitados pela própria natureza, se você for pensar que os pesquisadores não falavam a língua das pessoas que estavam pesquisando”, pontua o autor.

    As análises do tipo servem não apenas aos que se interessam por política, mas também àqueles que buscam compreender o Brasil. Afinal, segundo estimativa divulgada em julho de 2020 pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira, cerca de 6% da população é de árabes ou descendentes.

    Veja algumas famílias sírio-libanesas que entraram na política

    Temer

    Em 1925, Nakhul Temer deixou o pequeno vilarejo de Btaaboura em direção a Tietê, no interior paulista. A ascensão econômica veio como resultado do beneficiamento de arroz e café, que virou o negócio da família. Em 1959, o oitavo filho da família, Michel, ingressou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (USP), onde aderiu ao movimento estudantil. Foi procurador-geral do estado de São Paulo, secretário estadual da Segurança Pública, presidente da Câmara dos Deputados, vice-presidente e presidente do Brasil (2016-2018). Em 2019, chegou a ser preso num desdobramento da Lava Jato, sob suspeita de participação em irregularidades em contratos da Eletronuclear. Em 2022, foi absolvido das acusações de corrupção e lavagem de dinheiro no caso.

    Tebet

    Antes de se tornar senadora, Simone Tebet foi prefeita, deputada estadual e vice-governadora de Mato Grosso do Sul, seguindo um caminho na política já percorrido por seu pai, o ex-governador e ex-senador Ramez Tebet (1936-2006). Ramez era filho de Taufic Tebet, que aportou no Brasil em 1929 vindo do Líbano. Ao chegar ao país, a família se estabeleceu na cidade de Três Lagoas (MS), na divisa com São Paulo, onde atuou no comércio. Tanto Simone como seu pai, Ramez, comandaram a cidade.

    Maluf

    Salim Farah Maluf deixou Hadath Baalbek, a 80 quilômetros de Beirute, no Líbano, em 1910. Chegando ao Brasil, deu início ao negócio que se tornaria a Eucatex, uma das maiores empresas do setor madeireiro da América Latina. Seu filho, Paulo, se formou em engenharia na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, onde integrou o movimento estudantil. Aos 35 anos, entrou oficialmente na política, após ser convidado pelo então ministro Delfim Netto para presidir a Caixa Econômica Federal. Foi deputado federal, prefeito e governador de São Paulo. Em 2017, foi condenado a sete anos, nove meses e 10 dias de prisão em regime fechado sob acusação de lavagem de dinheiro. A partir de 2019, passou a cumprir pena em regime domiciliar.

    Haddad

    Filho de padre da Igreja Ortodoxa Grega que liderou uma resistência às tropas francesas durante a Primeira Guerra Mundial, Khalil Haddad saiu de Ain Ata, no Líbano, aos 24 anos. Ao chegar no Brasil, o jovem se casou e se estabeleceu como comerciante atacadista de tecidos. Fernando, seu segundo filho, ingressou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (USP), onde integrou o movimento estudantil. Foi ministro da Educação, prefeito de São Paulo e ficou em segundo na corrida à Presidência em 2018. Em 2021, foi absolvido das acusações de caixa dois nas eleições municipais de 2012.

    Kassab

    Neto de avô libanês, Gilberto Kassab entrou para a política aos 25 anos, quando passou a integrar o Fórum de Jovens Empreendedores da Associação Comercial de São Paulo. Segundo a família, o ex-prefeito de São Paulo é sobrinho-bisneto de Nimatullah Kassab Al-Hardini, santo da Igreja Maronita, vertente da Igreja Católica no Líbano. Presidente nacional do PSD, foi também ministro das Cidades e da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Em 2019, foi nomeado secretário da Casa Civil do governo de São Paulo, mas se afastou dias depois para se defender das denúncias de recebimento de propina da J&F. Ele nega irregularidades.

    Boulos

    Guilherme Boulos é filho de um casal de médicos e entrou para a política após ingressar na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, onde participou do movimento estudantil. Seu avô, Iskandar Boulos, partiu de Tiro, no Líbano, em 1924, e morou em diversas cidades brasileiras, onde trabalhou com o comércio de diversos produtos. Guilherme é líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto e chegou ao segundo turno na disputa pela Prefeitura de São Paulo em 2020.

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