Grupo da transição deve propor recriação do Ministério da Pesca com quatro secretarias e instituto

A recriação da pasta ainda gera divergências dentro dos integrantes da equipe de transição

Teo Cury, da CNN, em Brasília
Estrutura do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em Brasília
Estrutura do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em Brasília  • CCBB
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O grupo técnico da Pesca vai propor no relatório preliminar que será entregue nesta quarta-feira (30) ao vice-presidente eleito e coordenador-geral do gabinete da transição Geraldo Alckmin (PSB) a recriação do ministério, extinto em 2015. A devolução do status de ministério à Pesca foi uma das promessas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante a campanha.

Após a vitória de Lula, um grupo técnico da Pesca no âmbito do gabinete de transição foi criado com o objetivo de realizar um diagnóstico do setor, identificar riscos, fazer alertas, apontar ilegalidades e propor medidas para serem adotadas no início do governo, em janeiro de 2023.

Apesar de ser consenso entre os oito integrantes do grupo técnico, a recriação do ministério ainda gera divergências dentro do gabinete de transição. O grupo de Agricultura, Pecuária e Abastecimento acredita que a Pesca deve seguir como uma secretaria dentro do Ministério da Agricultura.

A senadora Kátia Abreu (PP-TO) tem dito a jornalistas nos últimos dias que o grupo da Agricultura, do qual ela faz parte, deve recomendar a manutenção da Secretaria da Pesca na estrutura do Ministério da Agricultura.

"A pesca é uma atividade muito importante para o agro como um todo e que será sempre bem cuidada, mas que é importante, como muitas entidades representantes querem, continuar no Ministério da Agricultura. Isso quem vai decidir é o presidente e seu futuro ministro", afirmou na última quinta-feira (24).

Nesta terça-feira (29), a senadora reafirmou que há consenso entre as entidades ouvidas pelo grupo de que Pesca e Aquicultura devem permanecer no Ministério da Agricultura.

“Qual foi o ponto focal até agora com as entidades de classe? Primeiro lugar, ninguém quer que a Pesca saia do Ministério da Agricultura. As próprias entidades da pesca, como também integração suínos, aves e peixes, todos acham que cresceu muito a atividade de pesca e aquicultura ficando no Ministério da Agricultura”, disse.

A avaliação de integrantes do grupo técnico da Pesca é outra. O grupo acredita que houve um desmonte estrutural e orçamentário da Secretaria da Pesca no período em que esteve submetida ao Ministério da Agricultura, o que, de acordo com seus integrantes, teve impacto direto nas políticas públicas do setor.

Entre os desafios mapeados até agora pelo grupo estão a falta de pessoal e de orçamento para atividades do setor, dificuldade com o rastreamento de embarcações, problemas no sistema de emissão de registro geral e de permissionamento para embarcações, ausência de ações de fomento para as comunidades pesqueiras tradicionais e apoio à comercialização.

Ministro no governo Lula e coordenador do grupo na transição, Altemir Gregolin é contra a permanência da Pesca como secretaria dentro do Ministério da Agricultura. “Estar abrigado no Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento é disputar orçamento e prioridade com cadeias poderosas, como suíno, bovino e frango”, diz Gregolin à CNN.

Para Gregolin, a recriação do ministério vai ajudar o Brasil a produzir alimentos com qualidade e baixo preço para disputar com outras carnes no mercado interno e para exportação e ser fator de segurança alimentar para pesca artesanal.

“Vejo a criação do ministério como uma ação estratégica para o desenvolvimento do setor no Brasil. Para promover o investimento para o desenvolvimento da pesca artesanal, que tem na atividade pesqueira a fonte de alimentos e renda. E para desenvolver a aquicultura. O Brasil tem na aquicultura a possiblidade de transformar o país em um grande produtor mundial de pescados”, diz.

“Respeito a opinião da Kátia [Abreu], mas a gente diverge. Há lideranças [do setor] que têm visão de [a Pesca] permanecer no Ministério da Agricultura. Na minha opinião e do GT, a sanidade e biossegurança têm que ficar no MAPA. Acho que falta um alinhamento e estamos caminhando para isso”, afirmou.

Ederson Pinto da Silva, que integra o grupo técnico da transição, também defende a recriação da pasta. “A maioria das organizações do setor é favorável à recriação do ministério. O que está comprovado é que a estrutura no Ministério da Agricultura acabou não dando conta de atender questões relacionadas à pesca”, diz.

“O que a gente tem encontrado é um derretimento do orçamento desde a extinção do ministério [em 2015]. Por essa incapacidade institucional de executar políticas públicas, a Pesca no Ministério da Agricultura virou uma nanoestrutura que só trata de processo administrativo”, disse.

O modelo inicial da estrutura do futuro ministério prevê ao menos quatro secretarias: da pesca industrial, da pesca artesanal, da aquicultura e de ordenamento. Os integrantes do grupo técnico também pretendem propor a criação de um instituto nacional de pesquisa e estatística para basear a elaboração de políticas públicas. Esse desenho ainda é preliminar e pode sofrer alterações até a entrega do relatório final, em 11 de dezembro.

“O setor da pesca está hoje no escuro. Não dá para dizer o total de pescadores, o volume de produção, de espécies, a sanidade dos estoques pesqueiros. Essas são informações básicas para elaborar políticas públicas. A ideia é que o instituto seja uma mola propulsora de pesquisa”, explica Ederson Pinto da Silva.

De acordo com ele, o grupo ainda não bateu o martelo com relação ao volume de recurso necessário para o eventual futuro ministério realizar suas atividades, mas estima que sejam necessários ao menos R$ 190 milhões para dar início à elaboração de políticas públicas direcionadas ao setor, dez vezes o valor disponível para este ano.