Fernando Molica: No debate, Bolsonaro investe em variações do 'Beba Cola-Cola'

Candidato à reeleição, presidente foca no antipetismo e na repetição de temas relacionados ao comportamento

Fernando Molica
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Questionado por Jair Bolsonaro (PL) sobre sua suposta amizade com o ditador nicaraguense Daniel Ortega, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tratou, no debate da Band, de contextualizar o fato. Deu uma longa resposta em que citou sua participação num evento comemorativo da Revolução Sandinista para, depois, afirmar que caberia o povo do país da América Central definir seu futuro político.

Uma resposta até equilibrada, afinada com a tradição diplomática brasileira, compatível com a busca de explicações embasadas em fatos, mas em nada adequada a um debate eleitoral, arena de um embate do bem contra o mal, de mouros e cristãos, de vermelhos contra azuis.

Ao evitar condenar Ortega de forma decisiva, Lula demonstrou sua dificuldade de se adequar à lógica e ao ritmo de um enfrentamento em tempos guiados pelo imediatismo e pela lacração das redes sociais.
Bolsonaro, por sua vez, manteve seu estilo, um jeito que marca sua carreira de três décadas na política e que, de certa forma, antecipou a lógica da internet.

Lá atrás, ainda um obscuro deputado federal, ele percebeu a importância de criar frases de efeito, de nada contra a corrente, de criar slogans que resumissem o produto que queria vender - sua própria vida política.

Como revelou numa entrevista a Jô Soares, ele era o próprio estilo: caso se comportasse de maneira tradicional, seria apenas mais um político do baixo clero, sequer estaria sentado no sofá do então mais importante programa de entrevistas da TV brasileira.

Para fugir do anonimato, Bolsonaro falava em guerra civil, em fuzilamento do presidente que autorizara a venda da Vale, comparou a cachorros que iam atrás de ossos aqueles que tentavam localizar restos mortais de parentes mortos ou desaparecidos pela ditadura.

Alçado à disputa pela Presidência e, agora, à reeleição, Bolsonaro aperfeiçoou a fórmula - escolhe um número limitado de temas e os repete o tempo inteiro. Não é necessário que suas abordagens estejam corretas, que os fatos citados tenham ocorrido exatamente daquele jeito, o importante é que boa parte do eleitorado acredite no que está sendo dito.

Bolsonaro sabe que muita gente quer acreditar em fantasmas associados ao petismo, como ameaça a igrejas (algo compatível com a perseguição sofrida há séculos por protestantes), na liberação do aborto e das drogas, em conspiração para que crianças sejam orientadas para assumir identidades sexuais que fujam ao padrão.

Publicitário intuitivo, Bolsonaro-produto vende imagens a ele associadas. Não faz tempo, cigarros eram identificados com saúde e desempenho físico; até hoje a propaganda de automóveis os associa a sedução, poder e desempenho sexual.

Como produto político, o presidente trata de vestir as qualidades que associou à sua carreira, e de reiterá-las o tempo todo. E, como dizia Nelson Rodrigues quando seu Fluminense não conquistava um título por ele profetizado, os fatos não têm a menor importância.

Criado em um outro ambiente institucional, afastado, até por questões judiciais, do cotidiano da luta política (seu último mandato foi encerrado há 12 anos), preocupado em não perder a vantagem de seis milhões de votos para seu adversário, Lula parece contido, preso a um script, incapaz de sacadas que tanto marcaram sua trajetória.

Já Bolsonaro trafega pela estrada que vislumbrou e que ajudou a construir. Não importa que Lula não queria fechar igrejas, que não planeje descriminalizar drogas ou ampliar os casos de aborto legal ou distribuir o inexistente "kit gay".

O presidente sabe que muita gente quer acreditar nessas histórias, que confia nas mensagens que quer vender, o importante é aplicar e repetir variações de alguns dos mais geniais slogans publicitários já criados, o "Beba Coca-Cola" ou o "Se é Bayer, é bom".

Este texto não representa, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.