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    Discurso de Lula expõe virtudes e fraquezas da política externa brasileira

    Presidente acertou ao colocar clima no centro das atenções do Itamaraty, mas foi otimista demais ao falar do Conselho de Segurança da ONU e guerra na Ucrânia ao lado do chanceler alemão

    Américo Martinsda CNN

    Em Londres

    As declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante encontro com o chanceler alemão, Olaf Scholz, mostraram de forma cristalina os pontos fortes e também as fraquezas da política externa brasileira.

    O principal acerto do novo governo foi colocar de forma incisiva a proteção do meio ambiente e a luta contra mudanças climáticas no centro das políticas do Itamaraty.Tanto que esse foi o primeiro e principal tópico da conversa entre os dois líderes.

    Além disso, Scholz ofereceu 200 milhões de euros, cerca de R$ 1.1 bilhão, para ajudar a preservar a Amazônia e financiar outros programas de inclusão e energia limpa.

    O Brasil é, de fato, uma superpotência na área do meio-ambiente e clima.

    A maioria dos analistas internacionais concorda que qualquer discussão significativa sobre o tema tem necessariamente que passar pelo Brasil.

    Não apenas pelo fato de o país deter a maior parte da Amazônia, mas também pela importância dos outros biomas nacionais e pelas nossas soluções em termos de energia limpa.

    Outro ponto forte importante é o destaque que a América Latina está voltando a ter na política externa brasileira. É a partir da liderança na região que o Brasil vai poder ampliar sua voz em outras negociações globais que vão além do clima.

    E Lula deixou isso claro ao defender a integração regional, mesmo diante de um líder europeu.

    Pontos de alerta

    Por outro lado, as palavras de Lula também demonstraram um excessivo otimismo em alguns aspectos.

    O principal deles diz respeito à guerra na Ucrânia. O presidente brasileiro, pela primeira vez, criticou a Rússia publicamente, dizendo que o país cometeu um “erro” ao invadir o vizinho.

    Ele não avançou para críticas mais severas, se recusou a oferecer munição brasileira para a defesa da Ucrânia (um pedido direto de Scholz) e se limitou a comentários muito genéricos, como dizer que “quando um não quer, dois não brigam”.

    Na superfície, isso poderia ser interpretado quase como uma ingenuidade. Mas, na realidade, mostra que Lula sabe muito bem que o Brasil tem pouco peso, militar ou econômico, para ter qualquer tipo de influência no maior conflito da atualidade. Por isso, ele tentou limitar danos ao evitar tomar posições mais fortes para um lado ou outro.

    O líder brasileiro também voltou a defender uma das obsessões de seus mandatos anteriores: a inclusão do país como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Lula disse que esperava conseguir esse objetivo até o fim dos mandatos dele e de Scholz.

    Embora uma reforma do conselho e da própria ONU seja, de fato, necessária para refletir a nova conjuntura global, as chances de Lula conseguir seu intento em tão pouco tempo são muito reduzidas, para dizer o mínimo.

    Tanto que nem o próprio Scholz esboçou alguma reação quando o presidente mencionou a Alemanha entre outros países que poderiam ter assento no conselho (junto também com Índia e Japão).

    Mas Scholz reagiu, sim, quando Lula disse que espera que o acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul seja assinado no primeiro semestre deste ano.

    O acordo vem sendo discutido há mais de vinte anos e teve sua fase de negociações finalizada em 2019. Para entrar em vigor, ele precisa ser ratificado pelos 27 países da União Europeia e pelos quatro membros do Mercosul.

    Isso ainda vai levar muito tempo. E, para complicar, o Brasil já indicou que pretende pedir mudanças no que já foi acordado.

    Acostumado às dificuldades de se conseguir um consenso mesmo em políticas internas entre os 27 países da UE, Scholz brincou com Lula e alertou que ele estava sendo demasiadamente otimista ao acreditar nessa solução tão rápida.

    De qualquer forma, a Alemanha se comprometeu no encontro a apoiar o acordo e tentar agilizar as conversas. Que ainda podem durar anos.