No Rio, Lula critica imprensa, elite e troca no comando da Petrobras

Pré-candidato do PT à Presidência culpa governo Bolsonaro e acionista da petrolífera pelos preços altos dos combustíveis

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende o controle estatal da empresa
Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende o controle estatal da empresa Carla Carniel/Reuters

Isabelle Salemeda CNN

no Rio de Janeiro

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O ex-presidente e pré-candidato do PT à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, culpou o governo federal e os acionistas da Petrobras pelos altos preços dos combustíveis nesta terça-feira (29).

Durante evento para debater a situação da Petrobras e os valores dos combustíveis, em um hotel no Rio de Janeiro, Lula também criticou a troca do comando da Petrobras e a escolha do economista Adriano Pires para o cargo, conforme anunciado nesta segunda-feira (28) pelo Ministério de Minas e Energia.

“Não adianta ficar possesso, ao estilo do presidente, e jogar a culpa em quem não tem culpa. A culpa é, efetivamente, do presidente e da direção da Petrobras. O presidente não escolhe o presidente, ele indica o presidente pro conselho. A diretoria é indicada pro conselho.”

Na sequência, Lula fez referências às investigações do “petrolão” – desvios bilionários na empresa durante governos do PT. O esquema envolvia o pagamento de propina por empreiteiras, superfaturamento de obras e lavagem de dinheiro. Os recursos alimentavam os caixas de partidos e também foram apropriados por funcionários da estatal e políticos.

“Aconteceu nesse país que uma parcela de pessoas do Ministério Público, que fazia parte da quadrilha da Força Tarefa da Lava Jato em Curitiba, criou a imagem de que todos que defendem a Petrobras são corruptos”, disse Lula sem citar o esquema do “petrolão”, que teve contratos e esquemas de propinas com a Petrobras revelados pela operação Lava Jato.

Ao defender o controle estatal da empresa, o ex-presidente fez críticas à elite e à imprensa do país.

“Se você pegar os editoriais do jornal ‘O Estado de S. Paulo’ em 1953, quando se descobriu a Petrobras e se tentava fazer pesquisa contra a Petrobras, até o Monteiro Lobato era contra a gente procurar petróleo. O editorial do Estadão é dizendo, taxativamente, que a gente tem que continuar comprando petróleo dos Estados Unidos”, afirmou Lula.

Para o petista, “a elite brasileira é colonizada”, “Ela (a elite brasileira) nunca aceitou a independência. E muito menos soberania. Você deixou a dependência de Portugal, porque foi feito um acordo. Você ficou dependente da Inglaterra um tempo. E agora está dependendo dos Estados Unidos há quanto tempo?”, questionou o ex-presidente.

Adriano Pires

Sobre o economista Adriano Pires, apesar de deixar claro que não o conhece, Lula se referiu a ele como “lobista”.

“Não conheço essa pessoa, por isso não vou falar mal do cara que assumiu. Mas os dois trechos que eu li de notícia hoje é que ele é lobista e que ele é muito mais ligado às empresas estrangeiras que às nossas. E que ele faz parte de um grupo seleto de personalidades brasileiras que não aceita o discurso que o petróleo é nosso. E essa gente que não sabe governar, ao invés de ter criatividade para fazer coisas que não existem, eles querem vender o que tem”, disse.

A CNN está tentando contato com Pires, mas ainda não obteve retorno.

Adriano Pires é diretor fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). Bacharel pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), também é mestre em Planejamento Energético e Tecnologia em Petróleo e Gás pela mesma instituição e doutor em Economia Industrial pela Université Paris 13, na França, segundo informações de seu perfil no LinkedIn.

A troca do comando da Petrobras acontece em meio à escalada do preço do petróleo no mundo e, com ela, a dos combustíveis vendidos pela empresa no Brasil.

Adriano Pires só toma posse após o conselho administrativo da companhia deliberação sobre a indicação dele para a presidência da empresa. Nesse caso, ele assumirá o lugar do general Joaquim Luna e Silva, que ficou na função menos de um ano. Essa é a segunda vez que o presidente Jair Bolsonaro muda a chefia da estatal em seu mandato. Em fevereiro do ano passado, o então CEO Roberto Castello Branco foi dispensado.

Política de preços dos combustíveis

Em suas mais recentes declarações públicas, o pré-candidato do PT já vem criticando a política de preços da Petrobras, atrelada ao mercado internacional.

Também presente no evento com Lula, o coordenador da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Deyvid Bacelar, defendeu a mudança na política de preços dos combustíveis. “O problema do preço não é o ICMS e a guerra. É a política de preços da Petrobras, que atrela o valor dos combustíveis ao dólar, ao preço do barril de petróleo e aos impostos internacionais. Tem que acabar com isso”, disse.

No mesmo evento, o geólogo e ex-diretor de Exploração e Produção da Petrobras Guilherme Estrella disse que “nosso problema não é geológico e nem econômico. Mas nós perdemos o Brasil. Não é mais nosso. A Petrobras não é mais nossa. Perdemos a soberania nacional”, sentenciou.

Já o ex-presidente da estatal José Sergio Gabrielli afirmou que o objetivo inicial da companhia era garantir o abastecimento do país, mas, depois de 2017, a competitividade de mercado ganhou espaço.

“No processo de alinhar o preço nacional ao internacional, as refinarias da Petrobras perderam espaço para garantir acesso internacional. Nesse novo contexto, tem gente ganhando com isso. É possível reduzir preços aos brasileiros, mudando a estratégia da Petrobras, diminuindo lucro dos acionistas”, disse.

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