Entenda o papel da delegada da PF afastada por vazamento de dados
Com a ajuda do marido, agente aposentado da PF, Valéria Vieira Pereira da Silva teria realizado consultas indevidas nos sistemas da corporação

A 6ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada na manhã desta quinta-feira (14), resultou no afastamento de Valéria Vieira Pereira da Silva, delegada da Polícia Federal. Ela teria atuado como uma fonte interna de informações sigilosas para o grupo investigado, que envolve o pai de Daniel Vorcaro, Henrique Moura Vorcaro.
Segundo a decisão do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), a atuação de Valéria ia "além de mera proximidade com investigados", com ela "assumindo papel relevante no fornecimento de informações sigilosas ao grupo criminoso denominado 'A Turma'".
A investigação aponta que ela acessou, "sem justificativa funcional, o Inquérito Policial nº 2023.0064343, conduzido pela Superintendência Regional da PF em São Paulo, embora estivesse lotada, desde 2006, na Delegacia de Polícia Fazendária em Minas Gerais, sem qualquer atribuição relacionada ao procedimento".
Com a ajuda do marido, o agente aposentado da PF Francisco José Pereira da Silva, Valéria teria realizado consultas indevidas no sistema e-Pol — utilizado pela corporação para armazenar dados e informações de investigações.
O conteúdo dessas consultas era repassado a Marilson Roseno da Silva, apontado como líder operacional do núcleo “A Turma”, e posteriormente compartilhado com os demais integrantes da organização ligada a Daniel Vorcaro.
De acordo com a decisão, o objetivo seria monitorar investigações em andamento e obter informações estratégicas de interesse do grupo. Para a Polícia Federal, essa atuação indicaria que a organização criminosa conseguiu se infiltrar em áreas sensíveis da corporação e acessar dados protegidos por sigilo funcional.
Em razão desses indícios, a PF pediu o afastamento preventivo da delegada do cargo, além da proibição de contato com outros policiais e de acesso às dependências da instituição.
Nova fase
Coordenada pela Dicor (Diretoria de Combate ao Crime Organizado) da Polícia Federal em Brasília, a sexta etapa da Operação Compliance Zero foi deflagrada com o objetivo de avançar nas apurações sobre uma suposta organização criminosa investigada por atos de intimidação, coerção, acesso indevido a informações sigilosas e invasões de dispositivos eletrônicos.
Por determinação do Supremo Tribunal Federal, agentes da Polícia Federal cumprem sete mandados de prisão preventiva e 17 mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Também foram autorizadas medidas como o afastamento de servidores de suas funções, além do sequestro e bloqueio de bens.
As investigações apuram suspeitas de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, invasão de dispositivos informáticos e violação de sigilo funcional.
Outro lado
A jornalistas, a defesa de Valéria Vieira Pereira da Silva e Francisco José Pereira da Silva negou a ocorrência de acessos indevidos ao sistema da Polícia Federal.
"A defesa ainda não teve acesso à decisão na íntegra do STF. Sobre esse possível vazamento, eu já afirmo de forma categórica que não procede, porque cada servidor da PF tem uma matrícula e um acesso restrito ao sistema da PF. Então, se esse servidor, por exemplo, não tiver cadastrado em determinada operação ou investigação, ele não consegue acessar com a matrícula dele o sistema e, por exemplo, proceder com o vazamento", disse o advogado Bruno Correia.
"Então, essa notícia de que foi feito um acesso indevido a uma investigação e a divulgação de fatos desta investigação para terceiros não prospera, porque não é possível um agente público que não esteja cadastrado em uma investigação sigilosa tenha acesso a essa investigação e retire dali informações sensíveis e passe a terceiros. A delegada e o policial federal não estão cadastrados nesta operação. Então, eles não conseguem com o token deles, com a matrícula deles, obter informações deste inquérito e divulgar a terceiros", completou.

