Luchsinger diz que Lula precisa perguntar a Lulinha com o que ele trabalha

Empresária afirmou em entrevista exclusiva à CNN que o presidente e candidato à reeleição pelo PT "tem que conversar melhor com o filho"

Débora Bergamasco e Iuri Pitta, da CNN Brasil, Leticia Moreira, colaboração para a CNN Brasil, São Paulo

Em entrevista exclusiva à CNN Brasil, a empresária Roberta Luchsinger disse neste sábado (17) que o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve perguntar ao seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, com o que ele trabalha.

Roberta é investigada no inquérito que apura sua relação com o empresário Antônio Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS", e com o filho do petista.

"Com o que o filho dele trabalha? Ele já foi perguntar? Pergunta isso para o presidente. Ele sabe responder? Ele não sabe. Então, se ele quer emitir opinião sobre a minha vida, a minha moral e a minha conduta, ele tem que começar pela casa dele", afirmou a empresária.

Luchsinger ainda afirmou à CNN que Lula "tem que conversar melhor com o filho".

"Acho que o presidente tem que conversar melhor com o filho dele. Acho que o presidente tira muita conclusão da vida alheia, mas da vida dele, do entorno dele, ele resguarda, ele protege", prosseguiu.

A empresária também comparou a situação dela com a de Lulinha e argumentou ter precisado fazer "inúmeros" pedidos ao STF (Supremo Tribunal Federal) para prestar depoimento à PF (Polícia Federal), porque ela não tem "pai presidente".

"Então, ele [Lula] fala: 'A polícia vai investigar a vida do meu filho, ele está lá pronto para colaborar'. Vem aqui, pega um avião, estou aqui para colaborar. Eu, dentro dos meus inquéritos, fiz inúmeros requerimentos ao ministro, que eu queria falar, que eu queria prestar depoimento. Porque eu só tenho meu nome. Eu não tenho pai presidente, eu não tenho amigo de pai, eu não tenho nada. Eu tenho o meu nome. E o que estão fazendo comigo é destruindo o meu nome, destruindo a minha vida inteira", declarou.

Críticas de Lula

Como mostrou a CNN, Lula se referiu a Luchsinger como “pilantra” em mais de uma ocasião. No início de outubro, o atual presidente a comparou ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do banco Master, e afirmou que a lobista “enganou muita gente”.

“Pelo o que eu sei, ela é uma pilantra muito grande. Ela muito se assemelha ao Vorcaro, porque o Vorcaro conseguiu enganar um monte de gente e ela também parece que enganou um monte de gente. Deve ser o Vorcaro feminino, porque ela conseguiu passar por muita gente, conversar com muita gente”, disse em entrevista ao podcast Flow.

O chefe do Planalto também disse mais de uma vez que desconhece a empresária. Na entrevista à TV Globo em agosto, o petista afirmou: "Não conheço essa moça, nunca vi essa moça na minha vida, nunca conversei com essa moça. Ela nunca esteve próxima de mim."

Após a fala, repercutiram ao menos 12 fotos em que Luchsinger aparece ao lado de Lula.

Em nota, a campanha petista afirmou à época que a existência das fotos não significa uma "relação pessoal" entre o presidente e a empresária. A equipe de Lula também declarou que o chefe do Executivo, por ser uma figura pública, costuma ser abordado para tirar fotografias.

Investigação

A PF investiga Lulinha em três inquéritos. As apurações miram o suposto tráfico de influência e corrupção em prol de empresas junto ao governo federal.

As investigações foram autorizadas pelo STF a partir do fim de julho. O ministro da Corte André Mendonça é o relator de duas delas e o ministro Flávio Dino, da terceira.

Lulinha entrou na mira das investigações após revelação de sua proximidade com Roberta Luchsinger, que foi alvo da Operação Sem Desconto, que apura fraudes em benefícios do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), em dezembro do ano passado.

A empresária teve o celular apreendido pela PF. Segundo relatórios da corporação, Luchsinger teria trabalhado para o "Careca do INSS", sendo uma possível operadora financeira e política do esquema de fraudes.

Roberta foi interrogada pela PF em maio deste ano em uma tentativa de esclarecer sua conexão com Antunes e Lulinha. Ela admitiu ter apresentado o filho do presidente ao lobista e, por meio de sua defesa, repetiu a tese de que a viagem a Portugal se tratava de uma busca por negócios.

Em nota, a equipe de comunicação do presidente Lula afirma que ele "desconhece inteiramente os fatos relatados pela senhora Roberta Luchsinger". "Como já esclareceu em outras ocasiões, jamais manteve qualquer interlocução com ela, nunca recebeu suas demandas e tampouco tem conhecimendo de supostas tratativas como as mencionadas. Importante ressaltar que não existe nenhum contrato do governo federal com a Roberta", continua.

"Causa estranheza que essas declarações sejam lançadas justamente às vésperas do segundo turno da eleição. O Brasil já assistiu, em outros processos eleitorais, à divulgação de denúncias sem comprovação, usadas como instrumento de manipulação da opinião pública. A repetição desse expediente representa uma tentativa irresponsável de tumultuar o processo democrático e interferir na livre escolha dos eleitores."

Em nota enviada à CNN, a defesa de Fábio Luís, o Lulinha, também negou que ele tenha cometido qualquer irregularidade e que sua relação com qualquer ministro sempre foi de natureza pessoal. Ele afirmou ainda que as acusações de Roberta “são incompatíveis com seu depoimento às autoridades” e que “comprovará sua inocência nos autos”.

Leia a íntegra da nota abaixo:

Fábio Luís Lula da Silva não cometeu nenhuma irregularidade e teve seus dados bancários, fiscais e telemáticos abertos, colocando-se à disposição da Justiça para colaborar com as investigações desde o primeiro momento. Sua relação com políticos de qualquer natureza, inclusive os que eventualmente se tornaram ministros de Estado, é de natureza pessoal e resultante de seu convívio desde a infância, sem qualquer troca de viés ilegal ou não republicano.

As recentes insinuações públicas de Roberta Luchsinger são incompatíveis com seu depoimento às autoridades. Isso retrata, mais do que qualquer coisa, sua contrariedade tanto em relação às declarações do Presidente da República sobre seu caráter quanto, de forma compreensível, em relação ao incessante ataque resultante de vazamentos criminosos que têm o evidente objetivo de controlar a pauta da imprensa em período eleitoral.

Quanto às investigações abertas, tudo até o momento indica manipulação, direcionamento e pescaria probatória: desde a quebra de sigilo telefônico de Roberta Luchsinger na investigação do INSS, que buscou dados sobre Fábio Luís de anos antes de Roberta sequer conhecer Antônio Camilo, até os reiterados vazamentos ilegais.

Assim como fez em diversas acusações anteriores, inclusive na operação do INSS em que não foi nem sequer indiciado, Fábio Luís comprovará sua inocência nos autos, após ter contato com dados e provas concretas.