Parte dos pagamentos do WiFi Livre SP ocorreu sem nota fiscal

Projeto foi operacionalizado por ONG de produtora de filme de Bolsonaro; contrato é alvo de investigação da Polícia Civil

Da CNN Brasil
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Uma investigação conduzida pela Polícia Civil de São Paulo apontou que parte dos pagamentos relacionados ao projeto Wifi-Livre SP teria sido operacionalizada mediante faturas comerciais, e não necessariamente via emissão regular de notas fiscais de prestação de serviço.

O Wifi-Livre é um projeto da Prefeitura de São Paulo que prevê a instalação de pontos de internet gratuitos em várias regiões da capital. O serviço foi prestado pelo Instituto Conhecer Brasil, gerido por Karina Ferreira da Gama – mesma dona da Go Up Entertainment, produtora à frente do filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O contrato firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil é da ordem de R$ 108 milhões. A prestação dos serviços do projeto “Wifi-Livre” é alvo de investigação da Polícia Civil por suspeitas de irregularidades.

No documento obtido pela CNN Brasil, a Polícia Civil destaca documentos emitidos pela Make One Tecnologia Digital. A empresa prestou serviços ao instituto referente à locação de equipamentos eletrônicos.

"Em especial, há documentos emitidos pela empresa Make One Tecnologia Digital Ltda, identificados expressamente como 'FATURA', vinculados ao programa Wifi-Livre, com valores milionários associados ao fornecimento/locação de equipamentos", diz a Polícia Civil.

Dentre as inconsistências apontadas, menciona-se a apresentação de quatro faturas emitidas pela empresa Make One Tecnologia Digital Ltda., totalizando R$ 8,5 milhões, sem emissão das respectivas notas fiscais ou recolhimento tributário correspondente.

O documento destaca também que as faturas possuíam numeração sequencial, mesma data de emissão e vencimento, além de valores artificialmente fracionados, sugerindo possível montagem documental para justificar saídas ilícitas de recursos financeiros.

A Polícia Civil ainda aponta a existência de notas fiscais canceladas para prestar contas.

"Há ainda elementos indicativos de que a análise técnica da própria Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia teria identificado inconformidades relevantes na prestação de contas", diz.

Para a Polícia Civil, há indícios de superfaturamento aparente, pagamento antecipado sem correspondente execução e desequilíbrio econômico-financeiro do ajuste.

Leia a íntegra da nota da Prefeitura de São Paulo:

A Prefeitura de São Paulo informa que a assinatura e execução do termo de colaboração firmado com o Instituto Conhecer Brasil (ICB) não têm qualquer irregularidade identificada. O Programa Wifi Livre segue em pleno funcionamento na cidade com 3.200 pontos instalados e mais de 760 milhões de acessos registrados, conforme pode ser verificado no link. A Controladoria Geral do Município acompanha o caso desde as primeiras denúncias e instaurou, em maio de 2026, procedimento de apuração, em andamento.

Leia a nota na íntegra de Karina Gama:

A defesa da Sra. Karina Gama recebe com absoluto respeito e considera positiva a decisão do Ministro Flávio Dino de levantar o sigilo sobre os elementos da investigação conduzida pela Polícia Civil do Estado de São Paulo envolvendo o Instituto Conhecer Brasil e contrato celebrado com a Prefeitura de São Paulo.

A transparência interessa à Justiça, à sociedade e, sobretudo, à própria defesa.

Quem já apresentou voluntariamente mais de 20 mil páginas de documentação não teme transparência.

Desde o primeiro momento, a Sra. Karina Gama tem sustentado, de maneira firme e inequívoca, que não praticou qualquer ilícito.

A publicidade dos elementos da investigação permitirá que os fatos sejam conhecidos em sua integralidade e examinados objetivamente, para além de especulações ou juízos antecipados.

A defesa confia que a plena exposição dos fatos demonstrará que a Sra. Karina Gama não pode ser transformada em culpada pela intensa efervescência da vida nacional, em um momento de extraordinária agitação e movimentação política.

Investigar é legítimo. Esclarecer é do interesse de todos. Mas investigação não é acusação, muito menos, condenação e a repercussão política jamais poderá substituir o devido processo legal.

Por essa razão, a defesa nada tem a opor quanto à transparência e ao levantamento do sigilo.

Ao contrário, deseja que o Brasil tenha acesso à realidade integral dos acontecimentos e que cada documento, contrato, pagamento e circunstância seja examinado tecnicamente, dentro da legalidade e sem contaminação por disputas políticas ou narrativas previamente construídas.

A Sra. Karina Gama continuará colaborando com as autoridades competentes e exercendo, com serenidade, seu direito constitucional de defesa, convicta de que a verdade dos fatos prevalecerá.

A Constituição protege a investigação, mas também protege o investigado. E é justamente nos casos de maior repercussão pública que essa garantia precisa ser mais rigorosamente observada.

Ricardo Sayeg
OABSP 108.332