Negociação de imóvel de R$ 2,5 mi para Jaques seguiu após prisão de Vorcaro
Polícia Federal aponta que tratativas sobre compra de apartamento que seria para o senador foram retomadas três dias após a primeira fase da Operação Compliance Zero

Documentos da PF (Polícia Federal) sobre a investigação que apura as fraudes financeiras ligadas ao caso Master mostram que as negociações sobre a compra de um apartamento de luxo para o senador Jaques Wagner (PT-BA) seguiram mesmo após Daniel Vorcaro, antigo dono do banco, ser preso, em novembro de 2025.
Segundo a PF, após a prisão de Vorcaro – em novembro de 2025, na primeira fase da Operação Compliance Zero – as negociações para a compra do imóvel continuaram por meio de "manobras contratuais executadas com o propósito de evitar a descoberta do negócio ilícito pelos investigadores".
A PF afirma que Jaques pediu o apartamento a Augusto Lima, ex-sócio do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, como uma "vantagem indevida". Augusto Lima, que também foi preso em novembro de 2025, já atuou como CEO do Master e controlador do Banco Pleno, que teve a liquidação extrajudicial decretada pelo BC (Banco Central) em fevereiro deste ano.
O apartamento que Lima estaria intermediando para Jaques seria localizado em Salvador, e é avaliado em cerca de R$ 2,45 milhões.
De acordo com a Polícia Federal, após as prisões de Lima e Vorcaro, a negociação para compra do imóvel passou a ser conduzida por "operadores" do senador e do ex-sócio do Master.
A PF afirma que, já em fevereiro de 2026, os intermediários do negócio trocaram mensagens com a minuta do contrato assinado de compra do apartamento. Além disso, detalhes do imóvel, como itens de acabamento que seriam substituídos, também foram enviados. A troca no acabamento acrescentaria R$ 20 mil ao valor inicial do espaço.
Ainda segundo a investigação, a retomada das tratativas ocorreu três dias depois da deflagração da Operação Compliance Zero, com diálogos entre o operador de Augusto Lima e diretores do Master, em 21 de novembro de 2025. Nesse dia, a PF aponta que houve a troca de mensagens para contatos com supostos operadores de Wagner.
Já em 25 de novembro do ano passado, segundo a PF, teria ocorrido uma reunião presencial entre os intermediários do senador e de Lima para discutir a realização do negócio sobre o apartamento.
As conversas entre os operadores se mantém até o mês de dezembro de 2025, e, para a PF, teriam sido feitas por meio de "linguagem cifrada" para ocultar informações sobre a compra do imóvel.
A Polícia cita, por exemplo, uma mensagem de 18 de dezembro de 2025, na qual o operador de Augusto Lima escreve: "A altura do vão é 2,45m". O suposto operador de Jaques, então, responde: "Perfeito".
Segundo a PF, a expressão "altura do imóvel", na verdade, poderia fazer referência ao valor total do apartamento (R$ 2,45 milhões).
A CNN procurou a defesa do senador Jaques Wagner e dos demais citados, mas ainda não obteve posicionamento.
Daniel Vorcaro foi solto doze dias depois de sua primeira prisão, em 29 de novembro de 2025. Ele voltou a ser preso, preventivamente, em 4 de março de 2026, e atualmente está detido no Complexo da Papuda, em Brasília.
Já Augusto Lima, apontado como o responsável por supostamente comprar o apartamento para Jaques Wagner, também foi solto doze dias depois da primeira fase da Compliance Zero, com uso de tornozeleira eletrônica.
A investigação contra Jaques
O senador Jaques Wagner, que é ex-líder do governo no Senado, é investigado no âmbito da 9ª fase da operação Compliance Zero, deflagrada em junho pela Polícia Federal.
De acordo com o documento que autorizou essa operação, de autoria do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça, a investigação identificou elementos que indicam "recebimento de vantagens econômicas indevidas pelo parlamentar".
"Apura-se a possível relação ilícita entre gestores do Banco Master, notadamente Augusto Ferreira Lima e Daniel Bueno Vorcaro, e o Senador Jaques Wagner. A Polícia Federal sustenta que, no curso das investigações, foram identificados elementos indicativos de recebimento de vantagens econômicas indevidas pelo parlamentar, direta ou indiretamente, por intermédio de familiares, pessoas de confiança e estruturas societárias vinculadas ao grupo econômico investigado", diz um trecho da decisão.
Os elementos citados na decisão de André Mendonça apontam que as vantagens incluíam uso gratuito de aeronaves, estruturação de pagamentos, benefícios e aquisições patrimoniais.
Após a operação contra Wagner, a PF intimou o senador a prestar depoimento sobre suspeitas de recebimento de propina oriunda do Banco Master. O interrogatório está previsto para ocorrer em 7 de agosto.
Após ser alvo da PF, Jaques Wagner deixou a liderança do governo no Senado.


