O teste de DNA do Brasil

Muitos eleitores encaram votação de 2022 como uma definição sobre quem é o pai do povo brasileiro

Esplanada dos Ministérios, em Brasília
Esplanada dos Ministérios, em Brasília Marcello Casal Jr

Alexandre Borges

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Quem é o pai do povo brasileiro? A pergunta parece absurda, mas reflete a maneira como muitos eleitores estão encarando, mesmo que involuntariamente, a escolha do próximo presidente da República no ano do bicentenário do país. O resultado do teste de DNA do Brasil sairá em outubro.

Durante o Estado Novo (1937-1945), a máquina de propaganda getulista repetia que o ditador gaúcho era o “pai dos pobres”. O plano era evidentemente associar a autoridade máxima da República a uma figura paterna, simbologia surrupiada da religião cristã e que acabou se consolidando na imaginação moral da população.

A própria ideia é herética para um fiel que conhece o versículo em que Jesus diz “não chame ninguém na Terra de pai, já que o pai de vocês é um só e está nos céus” (Mateus 23,9), ensinamento que não deve ser entendido literalmente.

É na verdade uma hipérbole, já que o próprio Cristo, pode-se perfeitamente assumir, chamava seu pai adotivo José assim. A ideia de Jesus neste caso é deixar claro que Deus tem uma relação de autoridade, mas também de amor, misericórdia, acolhimento e proteção, como fica claro na parábola do filho pródigo.

Em diversas civilizações, desde sempre, o supremo mandatário era identificado com uma divindade, dos faraós do Egito antigo até a família que comanda a Coréia do Norte há três gerações. Para os adeptos da Análise Transacional, o “pai” representa o reino das normas, valores, regras e, claro, a relação do indivíduo com a autoridade.

Numa sociedade secularizada e supostamente laica, o Deus judaico-cristão “morre” e dá lugar simbolicamente ao Leviatã, o deus-estado, comandado pelo ungido líder da nação. Para quem entende as implicações disso e considera os resultados nas últimas décadas, resta dar o grito de Luke Skywalker quando descobre que Darth Vader é seu pai.

Lula entra na disputa com a imagem do retirante nordestino, ex-operário que perdeu um dedo no torno mecânico, líder sindical e ex-presidente que “cuidou do social”. Bolsonaro, no outro canto, entra no ringue se apresentando como o militar patriota, cristão e conservador, que cuida dos filhos como uma leoa acuada e projeta sua relação com a prole para seus eleitores.

Visivelmente envelhecidos, ambos foram feridos na batalha, um preso e o outro esfaqueado, e oferecem suas chagas pela redenção do povo.

A eleição de 2022, uma continuação tortuosa e atrasada da disputa de 2018, não é apenas uma tentativa de revanche de Lula contra Bolsonaro ou a luta deste último contra a “volta do comunismo”. Neste cenário, não há espaço perceptível para uma terceira opção. Não é uma disputa de propostas ou sequer de biografias, mas de arquétipos e do espírito do tempo.

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