Pandemia do coronavírus impõe-se como principal agenda de Brasília

Nova doença terá impacto nos temas políticos e econômicos que dominavam as atenções antes da crise global

Congresso Nacional, em Brasília
Congresso Nacional, em Brasília Foto: Pedro França/Agência Senado

Renata Agostinida CNN

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Demorou, mas a pandemia do coronavírus impôs-se como principal agenda de Brasília. Pelo ineditismo e pela gravidade, trata-se de um problema que ultrapassa a saúde pública. Afeta a política, a economia e a vida de todos os brasileiros. O novo coronavírus terá impacto nos temas políticos e econômicos que dominavam as atenções antes da crise global. A semana começará com governo e Congresso ainda se adaptando a essa dura realidade.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, escalou seus secretários para, ao longo do fim de semana, traçar novas medidas de socorro à economia. As ações divulgadas na quinta-feira de noite –antecipação da primeira parcela do 13º salário para aposentados, reforço no crédito, redução de tarifas de importação para medicamentos– amanheceram envelhecidas.

Um novo pacote será anunciado nesta segunda-feira ou, no mais tardar, na terça-feira, de acordo com um auxiliar do ministro. Entre as opções estudadas, estão a autorização para novos saques do FGTS, a criação de linhas de crédito para empresas e um socorro emergencial a companhias aéreas. Gol, TAM e Azul viram compras de passagens caírem até 30% em poucos dias e já avisaram que, sem ajuda, demissões serão inevitáveis.

As cúpulas do Senado e da Câmara passaram o sábado em conversas –e trocas de mensagens– para decidir se seria necessário fechar o Congresso. Ao menos um parlamentar, o senador Nelsinho Trad (PSD-MS), testou positivo para o novo coronavírus. Avalia-se que manter os trabalhos do Congresso é fundamental –mas isso dependerá da proliferação ou não dos casos entre parlamentares e funcionários da Casa. 

Já chegou ao comando do Parlamento o recado de economistas de que, no horizonte, há risco de a crise jogar a economia rumo à recessão caso nada seja feito. Mas há dúvida se haverá quórum para abrir as sessões nesta semana. É preciso convencer parlamentares a voarem de volta a Brasília.

Havia alertas, mas Brasília se recusava a acreditar na existência do mundo pós-coronavírus. Ainda em fevereiro, um integrante da equipe econômica expôs ao governo em reunião que preços de frete marítimos na Ásia caíam de forma abrupta, indicando que o problema era maior do que se antecipava.

O Ministério da Saúde preparava-se há semanas para que o vírus passasse a ser transmitido no país e sinalizava ao Planalto e ao Congresso sobre a necessidade de reforçar o orçamento para combater a doença. O aviso me foi feito na manhã do dia 3 de março por uma fonte da pasta. Era questão de tempo. 

Indiferentes ao fato de que o mundo já era outro, parlamentares ocupavam seu tempo nas articulações sobre quem controlaria um quinhão do Orçamento. A prioridade na Economia seguia sendo o envio das sugestões de reforma nos tributos do País e o projeto que modifica as regras do funcionalismo. Havia apenas 15 semanas para mudar o Brasil, declarava o ministro Paulo Guedes, insistindo que era preciso pressionar o Congresso a aprovar as reformas antes das eleições municipais. 

O presidente Jair Bolsonaro preocupava-se com a adesão às manifestações programadas para este domingo e agarrava-se à percepção de que o surto se tratava muito mais de “fantasia” do que um problema real –discurso reverberado por muitos de seus auxiliares nos gabinetes de Brasília até poucos dias atrás. 

Integrantes do governo e da equipe econômica argumentam que não houve demora em reagir. Era preciso entender melhor o que ocorria no mundo e evitar causar pânico na população. Empresários, porém, já estavam sobressaltados diante do comportamento das Bolsas e do que acontecia na Europa e nos Estados Unidos. Pediam medidas urgentes. Aflito com o cenário de curto prazo e os ouvidos moucos das autoridades de Brasília, o presidente de uma das maiores companhias do país me relatou esta semana que o governo não poderia desperdiçar a vantagem de o Brasil estar “atrás no ciclo” –ou seja, é possível ver o que está acontecendo lá fora e correr para mitigar os efeitos aqui.

A pressão do empresariado e do mercado tende a crescer nos próximos dias. Para o Palácio do Planalto, que já cobrava de Guedes e seu time resultados mais rápidos, chegar às eleições de outubro com a economia cambaleante é cenário a evitar. Os parlamentares sabem disso e medem agora como conciliar seus interesses com efeitos ainda desconhecidos da pandemia. No jogo político, a partir de amanhã, o novo coronavírus chegou de vez à capital.

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