"Projeto DV", de Vorcaro, mirava intimidação e coação de pessoas, diz PF

Grupo criminoso utilizava informações privilegiadas, obtidas de forma ilícita, segundo a corporação

Leticia Martins, Elijonas Maia e Gustavo Uribe, da CNN Brasil, São Paulo e Brasília
Compartilhar matéria

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda intimidavam e coagiam influenciadores e jornalistas para atuarem em prol do Banco Master. As informações constam na decisão do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), ao autorizar, nesta quinta-feira (9), a 10ª fase da Operação Compliance Zero, com o objetivo de apurar indícios de atuação coordenada em redes sociais voltada, em tese, a comprometer a credibilidade da atuação do BC (Banco Central).

"Ainda de acordo com a autoridade policial, no caso de recusa das vantagens financeiras ofertadas, o grupo criminoso utilizava informações privilegiadas, obtidas
de forma ilícita, para intimidar ou coagir as pessoas que não aderissem ao denominado 'Projeto DV'", afirmou o ministro.

Vorcaro e Miranda teriam feito propostas de até R$ 2 milhões para os influenciadores. O objetivo era alavancar a imagem do Banco Master — hoje liquidado —  e colocar em dúvida a atuação do Banco Central.

"No que concerne às tentativas de contratação de jornalistas e influenciadores, a Polícia Federal recorda fato amplamente noticiado, ocorrido após a deflagração de fase ostensiva da Operação, consistente na apresentação de propostas a influenciadores com ofertas de pagamento de até R$ 2 milhões de reais, para a publicação de conteúdos favoráveis ao Banco Master, bem como para questionar a atuação do Banco Central no contexto da liquidação da instituição financeira. As minutas
contratuais previam, inclusive, cláusulas de confidencialidade e o planejamento de coordenação estratégica das postagens nas redes sociais", diz outro trecho da decisão.

Segundo Mendonça, a PF constatou ainda "participação direta" de Thiago Miranda Silva, dono da Miranda Comunicação, também conhecida como Agência MiThi, no "projeto DV". Ele atuou na contratação dos jornalistas e influenciadores.

Décima fase da Operação Compliance Zero

A nova fase da Operação Compliance Zero investiga a atuação de uma possível organização criminosa relacionada ao Banco Master, dedicada à intimidação de jornalistas, ao monitoramento ilícito de pessoas ligadas a autoridades públicas, à obtenção indevida de informações sigilosas e à adoção de medidas destinadas a interferir em investigações criminais.

Ao autorizar a investigação, Mendonça emitiu dois mandados de busca e apreensão em Brasília. Segundo o ministro, os investigadores apontaram que Vorcaro utilizou fundos das fraudes do banco liquidado para realizar uma campanha de desinformação na mídia.

Quem são os alvos da operação

Segundo apuração da CNN Brasil, foi autorizada a busca e apreensão em endereços ligados a Miranda.

Na decisão, Mendonça destacou o caráter urgente da medida no intuito de evitar a perda de provas digitais e a gravidade de condutas que poderiam interferir nas investigações do caso.

Mensagens trocadas entre Miranda e Vorcaro falam sobre formas de buscar informações privadas sobre a jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, na tentativa de impedir a produção de novas reportagens sobre o Banco Master.

Ao não encontrarem nada que a pudesse comprometer a jornalista, os dois cogitam a opção de contratar a jornalista com salário na casa dos R$ 120 mil e "luvas" contratuais — bônus além do salário garantidos no momento da assinatura de um contrato para garantir exclusividade, preferência ou compensar o fechamento do negócio.

Defesa de Miranda nega irregularidades

Em nota, a defesa de Thiago Miranda negou a prática de qualquer ilegalidade e afirmou que a existência de uma investigação não permite antecipação de culpa. Leia abaixo

Acerca dos fatos amplamente divulgados no dia de hoje, a defesa de Thiago Miranda vem a público refutar, de forma categórica, a prática de qualquer ilegalidade por seu constituinte.

Thiago Miranda sempre pautou sua atuação profissional pela legalidade, pela transparência e pelo respeito às instituições e pelo livre exercício da liberdade de expressão, não tendo praticado qualquer ato criminoso, tampouco participado de conduta destinada a intimidar, coagir, constranger ou violar direitos de terceiros. A defesa esclarece que a existência de investigação em curso não autoriza qualquer juízo antecipado de culpa, devendo ser rigorosamente preservadas as garantias constitucionais do devido processo legal, da ampla defesa, do contraditório e, sobretudo, da presunção de inocência.

Thiago Miranda está inteiramente à disposição das autoridades competentes para prestar todos os esclarecimentos necessários, colaborar com a apuração dos fatos e demonstrar, no foro próprio, a absoluta regularidade de sua conduta. Por fim, informa que a defesa acompanhará atentamente todos os atos do procedimento e adotará as medidas jurídicas cabíveis para assegurar que os fatos sejam apurados com equilíbrio, técnica e respeito às garantias legais, afastando-se conclusões precipitadas ou interpretações incompatíveis com a realidade.

Brasília/DF, 09 de julho de 2026.

Rafael Martins OAB/DF 19.274.