Entre acordos e rupturas, Arraes e Campos mantêm viva tradição política familiar

Primos de segundo grau, João Campos e Marília Arraes são hoje adversários em Pernambuco, mas ocupam espaço aberto por Miguel Arraes ainda nos anos 1950

Primos de segundo grau e divergente, a deputada federal Marília Arraes (PT) e o prefeito do Recife, João Campos (PSB) são herdeiros políticos do ex-governador Miguel Arraes
Primos de segundo grau e divergente, a deputada federal Marília Arraes (PT) e o prefeito do Recife, João Campos (PSB) são herdeiros políticos do ex-governador Miguel Arraes Reprodução/Facebook/Prefeitura do Recife/Arte CNN

Marcelo Cavalcantecolaboração para a CNN

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A tarefa de dar continuidade ao legado político construído por Miguel Arraes em Pernambuco ao longo de meio século, entre as décadas de 1950 e 2000, ficou com o neto Eduardo Campos, nascido em 1965. Caberia ao economista, que exerceu os cargos de deputado estadual, federal, governador e ministro de Estado, dar sequência ao fortalecimento da família e do PSB.

O ano era 2014. Campos passava a imagem de estrategista político e estava com a popularidade em alta, após ter contribuído com o governo Lula e comandado Pernambuco por dois mandatos. Assim, lançou-se como candidato a presidente. Seus planos de encostar nas duas principais candidaturas naquele ano, as de Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB), porém, foram interrompidos de forma trágica.

Após uma entrevista ao vivo ao Jornal Nacional, da TV Globo, Campos viajou para o estado de São Paulo. A aeronave em que ele estava fez uma tentativa de pouso, mas acabou caindo em Santos (SP). Sua morte abalou o cenário político brasileiro ― principalmente o pernambucano.

Mas mesmo sem a principal liderança, sua base seguiu estruturada. Em Pernambuco, seu afilhado político Paulo Câmara reverteu a desvantagem nas pesquisas e se elegeu governador. O legado de Arraes se manteve, mas com outros herdeiros.

Em 2020, a família predominou na política local. Filho de Eduardo, João Campos (PSB) venceu a eleição para a Prefeitura do Recife derrotando sua prima de segundo grau Marília Arraes, deputada federal então pelo PT — ela anunciou a saída do partido neste mês de março de 2022 — , de quem um dia já fora aliado. A disputa em família não aconteceu por acaso. Para entendê-la, é preciso voltar ao passado.

As origens de uma força política

Força motriz da família Campos, Miguel Arraes de Alencar nasceu em 16 de dezembro de 1916, em Araripe, no interior do Ceará. Antes de se mudar para terras pernambucanas, ainda morou no Rio de Janeiro, onde começou o curso de direito.

Logo depois, foi aprovado no concurso público do recém-formado Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). Como tinha proximidade com o presidente do local, o jornalista e escritor pernambucano Barbosa Lima Sobrinho, foi transferido para Recife, onde deu início à carreira política.

Arraes assumiu seu primeiro cargo justamente no governo de Lima Sobrinho. No final dos anos 1940, foi secretário da Fazenda de Pernambuco. Ele voltaria a exercer a mesma função no governo de Cid Sampaio, em 1959. No ano seguinte, venceu a primeira eleição para prefeito do Recife, ocupando a cadeira até 1962, quando foi eleito governador, pelo Partido Social Trabalhista (PST), com 48% dos votos.

Mas, dois anos depois de sua eleição, o golpe militar o tirou do poder. Arraes ficou mais de um ano preso. Ao ganhar liberdade, exilou-se na Argélia, para evitar uma nova prisão. Poderia ser o fim da sua carreira política, mas foi um novo começo.

O então ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos, e o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, seu avô, em encontro em 2004 / Estadão Conteúdo

No continente africano, trabalhou como articulador político. Ao voltar ao Brasil, em 1979, começou a ser tratado como um ícone da resistência ― e um mito em Pernambuco. Foi eleito deputado federal em 1982 e, em 1986, chegou novamente ao governo do estado. O triunfo nas urnas se repetiu em 1990, quando foi eleito deputado federal pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), do qual foi um dos fundadores e presidente.

Arraes foi eleito deputado federal pela última vez em 2002, aos 86 anos. Em agosto de 2005, ainda no cargo, morreu em decorrência de um choque séptico causado por infecção respiratória, agravada por insuficiência renal. Ele deixou oito filhos do primeiro casamento (José Almino, Ana Lúcia, Carlos Augusto, Miguel Arraes Filho, Marcos, Maurício, Carmen Sílvia e Luís Cláudio) e mais dois do segundo (Mariana e Pedro). Durante sua trajetória, a semente política da sua família já estava plantada.

Os herdeiros na política

Filha do primeiro casamento de Miguel Arraes com Célia Souza Leão, Ana Lúcia Arraes de Alencar ingressou no PSB, em 1990, mas só conquistou seu primeiro mandato em 2006, quando foi eleita deputada federal. Quatro anos depois, se reelegeu para o mesmo cargo.

Em 2011, Ana Lúcia foi indicada pela Câmara para o cargo de ministra do Tribunal de Contas da União. Com o escritor Maximiano Accioly Campos, teve dois filhos: Antônio e Eduardo Campos.

Advogado e escritor, Antônio Campos se candidatou em 2016 a prefeito de Olinda, mas foi derrotado no segundo turno pelo Professor Lupércio (Solidariedade). Dois anos depois, disputou uma vaga para deputado estadual, mas não foi eleito. Atualmente, preside a Fundação Joaquim Nabuco e está rompido com o sobrinho João Campos, atual prefeito de Recife.

Já Eduardo teve êxito como político e se transformou em uma das principais lideranças do estado. Ele começou a carreira como chefe de gabinete do governo do próprio avô, Miguel Arraes. Em 1990, já filiado ao PSB, foi candidato e venceu a eleição para deputado estadual; em 1994, venceu a disputa para a Câmara dos Deputados.

A partir daí, sua carreira deslanchou de vez. Em 2004, a convite do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), tornou-se ministro da Ciência e Tecnologia. Fortalecido politicamente, venceu a disputa para o governo estadual. Em 2010, foi reeleito, derrotando Jarbas Vasconcelos (MDB) com mais de 80% dos votos.

Em 2013, Eduardo rompeu com o governo Dilma Rousseff (PT) e lançou a candidatura à Presidência tendo como vice Marina Silva, ex-petista que também se afastou do antigo partido.

Brigas familiares

Ao longo da carreira, Campos se desentendeu com a família. Sua prima Marília Arraes (filha de Marcos Arraes) era vereadora pelo PSB quando decidiu se candidatar a deputada federal em 2014. Ele vetou familiares na corrida eleitoral para acomodar aliados e não a apoiou. Marília desistiu da ideia e continuou como vereadora.

No mesmo período, ela também se opôs à indicação de Campos para que seu filho João assumisse o comando da Juventude do PSB, dizendo que o primo desrespeitava a democracia interna do partido.

No segundo turno das eleições de 2014, após a morte de Eduardo, João Campos e a mãe, Renata, apoiaram a candidatura de Aécio à Presidência, e Marília ficou do lado de Dilma. Em Pernambuco, apoiou o nome de Armando Monteiro (PTB) ao governo, em vez do de Paulo Câmara (PSB).

Ela passou a fazer oposição ao próprio partido. Depois de muitos embates, trocou o PSB pelo PT em 2016 e venceu a eleição para seu terceiro mandato como vereadora. Apenas em 2018, depois de ser tirada da disputa pelo governo devido aos acordos nacionais do PT com o PSB, Marília foi eleita deputada federal ― a segunda mais votada do estado, logo atrás de seu primo de segundo grau, João Campos.

Os “filhos da esperança”

Após a morte de seu pai, João assumiu em 2016 o cargo de chefe de gabinete do governador Paulo Câmara (ex-secretário da Fazenda de Campos).

Em 2018, então com 25 anos, fez campanha usando o mote “o filho da esperança” e foi eleito deputado federal com mais de 460 mil votos, a maior votação para o cargo na história de Pernambuco ― superando, inclusive, a marca conquistada pelo seu bisavô Miguel Arraes em 1990 (339.158 votos).

Dois anos depois, a disputa que vinha sendo desenhada aconteceu. João Campos foi lançado candidato a prefeito do Recife; do outro lado estava Marília Arraes, que manteve as críticas à gestão PSB desde sua saída do partido. Na urna, a briga foi acirrada. João venceu Marília no segundo turno, com 56,27% dos votos, contra 43,73% da prima.

Para as eleições de 2022, Marília deixou o PT e migrou para o Solidariedade com a intenção de disputar o governo do estado, e outro herdeiro de Arraes deve entrar na política na tentativa de manter o legado da família: Pedro Campos, que tentaria uma vaga para a Câmara dos Deputados.

Formado em engenharia civil, ele trabalhou na Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) até 2021, quando foi nomeado como gerente de projetos especiais da Secretaria de Planejamento e Gestão do estado. Ao assumir um cargo estratégico na gestão de Paulo Câmara, Pedro refaz um caminho já percorrido pelo irmão e pelo próprio pai.

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