Maurício Pestana: Cargo não é cota

Existem promessas de mais diversidade neste governo que começa a se instalar em Brasília

Maurício Pestana, da CNN, São Paulo
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O Brasil é um país suigeneris não só no nosso continente, mas também na geopolítica mundial, é o maior país em extensão territorial e populacional da América latina, é gigante também na sua biodiversidade e tendo a maior reserva de mata virgem do mundo.

No aspecto da composição étnica outra relevância é a diversidade da sua população, mais da metade dela é formada por afrodescendentes, nos colocando como a segunda maior população negra fora da África, perdendo apenas para a Nigéria, formando contingente de mais de 120 milhões de pessoas pretas.

A forma com que as elites dominantes vêm tratando essa maioria da população ao longo dos séculos nos quesitos exploração, dominação ressarcimento e políticas afirmativas como forma de reparação da enorme contribuição que essa população deu ao país não tem sido satisfatória, muito menos inclusiva.

 

Pelo contrário, o sistema racista que se instalou por aqui após a abolição estruturou um racismo que tem distanciado cada vez mais negros e negras não só das esferas de Poder, mas também do próprio desenvolvimento econômico e social. Isso faz com que o país se dívida em duas castas: elite branca, que é classe dominante, e do resto da população “preta ou quase toda preta” como diz a música Haiti de Gil e Caetano.

Quebrar este pacto cruel que assombra nosso país desde sempre não é uma tarefa fácil, mas tem ganho cada vez mais aliados em várias áreas do saber e desenvolvimento humano, são leis, ações, atitudes em todos âmbitos e até mesmo simbólicas que demonstram boa vontade de fazermos uma reparação com os descendentes daqueles que verdadeiramente vem construindo este país.

Neste contexto, até uma atitude que deveria ser tratada como normal, corriqueira soa como algo extraordinário, excepcional, fora do comum quando na realidade é algo que deveria ser natural ou melhor naturalizado.

Falo das características do país. O Brasil no mundo é conhecido pela sua música com forte influência negra, pela capoeira presente em mais de 200 países; mais até que nossas representações diplomáticas, pelo futebol com a vasta contribuição negra que tem na sua representação máxima um negro o rei Pelé.

O Brasil também é conhecido como o produtor do maior espetáculo teatral da terra, o Carnaval, essencialmente negro. Em resumo a visibilidade do nosso país no mundo é a cultura negra e só agora 522 anos depois de seu descobrimento o país terá a segunda pessoa preta representando a pasta da cultura. A primeira mulher preta, Margareth Menezes!

Existem promessas de mais diversidade neste governo que começa a se instalar em Brasília, o que deve ser colocado ou encarado seja pelo novo governo e pela sociedade civil com normalidade e não por excepcionalidades, favores ou cotas. Devem ser tratados com respeito, com carinho, gratidão e ressarcimento de tudo que essa população deu e continua dando para construção desta grande nação.