Depoimento de Nise tem imprecisões, queixas e série de interrupções de senadores

Convidada a prestar esclarecimentos à CPI da Pandemia, médica falou por mais de 6 horas; em 1h30 ela foi interrompida mais de 40 vezes

A médica oncologista e imunologista Nise Hitomi Yamaguchi durante depoimento à CPI da Pandemia
A médica oncologista e imunologista Nise Hitomi Yamaguchi durante depoimento à CPI da Pandemia Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Rafaela Lara e Renato Barcellos, da CNN, em São Paulo

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Entre várias contestações por imprecisões, divagações e uma fala que o debate sobre a Covid-19 colocou na caixa do chamado negacionismo, o depoimento da médica oncologista Nise Yamaguchi à CPI da Pandemia foi marcado por diversas interrupções de suas declarações e respostas logo nas primeiras horas da sessão de terça-feira (1º).

Nise falava na condição de convidada. Conhecida por defender o “tratamento precoce” para a Covid-19, ela contradisse o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e o presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, e negou uma suposta tentativa de alteração na bula da cloroquina, comportamento que foi alvo de uma série de questionamentos dos senadores.

A sessão, no entanto, ganhou verniz particular por interrupções dos parlamentares e intervenções de senadoras para que Nise pudesse concluir suas falas. A médica começou a depor por volta das 10h10 dessa terça-feira e, até a primeira suspensão da sessão às 11h34, ela havia sido interrompida ao menos 43 vezes. O relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL) é quem inicia as perguntas aos depoentes.

Entre os questionamentos feitos a Nise, estava o uso da cloroquina – medicamento sem eficácia comprovada para combater a Covid-19 – o suposto “gabinete paralelo” que orientaria o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em assuntos relacionados à pandemia e estaria à parte do Ministério da Saúde e a alteração na bula da cloroquina, conforme foi alegado por Barra Torres e Mandetta em depoimento.

 

Ainda durante a primeira parte do depoimento de Nise, após interrupções dos senadores Renan Calheiros (MDB-AL), Omar Aziz (PSD-AM), Rogério Carvalho (PT-SE), Otto Alencar (PSD-BA) e Jorginho Mello (PL-SC), a senadora Leila Barros (PSB-DF) pediu a palavra e saiu em defesa de Nise. Acabou interrompida pelos senadores.

“Ela não está conseguindo concluir um raciocínio. Com todo respeito, vocês sabem de qual lado que estou. Existe uma ansiedade muito grande pelas respostas da convidada. Eu peço só a vocês que tenhamos um grau de tranquilidade porque existe uma ansiedade muito grande”. Aziz, então, interrompe Leila afirmando que ela “chegou agora”.

“Eu não cheguei agora, não. Estou acompanhando desde o início de dentro meu gabinete”, responde Leila. Na sequência, Renan diz: “Estamos falando com toda a educação, todo respeito e carinho”. E a senadora insiste: “Ela está a toda hora sendo interrompida.” O relator então afirma que Nise está sendo interrompida “porque não está respondendo” às questões feitas.

Mais tarde, o senador Otto Alencar questiona o fato de a médica indicar um medicamento sem comprovação para tratamento da doença e pede exemplos de testes feitos para a comprovação da cloroquina, efeitos colaterais e o que a médica sabe sobre o coronavírus. Nise responde, mas não cita datas ou estudos – ela então é interrompida pelo senador.

“A senhora não soube explicar o que é o vírus (…) A senhora não sabe nada de infectologia, nem estudou, doutora. A senhora foi aleatória mesmo superficial. O Covid-19 é da família dos betacoronavírus”, diz Otto, que também é médico. O momento se tornou um dos mais comentados da sessão desta terça-feira nas redes sociais.

Funcionária do Hospital Israelita Albert Einstein, Nise tem 62 anos e chegou a ser cotada para o cargo de ministra da Saúde quando da demissão de Luiz Henrique Mandetta, em abril de 2020, e, com mais destaque, no mês seguinte, quando Nelson Teich deixou o comando da pasta, 29 dias após sua nomeação.

No dia em que Teich anunciou seu pedido de demissão, Nise almoçou com o presidente Jair Bolsonaro, o que alimentou as apostas de que ela seria a próxima a ocupar a chefia da Saúde. O fato, no entanto, não se concretizou e o general Eduardo Pazuello acabou assumindo a pasta.

Senadores da ala governista, membros do governo Bolsonaro e senadoras da bancada feminina questionaram o tratamento dado a Nise durante o depoimento – o assunto também foi comentado nas redes sociais. E não foi a primeira vez que as interrupções durante as falas dos depoentes aconteceram.

O depoimento da secretária do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, também foi marcado por interrupções, porém foram voltadas à objetividade nas respostas. Ainda na fase de perguntas do relator, o presidente da Comissão, Omar Aziz, apontou contradições, afirmou que “não gostaria de ser deselegante” com a depoente e pediu respostas objetivas.

Já o general Eduardo Pazuello, que depôs por dois dias seguidos na condição de convocado, foi menos interrompido – embora os senadores tenham divergido quanto às respostas do ex-ministro, apontando contradições e as sessões tenham sido marcadas por bate-bocas, ele conseguia concluir seus raciocínios e falas.

Um dos momentos em que Pazuello foi interrompido e repreendido foi quando pediu para que perguntas com “respostas simplórias” não fossem feitas. “Perguntas com respostas simplórias, gostaria até que não fossem feitas”, disse Pazuello, que foi interrompido por Aziz no mesmo momento: “O senhor não vai nos dizer o que perguntar ou não. O senhor está aqui para responder às perguntas dos senadores”, disse.

Na sessão desta quarta-feira (2), com a infectologista Luana Araújo, o senador Alessandro Vieira, comentou as críticas às interrupções no depoimento de Nise. “Apenas para deixar registrado que o ideal é que todos nós possamos nos tratar de forma urbana e educada. O cidadão que comparece à CPI deliberadamente, independentemente do gênero, para enganar e mentir, vai ser confrontado. Isso aconteceu ontem. O fato é que a dra. Nise compareceu em grande parte para desinformar”, disse antes do início do depoimento de Luana Araújo.

Simone Tebet diz que participação de senadoras na comissão é ‘guerra de titãs’

A líder da bancada feminina no Senado, Simone Tebet (MDB-MS) falou, em entrevista à CNN na última segunda-feira (31), sobre a representação feminina na comissão de inquérito, que conta apenas com titulares homens.

Composta por 12 parlamentares, a bancada feminina no Senado vem ganhando destaque na CPI da Pandemia mesmo sem integrantes titulares. Em todas as sessões, pelo menos uma delas participa ativamente dos debates na comissão.

Segundo Simone Tebet, falta por partes dos senadores “paciência para ouvir o que uma mulher na vida pública tem a dizer”. “São construções do dia a dia. Damos dois passos, recuamos um, às vezes, mas nunca voltamos ao ponto de partida”, disse a senadora.

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