Líder do PT aciona AGU contra Flávio Bolsonaro por vídeo editado de Lula

No recorte descontextualizado, o presidente surge dizendo que "pobre não nasceu para estudar, pobre nasceu para trabalhar", enquanto, na verdade, ele destacava a necessidade de políticas públicas que facilitem o acesso às universidades

Gabriela Piva, da CNN Brasil, São Paulo
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O líder do PT na Câmara dos Deputados, Lindbergh Farias (RJ), acionou a AGU (Advocacia-Geral da União) contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A medida ocorreu após o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) publicar um vídeo editado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas redes sociais.

No recorte descontextualizado, Lula aparece dizendo que “pobre não nasceu para estudar, pobre nasceu para trabalhar”. O senador critica a fala, diz que "Lula não está batendo bem da cabeça" e que "o pobre quer que o filho dele prospere".

"A edição do vídeo suprimiu trechos, reorganizou frases e reconstruiu artificialmente o discurso, de modo a atribuir ao presidente a posição diametralmente oposta àquela que sustenta, técnica típica de desinformação audiovisual", disse Lindbergh em trecho do documento enviado à AGU.

A fala completa do chefe do Executivo ocorreu em evento na Casa da Moeda, durante cerimônia de 90 anos da criação do salário-mínimo. Na ocasião, Lula comentava da necessidade de políticas públicas que facilitem o acesso às universidades.

Para explicar a ideia, o chefe do Executivo relembrou a demora para inaugurar a primeira universidade brasileira, em 1920, com a Universidade Federal do Rio de Janeiro.

"Precisamos aprender a valorizar as coisas que fazemos no Brasil. Precisamos valorizar, porque esse país nunca foi cuidado decentemente. Eu digo sempre, é importante vocês decorarem: a primeira universidade feita nesse país foi em 1920. O Brasil foi descoberto em 1500. A República Dominicana foi descoberta em 1498, pelo Colombo – 32 anos depois de o Colombo chegar lá, a República Dominicana já tinha universidade", disse Lula na ocasião.

E completou: "Aqui demorou 420 anos para fazer a primeira universidade. Por que será que acontecia isso? É porque pobre não precisa estudar, nasceram só para trabalhar. Estudar é [para] filho de rico, que pode fazer estudo na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Espanha, em qualquer lugar. Mas, aqui, não".

Depois, Lula acrescentou: "Aqui nós temos que ser cortador de cana, 'fazedor' de prédio. As pessoas adoravam dizer: 'Ah, como é bom nordestino, ele sabe trabalhar na construção civil'. A gente não quer ser só pedreiro, estudante de pedreiro. Se bem que é uma profissão muito valiosa, mas a gente também quer ser engenheiro, a gente quer ser doutor, a gente quer ser médico, a gente quer ser professor. E o que precisa fazer? O que precisa fazer é dar oportunidade. Não é o governo que faz. A gente abre a porta para as pessoas passarem. A gente abre as portas. E é por isso que a gente está vendo hoje muitos meninos e meninas negras sendo doutor".

No ofício enviado à AGU, Lindbergh Farias ainda criticou a menção de Flávio sobre uma suposta relação entre Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula, com Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social)", investigado sob suspeita de envolvimento em esquema de fraudes da autarquia.

Flávio disse que Fábio Luís era suspeito de receber R$ 300 mil por mês de propina do "Careca do INSS". O filho do presidente não é investigado pela PF (Polícia Federal), mas a corporação apura citações ao nome de Fábio Luís nos inquéritos para entender se existe, ou não, elementos suficientes para abertura de uma investigação formal.

"A publicação foi acompanhada de comentários adicionais que extrapolam a crítica política legítima e ingressam no campo da imputação de ilícitos penais, ampliando o alcance e a gravidade da mensagem falsa disseminada", afirma Lindbergh em trecho do documento.

O deputado do PT também argumenta que a descontextualização do vídeo de Lula funciona como "um modus operandi reiterado de desinformação política".

Por fim, Lindbergh pede para AGU:

  • Investigação formal na PNDD (Procuradoria Nacional da União de Defesa da Democracia);
  • Ação preventiva na AGU;
  • Encaminhamento ao TSE;
  • Encaminhamento ao STF (Supremo Tribunal Federal);
  • Reconhecimento de que exclusão não anula ilegalidade;
  • Comunicação a órgãos competentes, como PGR (Procuradoria-Geral da República).

A CNN Brasil tenta contato com a assessoria do senador Flávio Bolsonaro para um posicionamento do parlamentar e aguarda retorno.