Inquérito da Abin Paralela completa um ano parado na PGR
Alexandre de Moraes deu 15 dias em junho do ano passado para Paulo Gonet decidir se denunciaria os indiciados pela PF

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, mantém parado há um ano em sua mesa o inquérito da Abin Paralela, que investiga o uso ilegal da estrutura da agência para monitorar clandestinamente autoridades.
A Polícia Federal finalizou a investigação em 17 de junho do ano passado e concluiu que 36 pessoas cometeram crimes ao usar ilegalmente ferramentas de monitoramento na Abin (Agência Brasileira de Inteligência).
Foram indiciados, entre outros investigados, o ex-chefe da Abin Alexandre Ramagem, o ex-vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ) e o atual diretor-geral da agência Luiz Fernando Corrêa.
Após a conclusão da investigação, o ministro Alexandre de Moraes, responsável pelo inquérito, retirou o sigilo e encaminhou o processo para Gonet decidir, em 15 dias, como prevê a legislação, se ofereceria denúncia, arquivaria ou solicitaria mais diligências.
O prazo para Gonet definir se denuncia ou não os indiciados completou nesta quarta-feira (17) um ano sem que haja definição do procurador-geral.
Segundo interlocutores, servidores concursados da Abin estiveram na PGR nos últimos dias atrás de uma previsão, no entanto, não tiveram respostas. A CNN apurou que não há mesmo expectativa de quando Gonet decidirá sobre o processo.
A CNN mostrou no início do ano que o procurador-geral decidiria nos primeiros meses o destino de ao menos três investigações criminais: caso das joias sauditas, Abin Paralela e processo contra o ex-ministro Silvio Almeida, dos Direitos Humanos.
A concentração do envio desses pareceres ao STF (Supremo Tribunal Federal) no primeiro semestre busca evitar que denúncias sejam apresentadas no período eleitoral. O objetivo, com isso, é se blindar de eventuais acusações de interferência nas eleições. Somente o caso da Abin Paralela permanece sem definição.
A União dos Profissionais de Inteligência de Estado da Abin informou, em nota, que a demora compromete o funcionamento da agência e sua capacidade de planejamento.
“O órgão continua arcando com a remuneração integral de servidores afastados, sem poder contar com sua força de trabalho, em um contexto já marcado por grave déficit de pessoal”, diz a entidade.
“Ao mesmo tempo, gestores indiciados por obstrução de justiça seguem exercendo funções de comando e mantendo acesso a informações sensíveis de Estado, inclusive com potencial influência sobre servidores e dirigentes que atuaram como testemunhas nos procedimentos investigativos”, afirma a nota.
“Os acusados, a Abin e o próprio país merecem uma solução célere, definitiva e transparente para a questão, qualquer que seja seu desfecho”, conclui a entidade.
Tendência de denúncia
A avaliação de auxiliares do procurador-geral é a de que o relatório da PF é consistente e robusto, narrando o esquema com riqueza de detalhes e farto material probatório.
Segundo os relatos, Gonet já deixou clara sua posição sobre a Abin Paralela em fevereiro do ano passado, quando ofereceu denúncia na investigação sobre a tentativa de golpe de Estado.
Na ocasião, o procurador-geral disse que a estrutura estatal de inteligência foi utilizada indevidamente pela organização criminosa para promover ataques virtuais, produzir desinformação contra opositores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e incitar animosidade social.
“As ações ilícitas realizadas pela denominada ‘Abin Paralela’, de forma indubitável, consistem em atos executórios relevantes do plano de crimes contra as instituições democráticas”, escreveu Gonet.


