Prime Time

seg - sex

Apresentação

Ao vivo

A seguir

    Ex-CEO das Americanas diz à PF que nunca soube de inconsistências; leia depoimento na íntegra

    Miguel Gutierrez relata ter pedido a outros diretores que fizessem um histórico das transações para serem apresentadas ao então novo chefe, Sergio Rial

    Unidade das Lojas Americanas, em Brasília. Imagem ilustrativa
    Unidade das Lojas Americanas, em Brasília. Imagem ilustrativa 12/01/2023REUTERS/Ueslei Marcelino

    Caio Junqueirada CNN

    O ex-CEO das Lojas Americanas Miguel Gutierrez disse em depoimento à Polícia Federal no dia 21 de junho que “nunca” soube inconsistências contábeis na empresa.

    “Nunca chegou ao conhecido do declarante os fatos relacionados as denominadas ‘inconsistências contábeis’, nem aquelas relacionadas VPC [Verba de Propaganda Cooperada]”, afirmou, segundo depoimento dele à PF.

    Gutierrez relata ter pedido a outros diretores que fizessem um histórico das transações para serem apresentadas ao então novo chefe, Sergio Rial. Ela foi feita, mas nada foi destacado sobre “inconsistências contábeis”.

    Segundo o ex-CEO, essa apresentação ocorreu em 27 de dezembro de 2022 e, nessa reunião, estavam os seguintes executivos da empresa: Anna Saicali, Marcio Cruz Meirelles, José Timótheo de Barro, Sergio Rial, Eduardo Saggioro, além do próprio Miguel Gutierrez.

    “Timotheo fez a apresentação da plataforma física e Marcio da digital; a elaboração do material ficou a cargo de Marcio, Fabio [Abrate] e Timotheo; nessa reunião nada foi destacado quanto a existência de ‘inconsistências contábeis’ que motivaram a publicação do fato relevante em 11/01/2023”, diz o executivo em depoimento.

    Ele afirma ainda que, na mesma reunião, “não houve qualquer alerta de que a empresa estivesse passando por dificuldades financeiras”, sem a presença de ninguém das áreas financeira ou contábil.

    A CNN procurou os representantes dos ex-executivos Fabio Abrate e Timotheo Barros, apontados no depoimento como organizadores de uma apresentação para Rial que não teriam constado, segundo Gutierrez, inconsistências contábeis. Eles não se manifestaram.

    A CNN não localizou a defesa de Marcio Cruz. A defesa de Gutierrez também não se manifestou.

    Leia na íntegra o depoimento do ex-CEO Miguel Gutierrez:

    Cientificado que, caso tenha envolvimento com os fatos criminosos investigados, tem o direito de permanecer em silêncio, de não produzir provas contra si mesmo e de ser assistido por um advogado. Inquirido a respeito dos fatos investigados, RESPONDEU: QUE março/ 1993, ingressou nas Lojas Americanas S/A; QUE iniciou na área financeira das Lojas Americanas, onde permaneceu durante dez meses aproximadamente; QUE na época de sua contratação, o declarante trabalhava na Casa da Moeda fazia cinco anos;

    QUE foi convidado pela pessoa de FERSEN LAMBRAINO (na época era Diretor, vindo a ser Presidente da LASA); QUE atualmente, FERSEN trabalha na GP Investimentos; QUE após atuar na área financeira, passou a área operacional de automação das lojas; QUE permaneceu nessa posição durante um ano;

    QUE posteriormente, foi liderar um projeto de logística na LASA; QUE permaneceu neste Setor até 1998, quando foi convidado a ser Diretor Estatutário da LASA, sem designação específica;

    QUE na época (1998), o Presidente do Conselho de Administração da LASA era BETO SICUPIRA, pessoa que convidou o declarante para ser Diretor Estatutário; QUE nesse período, se dedicava mais a área de operações e logística, enquanto Diretor Estatutário; QUE nessa época, participou da venda de supermercados da LASA e dos spin-off (da São Carlos); QUE a São Carlos ficou com os imóveis da LASA, sendo que a LASA passou a pagar aluguel dos imóveis dessa empresa;

    QUE` em 2000, quando da sucessão de CLÁUDIO GALEAZZI (Diretor Superintendente da LASA), BETO SICUPIRA convidou o declarante para ser o Diretor Superintendente da LASA;

    QUE aceitou o convite, tendo assumido, em março/2001, como Diretor Superintendente da LASA;

    QUE naquela ocasião, a LASA tinha 94 lojas físicas, dívida de cem milhões de reais e uma operação inicial na internet denominada AMERICANAS.COM;

    QUE na época, não havia plano de expansão definido;

    QUE uma vez definido o plano de expansão, obedecia o critério ‘geração de caixa próprio’ e/ou ‘financiamentos através de bancos’;

    QUE o Conselho definiu utilizar a metodologia do EVA , tendo sido contratada a consultoria STEERN STEWART (escolhida pelo Conselho de Administração) para orientação;

    QUE na plataforma física, foram aberta mais de 1700 lojas com recursos próprios até o ano de 2020;

    QUE no mundo digital (AMERICANAS.COM) tinha vida própria, adquiriu o Shoptime (2004), tendo, em 2006, criado a B2W com a combinação com o submarino.com; QUE B2W é fruto da fusão da AMERICANAS.COM, SHOPTIME e SUBMARINO; QUE a B2W era nível máximo de govenança no mercado, o quê significa ter comitê de auditoria independente, conselho fiscal e três conselheiros independente, além de haver, no Conselho de Administração, participação mínima de conselheiros independentes;

    QUE a B2W e LASA tinham diretorias completamente independente, porém, a LASA era a controladora da B2W;

    QUE o declarante fez parte do Conselho de Administração da B2W, juntamente com BETO SICUPIRA, no primeiro ano;

    QUE no ano seguinte, BETO SICUPIRA saiu do Conselho de Administração da B2W, permanecendo o declarante como conselheiro, enquanto representante da LASA; QUE nesse período, permaneceu também como Diretor Superintendente da LASA até setembro/2 020;

    QUE a B2W passou a ter necessidade de capital após o apagão logístico (problemas de entrega no Natal) em dezembro/2010; QUE a partir de então, viu-se a necessidade de criação de uma plataforma própria da B2W;

    QUE a criação dessa plataforma exigiu a necessidade de aporte de capitais na B2W pela LASA; QUE em 2017, foi feito o primeiro aporte de dois vírgula quatro bilhões de
    reais (por parte dos investidores) na LASA;

    QUE até aquela data, a LASA, já havia investido mais de três virgula cinco bilhões na B2W; QUE em 2018, foram criadas novas políticas de governança nas companhias;

    QUE a B2W foi criada em 2006;

    QUE ANA SAICALI foi Presidente da B2W desde sua fundação até 2018;

    QUE em 2018, criou-se o ‘universo Americanas’, consistia em três horizontes de crescimento: o ‘H1’ que seria plataforma física como geradora de caixa, o ‘H2’ que seria a plataforma digital como de grande crescimento de vendas e ‘H3’ de inovação e futuro, com novas iniciativas de negócio;

    QUE nessa mesma época, também foi criada a LET’S, braço logístico dos três ‘H’;

    QUE cada um desses ‘H’ tinha um CEO;

    QUE em dezembro/2019, o declarante foi comunicado por BETO SICUPIRA que haveria sua sucessão antes de completar sessenta anos, o quê ocorreria até dois anos após o comunicado;

    QUE nesta mesma oportunidade, BETO também falou ao declarante que TIMOTHEO seria seu sucessor na Plataforma física;

    QUE em março/2020, o Estatuto da LASA foi alterado, criando-se o cargo de ‘Diretor Presidente’, destinado ao declarante;

    QUE o declarante, em setembro/2020, passou a ocupar o cargo de Diretor Presidente da LASA;

    QUE na mesma data, setembro/2020, TIMOTHEO passou a ocupar o cargo de Diretor Superintendente da LASA;

    QUE Hl ficou com CEO THIMOTEO, H2 ficou MÁRCIO CRUZ (ele substituiu ANA SAICALI na Presidência da B2W em março/2018) e H3 tinha como CEO ANA SAICALI;

    QUE cada empresa (H) tinha um CFO;

    QUE as empresas tinham estruturas completamente independentes;

    QUE o CFO do H1 era CARLOS PADILHA e do H2 era MARCELO NUNES e FÁBIO ABRATE;

    QUE com a pandemia da COVID (2020), houve um crescimento exponencial de vendas on-line e da B2W, enquanto que a LASA, com lojas físicas, tiveram queda de vendas;

    QUE com isso, as lojas físicas que sempre tiveram dívidas com bancos (em razão do crescimento) necessitava aumentar seu capital;

    QUE para isso, o Conselho de Administração da LASA decidiu fazer um follow-on (para capitalizar a companhia), o quê foi realizado em julho/2020, no valor de sete vírgula oito bilhões de reais;

    QUE na mesma época, o Conselho de Administração da B2W decidiu fazer um aumento de capital de quatro bilhões na B2W;

    QUE como a LASA era a controladora da B2W, com a decisão desta de aumentar o capital, precisou a LASA aportar recursos para não perder o controle;

    QUE com a pandemia, o valor das ações da B2W teve grande aumento em razão do perfil de negócios da empresa (venda digital), ocorrendo o inverso com as ações da LASA, também motivada pelo perfil de negócios, vendas físicas, prejudicadas pela pandemia;

    QUE a partir de então, pensou-se em fundir as empresas, sendo realizados vários estudos de combinação das mesmas, solicitados pelo Conselho de Administração da LASA, eis que cada uma tinha vida independente;

    QUE em fevereiro/2021, foi anunciado ao mercado que seria dado início a esses estudos de combinação;

    QUE em junho/2021, a combinação foi materializada;

    QUE dentro dos estudos, foram feitas inúmeras auditorias e análise jurídica e financeira de cada empresa com a emissão de laudos técnicos das respectivas empresa e visões de negócios de forma a chegar a relação de trocas entre as ações, chegando-se a um valor de 0,18 a relação de troca (cada ação da LASA estava valendo quase 1/5 da B2W);

    QUE a combinação tinha como dificuldade empresas com perfis diferentes, sistemas diferentes, legislações tributárias diferentes e alcance nacional diferentes;

    QUE também havia um desafio na política de governança;

    QUE a LASA tinha onze diretores e a B2W tinha sete diretores;

    QUE o Conselho de Administração da LASA passou a ser o da AMERICANAS (BETO, PAULO LEMAN, CLÁUDIO GARCIA, EDUARDO SAGIORO; como independente do Conselho ainda havia VANESSA, SIDNEI e MAURO MURATORI);

    QUE os conselheiros da B2W foram destituídos;

    QUE a Diretoria da AMERICANAS foi de transição com quatro CEO’s, sendo o declarante SAICALI, MÁRCIO CRUZ e JOSÉ TIMOTHEO;

    QUE ao longo de 2021, desde o anúncio da combinação, as ações da empresa perderam cinquenta e sete por cento de seu valor, correspondente a trinta e dois bilhões de reais;

    QUE BETO creditou que a perda decorreu por erro de comunicação, sendo criado (início de 2021) um Comitê Executivo de Comunicação, com reuniões quinzenais, composto por BETO, declarante, ANA e SAGIOLO; QUE em novembro de 2021, BETO reforçou a comunicação de que o declarante seria sucedido e que deveria ser acelerada a escolha de candidato internos (ANA, TIMOTHEO e MARCIO);

    QUE em janeiro/22, foi encerrada a dinâmica societária da combinação (fusão/compra); QUE em janeiro/22, com a troca completa de ações LAME3/4 (nome da ação) por AMER3 (nome da ação);

    QUE a nova companhia criada era 76% digital;

    QUE em 19/02/2022, a empresa sofreu um ciber-ataque;

    QUE em razão desse ataque, a empresa (B2W) suspendeu suas atividades digitais durante dez dias ou duas semanas, havendo consequências durante mais algum tempo;

    QUE no dia 25/03/2022, SAGIORO marcou uma reunião com o declarante, BETO e Sérgio Rial, além de ANA, TIMOTHEO e MÁRCIO;

    QUE SAGIORO teria dito, à época, para o declarante que a pauta da conversa seria a discussão de possível vaga para o Conselho;

    QUE abril ou maio/2020, o Conselho de Administração demandou o declarante para a contratação da SPENCER STUART (empresa de avaliação de executivos) para avaliação dos atuais candidatos internos, o quê foi realizado no dia 26/05/2022;

    QUE em junho/2022, CLÁUDIO GARCIA (Presidente do Comitê de Gente) solicitou ao declarante que fizesse avaliação acelerada dos candidatos internos para apresentação do resultado para o Conselho de Administração em reunião a ser realizada no fim de junho/22;

    QUE tal demanda foi atendida;

    QUE no dia 01/07/2022, o declarante foi chamado para uma reunião por BETO, tendo este comunicado ao declarante que ‘SERGIO RIAL’ seria uma escolha sua (BETO), sendo que o nome de RIAL seria proposto para o Conselho de Administração numa reunião em agosto/22;

    QUE na semana seguinte, BETO promoveu um almoço com os demais CEO’s para explicar os motivos de sua decisão, consistindo na ausência de credibilidade dos
    candidatos internos pelo mercado externo, o quê contaria a favor de SERGIO;

    QUE além disso, a ação estava muito barata (já teria caído 87%) e qualquer um poderia assumir o controle com o preço tão baixo, além de SERGIO poder ajudar muito na parte financeira;

    QUE o Conselho de Administração aprovou a recomendação de BETO, tendo sido publicado o comunicado ao mercado no dia 19/08/2022;

    QUE a partir desta data, a interação de SERGIO RIAL com a comunidade (AMERICANAS) foi muito intensa;

    QUE a partir de 05/09/2022, as atividades de SERGIO RIAL na empresa estavam embasada num contrato de consultoria firmado a partir de 01/09/2022, com término previsto em 30/12/2022;

    QUE no dia 05/09, SERGIO teve o primeiro contato com os CEO’s e Diretores;

    QUE a partir desse contato, por intermédio do declarante, SERGIO passou a fazer contato direto com as pessoas, comunicando o declarante de acordo com a conveniência daquele;

    QUE no período de transição das AMERICANAS, SERGIO continuava como Presidente’ do Conselho de Administração do SANTANDER, da VIBRA (que tinha
    negócios com a AMERICANAS), além de participar do conselho da DELTA;

    QUE durante esse período de transição, o declarante passou a se dedicar mais as empresas recém adquiridas (ou criadas), além de dar suporte a transição quando demandou;

    QUE o declarante solicitou a TIMOTHEO, FÁBIO ABRATE e MARCIO para fazer um histórico das operações das plataformas fisicas (de vinte anos) e digitais (desde o surgimento) a serem apresentadas para SERGIO e SAGIORO;

    QUE a apresentação ficou agendada para o dia 27/12/2022;

    QUE nessa reunião, estavam ANA, MARCIO, TIMOTHEO, o declarante, SERGIO e SAGIOLO;

    QUE TIMOTHEO fez a apresentação da plataforma física e MARCIO da digital;

    QUE a elaboração do material ficou a cargo de MARCIO, FABIO e TIMOTHEO;

    QUE nessa reunião nada foi destacado quanto a existência de ‘inconsistências contábeis’ que motivaram a publicação do fato relevante em 11/01/2023;

    QUE nessa reunião, não houve qualquer alerta de que a empresa estivesse passando por dificuldades financeiras;

    QUE nessa reunião não estava presente ninguém da área financeira ou contábil;

    QUE dia 28/12/2022, o declarante não esteve na empresa, sendo seu último dia 29/12/2022;

    QUE não e voltou mais a empresa, nem foi chamado na mesma;

    QUE no dia 09/01/2023, por uma questão de cortesia, tentou contato telefônico com SERGIO, sem sucesso, tendo este mandado uma mensagem que falaria com o declarante no dia 11/01/2023;

    QUE no dia 12/01/2023, teve um contato por telefone com SERGIO, tendo este mantido uma conversa com caráter mais protocolar;

    QUE nesse dia, SERGIO só reforçou o contido no fato relevante, sem adentrar no mérito do ocorrido, colocando-se à disposição para indicar ao declarante algum advogado caso fosse necessário, sem especificar os motivos da oferta;

    QUE em 31/01/2023, recebeu um contato, via zap, por parte da empresa, solicitando a devolução dos equipamentos da empresa dentro do seu processo de des1igamento;

    QUE o contato foi feito por MARCOS GUIMARÃES;

    QUE ficou combinado um agendamento para entrega dos equipamentos;

    QUE no mesmo dia, 3 1/01/2023, o declarante perguntou a MARCOS quais os equipamentos que deveria restituir, tendo MARCOS ficado de confirmar com o pessoal
    do TI;

    QUE no dia 17/12/2022, o declarante falou com o JOÃO GUERRA, perguntando como deveria fazer para ressarcir a companhia ‘pelos equipamentos que estavam em seu poder, tendo este dito que, a regra, era ficarem como o colaborador, pois eram antigos;

    QUE o declarante recebeu uma lista de equipamentos que deveriam ser entregues;

    QUE todos os equipamentos solicitados’ foram entregues;

    QUE o equipamento que, supostamente, não teria sido entregue, mas foi nesta data, não fazia parte da lista;

    QUE dentre os equipamentos que entregou, havia um pessoal, o qual não constaria no inventário, foi entregue a Polícia Federal, mas não foi restituído até o momento;

    QUE esclarece que os e-mai1’s da companhia estão todos no provedor da companhia, a qual são acessados de forma remota;

    QUE nunca chegou ao conhecido do declarante os fatos relacionados as denominadas ‘inconsistências contábeis’, nem aquelas relacionadas VPC;

    QUE o declarante gostaria de deixar registrado que entende estranho o último fato relevante publicado pela empresa-1-acusando o declarante e outras pessoas de fatos que ainda estão em apuração pelo Comitê Independente;

    QUE da mesma forma, o possível compartilhamento de documentos pelo Comitê Independente antes da conclusão dos trabalhos para os advogados da assessoria jurídica do Conselho de Administração;

    QUE só tomou conhecimento de que teria entregue a companhia um equipamento pessoal e estaria faltando um equipamento corporativo, o quê nunca lhe foi comunicado, tomando conhecimento somente agora dia 16/06/2023 , ao ter acesso a medida cautelar.