Itamaraty ajudou lobista em mudança de Lulinha para Madri

Ministério admite ter colocado setor educacional de embaixada para dar apoio a Roberta Luchsinger, mas nega irregularidades

Helena Prestes, da CNN Brasil, Brasília
Compartilhar matéria

O Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, confirmou ter colocado a embaixada do Brasil na Espanha à disposição para ajudar a lobista Roberta Luchsinger na mudança de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, para Madri.

De acordo com a pasta, o ex-embaixador do Brasil no país Orlando Leite Ribeiro conheceu Luchsinger e Renata Abreu Moreira, esposa de Lulinha, durante um evento de promoção comercial na representação brasileira, em setembro de 2024. O filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vive na capital da Espanha desde o ano passado.

“Roberta Luchsinger solicitou à Embaixada uma lista de escolas na capital espanhola. O setor educacional da Embaixada prestou-lhe apoio, tendo em vista o fato de dispor dos contatos das escolas locais. A prestação de informações e o compartilhamento de contatos locais com cidadãos brasileiros constituem parte inerente do trabalho cotidiano das embaixadas”, afirma o Itamaraty.

Orlando Leite Ribeiro negou, em nota, o uso irregular de recursos públicos no apoio fornecido. "Ao longo de minha carreira, ajudei, dentro das atribuições do serviço exterior, brasileiros das mais diversas origens e atividades — artistas, esportistas, empresários e cidadãos comuns. Fiz isso sem distinção política ou pessoal e continuarei entendendo que essa é uma das responsabilidades de quem representa o Brasil no exterior", disse.

Mensagens obtidas pela PF (Polícia Federal) no celular da lobista Roberta Luchsinger divulgadas pelo site Metrópoles indicam que a lobista e Orlando Leite Ribeiro mantiveram contato durante todo o primeiro semestre do ano passado.

Luchsinger teria sido responsável pelas tratativas da instalação de Lulinha e de sua família na cidade. O apoio envolvia a disponibilização de pessoas e de um veículo da embaixada.

Em janeiro de 2025, o então embaixador disse estar “inteiramente às ordens” em conversa sobre escolas disponíveis para os filhos de Lulinha e os de Roberta em Madri. Ele menciona que “uma funcionária da embaixada” pode acompanhar agendas sobre o tema.

Nas mensagens, Orlando Leite Ribeiro também sugeriu uma funcionária da embaixada para acompanhar Roberta e a esposa de Lulinha, Renata Abreu Moreira, em uma visita a uma universidade. Em junho de 2025, ele mencionou o possível uso de uma van da embaixada.

Diálogos de Roberta com um contato identificado como “Tiago Motorista Embaixador” também indicaram mais uma forma de apoio à lobista na organização da mudança.

Em nota, Orlando Leite Ribeiro afirmou que o motorista oficial não foi utilizado durante enquanto o embaixador esteve no cargo. Segundo ele, ao deixar a embaixada, o motorista pediu demissão e foi "contratado pelo casal para serviços particulares e pontuais".

O então embaixador brasileiro em Madri foi realocado para a Tchéquia, em julho de 2025. Em uma das mensagens, Roberta lamentou a transferência.

“Vamos pedir p Orlandinho”, diz Renata ao comentar a visita à Universidade de Salamanca com a participação de uma “pessoa da embaixada”, que atuaria como intérprete. “Faremos isso. Que triste não ter mais ele lá”, diz Roberta, em referência à transferência do embaixador, que já era conhecida.

Ainda segundo o Metrópoles, o embaixador intermediou uma reunião de Roberta com o reitor da Universidade de Salamanca, o cientista da computação Juan Manuel Corchado Rodríguez. Orlando Leite Ribeiro, no entanto, afirma que o encontro foi com o então diretor do Centro de Estudos Brasileiros, José Manuel Santos.

No mês seguinte, Orlando Leite Ribeiro agradece um presente recebido de Roberta e Renata: “Queridas Roberta e Renata, agradeço, de coração, a linda gravata! Não precisava mesmo! Está sendo um prazer ajudá-las no processo de instalação em Madri. Continuem contando comigo para o que for preciso. Beijos”, disse.

Em outra mensagem, em abril, o embaixador diz permanecer a disposição: “Saiba que pode contar comigo para o que precisar nessa transição para Madri”.

As tratativas também envolveriam a mudança da própria Roberta, o que não ocorreu.

Roberta teve o celular apreendido em dezembro do ano passado, após operação da PF sobre fraudes no INSS. Ela e Lulinha são alvos de três inquéritos sobre suposto tráfico de influência no governo federal, abertos pela PF por autorização do STF (Supremo Tribunal Federal).

Leia a íntegra do posicionamento enviado pelo Itamaraty:

“O então Embaixador do Brasil em Madri conheceu as senhoras Roberta Luchsinger e Renata Abreu Moreira por ocasião de um evento de promoção comercial realizado na Embaixada, em setembro de 2024. Posteriormente, Roberta Luchsinger solicitou à Embaixada uma lista de escolas na capital espanhola. O setor educacional da Embaixada prestou-lhe apoio, tendo em vista o fato de dispor dos contatos das escolas locais.

A prestação de informações e o compartilhamento de contatos locais com cidadãos brasileiros constituem parte inerente do trabalho cotidiano das Embaixadas. Reitera-se que não houve utilização de veículo da Embaixada no caso suscitado pela matéria”.

Leia a íntegra da manifestação do embaixador Orlando Leite Ribeiro:

"Como funcionário de Estado, sirvo a todos os governos com a mesma lealdade, dedicação e profissionalismo. Uma das atribuições de uma embaixada é prestar, dentro de suas competências e possibilidades, apoio aos cidadãos brasileiros no exterior. Nunca perguntei a quem buscou auxílio sua filiação partidária, posição política ou antecedentes. Assim procedi ao longo de meus 32 anos de carreira diplomática, sempre pautado pela ética, pela moralidade e pela estrita correção no exercício da função pública.

A matéria publicada pelo Metrópoles, contudo, contém imprecisões e apresenta fatos corriqueiros de assistência a nacionais de maneira a sugerir uma mobilização indevida da estrutura da Embaixada, o que não ocorreu.

Cabe, portanto, esclarecer objetivamente os fatos. O motorista oficial jamais foi utilizado pelo casal enquanto exerci a função de embaixador em Madri. Após minha saída do posto, ele pediu demissão da Embaixada e, posteriormente, informou-me que havia sido contratado pelo casal para serviços particulares e pontuais. Não tive qualquer participação nessa contratação e jamais estive na residência deles.

Também não houve funcionário, carro ou motorista da Embaixada acompanhando a visita a Salamanca. O encontro realizado naquela cidade foi com o diretor do Centro de Estudos Brasileiros, e não com o reitor da Universidade de Salamanca, como afirma a matéria.

Da mesma forma, nenhum veículo ou motorista da Embaixada foi utilizado para transportar malas, móveis ou quaisquer bens particulares. A van mencionada em uma conversa jamais foi utilizada, como o próprio Itamaraty confirmou à coluna.

O apoio efetivamente prestado pela Embaixada restringiu-se, nesse aspecto, à atuação normal de seu setor educacional. Em dois dias de visitas previamente organizadas a escolas, uma funcionária desse setor acompanhou as brasileiras, utilizando o carro de serviço. Em outras visitas a colégios, realizadas por conta própria, não houve participação de funcionário, veículo ou motorista da Embaixada.

Esses esclarecimentos já haviam sido prestados à coluna antes da publicação. Lamento, portanto, que a matéria tenha optado por apresentar os fatos sob a expressão “mobilizando aparato do Itamaraty”, formulação que pode transmitir ao leitor a impressão de uso irregular de recursos públicos. Os fatos não sustentam essa insinuação.

Ao longo de minha carreira, ajudei, dentro das atribuições do serviço exterior, brasileiros das mais diversas origens e atividades — artistas, esportistas, empresários e cidadãos comuns. Fiz isso sem distinção política ou pessoal e continuarei entendendo que essa é uma das responsabilidades de quem representa o Brasil no exterior."