Golpeando o “golpe”

Condições atuais não se assemelham ao contexto de 1964, quando militares tomaram o poder

Bolsonaro ataca, recua e ataca novamente o processo eleitoral
Bolsonaro ataca, recua e ataca novamente o processo eleitoral Bruno Kelly/Reuters

Boris Casoy

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Intermináveis discussões sobre um golpe que estaria sendo armado pelo presidente Bolsonaro dominam o panorama político do país. As constantes críticas do presidente da República sobre a segurança as urnas eletrônicas soam para muitos como preparação de uma ação golpista a ser desencadeada logo após as eleições, quando — se for derrotado — Bolsonaro se diria tungado pelo TSE e, com apoio militar, se recusaria a passar o poder ao candidato eleito.

De fato, a insistência com que o presidente aborda o tema extrapola dúvidas que poderiam ser consideradas normais. Repentinamente, Bolsonaro recua em seus ataques às urnas e desenha uma eleição sem problemas.

Poucas horas depois, recua do recuo e volta ao ataque, desencadeando todo tipo de boatos conspiratórios e temores. Em seguida, de raspão, evoca 1964 e o AI-5, agitando temas que hoje pertencem à história.

Quem viveu ou conhece os fatos que desencadearam 1964 sabe perfeitamente que nada que ocorre agora assemelha-se aos fatos que levaram àquele movimento civil-militar. Vivia-se a Guerra Fria, o país tinha um governo fraco e muitos temiam uma virada comunista.

Entidades que hoje dizem defender a democracia como a OAB, a Igreja Católica e as entidades empresariais clamavam pela queda de João Goulart. Os militares desencadearam a ação só quando viram quebrada a hierarquia militar. Hierarquia e disciplina são fatores básicos quando se fala em forças armadas em qualquer parte do mundo.

Hoje não há condições de golpe. Se alguém tentasse uma aventura golpista não encontraria apoio nos quartéis, a não ser de grupelhos seduzidos por teorias conspiratórias de cunho arqueológico.

O presidente Bolsonaro navega em águas tranquilas quando sua embarcação é o confronto. E esse confronto contra as urnas eletrônicas, embora perigoso, tem se sobreposto a temas que realmente apresentam conexão com a realidade do país: inflação, meio ambiente, reforma administrativa, relações exteriores, reforma tributária etc.

Acossado pela pandemia e pela inflação, Bolsonaro tem pela frente enormes dificuldade eleitorais, criadas por problemas que não estavam em seu script e por seguidos tiros nos próprios pés.

Não se sabe o que poderá vir pela frente, mas essa retórica presidencial, tática ou não, já faz com que Lula, seu grande adversário se coloque — mesmo depois dos desastres dos governos petistas e da corrupção — na posição de salvador da pátria.

O pior de tudo é que o pleito se outubro promete uma campanha sórdida, em que a disputa não é especificamente por uma grande performance, mas sim uma competição em busca de menor rejeição eleitoral.

Fotos – Todos os presidentes da história do Brasil

 

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