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    Marcos Do Val contradiz Bolsonaro e afirma à PF que trama golpista foi tratada em reunião no Alvorada

    Senador prestou depoimento na quarta-feira (19) após apresentar controversas versões sobre o caso

    Teo Curyda CNN

    Brasília

    O senador Marcos do Val (Pode-ES) prestou depoimento à Polícia Federal (PF) na quarta-feira (19) e contradisse a versão contada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) aos investigadores na semana passada. Do Val afirmou que a trama golpista para gravar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, foi tratada na reunião que aconteceu em 8 de dezembro no Palácio da Alvorada. A CNN teve acesso ao conteúdo da oitiva.

    O ex-presidente relatou em seu depoimento que na reunião não foi tratado sobre nenhum plano para gravar o ministro ou a prática de algum ato antidemocrático. Bolsonaro contou aos investigadores da PF que “nada foi falado sobre o ministro Alexandre de Moraes”.

    Nesta quarta-feira, no entanto, o senador Marcos Do Val reafirmou aos investigadores que a trama golpista foi apresentada na reunião de dezembro. O senador relatou que o tema foi introduzido na conversa por Daniel Silveira, que propôs a Do Val, diante de Bolsonaro, gravar Alexandre de Moraes com o objetivo de invalidar as eleições.

    O senador afirmou que o então presidente apenas ouviu a proposta e não se manifestou. A defesa de Jair Bolsonaro foi procurada pela reportagem para se pronunciar sobre a contradição nos depoimentos, mas ainda não se manifestou.

    Do Val admitiu aos investigadores ter feito acusações infundadas contra Jair Bolsonaro atribuindo ao ex-presidente participação na trama golpista devido à pressão que sofria de parte do eleitorado e às ameaças que sua filha passou a sofrer (leia mais abaixo).

    Este novo depoimento prestado por Do Val acontece após as diferentes e controversas versões apresentadas pelo senador ao longo dos últimos meses. Esta é a segunda vez que ele é ouvido pela PF, agora na condição de investigado no inquérito. Além dele, são investigados Jair Bolsonaro e Daniel Silveira.

    A defesa de Do Val adotou ao longo das últimas semanas a estratégia de reverter a imagem de insanidade e de sandice atribuída ao senador desde que o caso foi revelado em fevereiro pela revista Veja por conta das diferentes e controversas versões apresentadas por ele.

    Abordagem de Silveira e encontro com Moraes

    Do Val relatou aos investigadores que a reunião realizada na residência oficial da Presidência da República no dia 8 de dezembro do ano passado foi idealizada e marcada pelo ex-deputado federal Daniel Silveira. A mesma versão foi contada pelo ex-presidente na semana passada. O senador afirma que foi procurado insistentemente por Silveira dois dias antes do encontro no Alvorada.

    Às vésperas da reunião, de acordo com o senador, Silveira não quis adiantar o assunto que seria tratado com Do Val, apenas o afirmou que se tratava de algo importante. Do Val explicou aos investigadores que pensou tratar-se de algum assunto referente às eleições, isso porque Silveira utilizava as expressões “salvar o Brasil e ser o herói nacional”.

    Neste encontro, que aconteceu dias antes da reunião no Alvorada, Do Val estava com Silveira no Senado Federal. O ex-deputado estava ao telefone com Jair Bolsonaro e passou o celular para que o então presidente conversasse com Do Val. O senador relatou à PF que Bolsonaro o convidou para a reunião e perguntou se Do Val poderia ir. O senador contou aos investigadores que imaginava que Bolsonaro trataria com ele de uma possível mudança do Podemos para o Partido Liberal, do qual o ex-presidente faz parte.

    Após a conversa que aconteceu presencialmente com Silveira e do breve telefonema com Bolsonaro, Do Val disse ter enviado uma mensagem de texto ao ministro Alexandre de Moraes. No dia seguinte, relatou o senador, os dois se encontraram no STF. Na rápida conversa, contou ao ministro das conversas com Silveira e com Bolsonaro e da reunião que aconteceria dali a alguns dias. Afirmou ao ministro que os assuntos do ex-deputado e do então presidente pareciam desconexos.

    Do Val disse aos investigadores ter procurado Moraes em razão do contexto do “momento político radical e extremista” e da investigação que mirava Silveira por divulgação de notícias fraudulentas no STF e que é comandada pelo ministro. Queria ouvir de Moraes se ele o aconselhava a ir ou não na reunião com o então presidente e o ex-deputado. Segundo Do Val, o ministro respondeu que “informação é sempre importante”. O senador topou ir.

    A reunião: proposta de Silveira e Bolsonaro surpreso

    Do Val contou aos investigadores que a reunião do dia 8 de dezembro começou com ele falando sobre assuntos políticos e, especialmente, sua eventual filiação ao PL. De acordo com o senador, Daniel Silveira interrompeu a conversa “para tratar sobre a possível gravação do ministro Alexandre [de Moraes] com a finalidade de invalidar as eleições”. Do Val afirmou que a proposta apresentada pelo ex-deputado foi feita na presença de Bolsonaro. Estavam apenas os três na reunião.

    A versão de Do Val contradiz a de Bolsonaro. Na semana passada, o ex-presidente negou que o nome de Moraes tenha sido mencionado na reunião de dezembro. Segundo Bolsonaro, os três não trataram de plano para gravar o ministro ou a prática de algum ato antidemocrático.

    O próprio depoimento prestado por Bolsonaro na última semana traz a contradição. Aos investigadores, o ex-presidente disse que Silveira, ao solicitar a reunião, adiantou que Do Val trataria “sobre algum assunto referente ao ministro” Alexandres de Moraes na reunião. Na sequência, Bolsonaro afirmou que nada foi falado sobre o ministro.

    O senador, que em entrevistas concedidas ao longo dos últimos meses a respeito do caso sugeriu que Bolsonaro tinha encorajado a proposta de Silveira, afirmou novamente à PF que o então presidente “apenas ouviu a proposta e não se manifestou”. Do Val confirmou aos investigadores que Daniel Silveira “tinha a intenção de gravar e sabotar o ministro Alexandre”.

    “Daniel Silveira falava ao declarante [Marcos Do Val] que ele seria o herói brasileiro. Ficou claro que Daniel Silveira, na reunião, estava tentando convencer tanto o declarante quanto o ex-presidente para aderirem a essa ‘missão’. Que, pela expressão de surpresa do ex-presidente, acredita que apenas Daniel Silveira sabia do que seria tratado na reunião. Que afirma ter tido impressão de que o declarante [Do Val] e o ex-presidente [Bolsonaro] foram conduzidos até a reunião por Daniel Silveira por razões distintas”, diz o depoimento.

    Do Val explicou aos investigadores que acredita ter sido procurado por Daniel Silveira porque certa vez, durante uma audiência pública realizada no Senado, comunicou aos presentes que teria de deixar a sessão para se encontrar com o ministro Alexandre de Moraes. O senador diz crer que Silveira ouviu sua fala e pensou que Do Val e Moraes tivessem relação de proximidade.

    Ao fim da reunião no Alvorada, que durou cerca de 20 minutos, o senador Marcos Do Val disse, segundo relatou aos investigadores, que precisaria de alguns dias para responder se aceitar fazer parte da proposta golpista apresentada por Daniel Silveira naquele dia. Segundo o senador, a ideia era reportar a Moraes para que fossem tomadas as devidas providências. Do Val disse ainda que Bolsonaro aguardou uma resposta com relação a sua possível ida ao PL, do qual o ex-mandatário é presidente de honra.

    ’Proposta absurda’

    Do Val contou aos investigadores da PF nesta quarta-feira que logo após deixar o Palácio da Alvorada recebeu mensagens de Daniel Silveira pelo celular que dizia “já possuir equipamentos de escuta e transmissão e um carro para captar áudio”, em referência à gravação ilegal do ministro Alexandre de Moraes. Segundo Do Val, Silveira não explicou quem forneceria esses equipamentos de inteligência.

    O ex-deputado teria dito ao senador, de acordo com o depoimento prestado por Do Val, que a trama golpista ficaria restrita a eles dois e a Bolsonaro. E que só iria ficar com mais cinco após a missão ser concluída, fazendo referência a “cinco estrelas”. O senador contou aos investigadores que não sabe o que Silveira quis dizer com aquela expressão e que não quis perguntar o significado para não dar continuidade ao assunto. Depois dessa troca de mensagens, Do Val acionou Moraes novamente.

    O senador disse ter reportado ao ministro o que havia sido proposto por Silveira na presença de Bolsonaro no Alvorada e que achou a “proposta esdrúxula, imoral e até criminal”. Os dois combinaram de se encontrar no STF. Na conversa, que aconteceu na semana seguinte, disse ter detalhado a trama golpista e afirmou aos investigadores que Alexandre de Moraes, após ouvir a proposta, a classificou como sendo “absurda”.

    Depois do encontro com o ministro, Do Val disse ter enviado uma mensagem a Daniel Silveira dizendo que não aceitaria a “missão” porque isso prejudicaria suas relações com a inteligência americana. O senador explicou aos investigadores que usou essa justificativa para “afastar as novas tentativas de contato” de Silveira.

    A PF questionou Do Val sobre a troca de mensagens dele e de Bolsonaro após as conversas do senador com o ministro do STF. Bolsonaro escreveu “coisa de maluco” após receber de Do Val uma mensagem com a captura de tela da conversa que ele teve com Moraes.

    Os investigadores queriam saber o que o senador entendia que significava aquela mensagem de Bolsonaro. Do Val disse que o então presidente, ao dizer “coisa de maluco”, se referia à “missão” de Silveira como algo absurdo. Por isso, explicou à PF, concordou e respondeu “exatamente” a Bolsonaro.

    Acusações infundadas

    Do Val também explicou aos investigadores que aceitou conceder entrevista à Veja, que revelou o caso, para ajudar um ex-assessor de seu gabinete que passou a trabalhar na revista. O senador ressaltou à PF que, à época da entrevista, estava sofrendo “enorme pressão de eleitores” que, segundo ele, acreditavam que Do Val não apoiaria Rogério Marinho (PL-RN), aliado de Bolsonaro, na disputa pela presidência do Senado.

    “Em decorrência disso, em determinado momento, a sua filha recebeu ameaças de naturezas diversas (por telefonema, mensagens de texto, e-mail). Que as ameaças sofridas por sua filha foram o ‘gatilho’ que levaram o declarante [Marcos Do Val] a prestar as primeiras declarações à revista Veja, nas quais afirmou que o ex-presidente [Bolsonaro] estaria envolvido em uma trama golpista”, diz o depoimento.

    Do Val admitiu aos investigadores que fez “acusações infundadas, em um momento de raiva” contra Jair Bolsonaro e que resolveu desdizê-las nas diversas versões que apresentou em entrevistas a jornalistas nos meses seguintes. “No entanto, reafirma que a versão válida consta no Termo de Depoimento n° 434773/2023, prestado no dia 02/02/2023 à Polícia Federal, segundo a qual o ex-presidente não teria envolvimento com a pretensão de Daniel”, diz o depoimento.