‘Longe da realidade’, diz ex-presidente do Ibama sobre discurso de Bolsonaro

“Nós estamos com números inaceitáveis tanto no desmatamento quanto nas questões dos incêndios florestais esse ano”, afirmou Suely Araújo

Da CNN, em São Paulo

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Em entrevista à CNN nesta terça-feira (22), Suely Araújo, ex-presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e especialista em políticas públicas do Observatório do Clima, afirmou que o quadro mostrado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sobre a situação do Pantanal e da Amazônia, em seu discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), “está longe da realidade”.

No discurso, Bolsonaro afirmou que a floresta amazônica é úmida e não permite propagação do fogo. “Os incêndios acontecem praticamente nos mesmos lugares, no entorno leste da floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas”.

De acordo com a especialista, a realidade não é esta. “A faixa dos incêndios mais intensos acompanha a faixa do próprio desmatamento. Então, a grande parte das áreas queimadas são áreas de desmatamento recente”, explica. 

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Suely Araújo, especialista em políticas públicas do Observatório do Clima e ex-p
Suely Araújo, especialista em políticas públicas do Observatório do Clima e ex-presidente do Ibama (21.set.2020)
Foto: CNN Brasil

E acrescentou: “Ao contrário do que ele falou, – como se o fogo fosse questão cultural das populações indígenas e das pequenas comunidades–, os dados técnicos, tanto do governo quanto da sociedade civil, mostram que, na verdade, o fogo tem ocorrido para limpeza do terreno que foi desmatado, e não pelas populações tradicionais”.

Diante disso, avalia, “o quadro mostrado pelo presidente está longe da realidade”. “Nós realmente estamos com números inaceitáveis tanto no desmatamento quanto nas questões dos incêndios florestais este ano”, afirmou.

Bolsonaro também disse que o país é “vítima de campanha brutal de desinformação” sobre o assunto. Ele declarou que, apesar da crise mundial, a produção rural não parou no Brasil.

“Nosso agronegócio continua pujante e, acima de tudo, possuindo e respeitando a melhor legislação ambiental do planeta. Mesmo assim, somos vítimas de uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal”, disse ele.

Para a ex-presidente do Ibama, o Pantanal vive hoje um ano mais seco que o normal, provavelmente devido às mudanças climáticas, mas as queimadas tanto na região quanto na Amazônia são causadas pela ação humana.

“Alguém provocou o fogo, que se propagou pelo fato de estarmos em uma seca mais [intensa] que o normal”, pontuou.

(Edição: Sinara Peixoto)

 

 

 

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