Quatro institutos, os mesmos resultados: não vale a pena brigar com os números

Quase todo candidato que não obtém o resultado desejado espalha que pesquisas são “manipuladas” e “não confiáveis”, mas é melhor não relutar diante da realidade

Pré-candidatos à Presidência da República nas Eleições 2022. Na ordem: Lula (PT), Bolsonaro (PL), Moro (Podemos) e Ciro (PDT)
Pré-candidatos à Presidência da República nas Eleições 2022. Na ordem: Lula (PT), Bolsonaro (PL), Moro (Podemos) e Ciro (PDT) Montagem: CNN Brasil

Alexandre Borgesda CNN

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Muitas lendas urbanas correm soltas nas redes sociais quando o tema é pesquisa eleitoral. Quase todo candidato que não obtém o resultado desejado espalha nos seus canais de comunicação que as pesquisas são “manipuladas” e “não confiáveis”. Convém não brigar com os números e com a realidade. Como dizemos na CNN, fatos primeiro.

Na semana passada, divulgamos os resultados da pesquisa Genial/Quaest, realizada com 2.000 entrevistas face-a-face entre 10 e 13 de março. Na segunda (21), a pesquisa BTG/FSB foi publicada, a partir de 2.000 entrevistas realizadas entre 18 e 20 de março. Nesta quinta (24), saiu o novo Datafolha, que ouviu 2.556 pessoas face-a-face entre 22 e 23 de março. Nesta sexta (25), tivemos a nova pesquisa Ipespe, que contatou 1.000 pessoas por telefone entre 21 e 23 de março.

Faço questão de ressaltar as características de cada instituto e sua metodologia própria para que não haja dúvida sobre a pluralidade de abordagens na detecção da vontade e das intenções atuais do eleitor brasileiro. As margens de erros variam conforme a maneira com que o instituto aborda o cidadão.

Os que consultam face-a-face o eleitor, como Datafolha e Genial/Quaest, têm margem de erro de 2 pontos. Os que contataram por telefone, BTG/FSB e Ipespe, apresentaram margem de erro de 2 e 3 pontos, respectivamente. A diferença se explica tecnicamente pelo número de entrevistas e pela metodologia.

Nos quatro casos, os resultados apresentados são muito próximos, idênticos se considerarmos as margens de erro. Veja os últimos resultados das intenções de voto para presidente (estimulada) no primeiro turno dos institutos Genial/Quaest, BTG/FSB, Datafolha e Ipespe, nesta ordem:

  • Lula 45% / 43% / 43% / 44% 
  • Bolsonaro 25% / 29% / 26% / 26% 
  • Moro 6% / 8% / 8% / 9%
  • Ciro 7% / 9% / 6% / 7% 

Neste momento da disputa, este é o quadro, fruto da convergência total dos resultados recentes de alguns dos principais institutos de pesquisa do país, todas registradas na Justiça Eleitoral. Em vez de brigar com os números, melhor encarar a realidade.

O que se sabe até o momento: Lula tem uma vantagem confortável e robusta, especialmente entre mulheres, eleitores de baixa renda e moradores do Nordeste.

Bolsonaro tem alta rejeição, seu governo não é bem avaliado e seus eleitores não são maioria, um índice problemático num país em que os presidentes, após a redemocratização, nunca perderam quando tentaram se reeleger. Seus eleitores são, em grande parte, homens de classe média e alta, moradores do Sul e Centro-Oeste. A terceira via, até o momento, apenas faz figuração.

Lula tem como ponto fraco uma alta rejeição entre eleitores instruídos que associam seu nome à corrupção e visões de mundo que não subscrevem. A atração de Geraldo Alckmin para sua chapa é uma tentativa de diminuir a resistência nestes segmentos, além de abrir caminho para uma vitória petista na disputa pelo governo de São Paulo.

Se o PT conquistar o Planalto e o Palácio Bandeirantes na mesma eleição, terá uma força política que nunca teve, mesmo no auge de popularidade de Lula.

Bolsonaro passou os últimos anos em campanha permanente, mas seu discurso e atuação política foram direcionados ao seu eleitor mais radical e ideológico, o que distanciou o presidente dos pobres do país a ponto de, mesmo com bilhões gastos em auxílios, a preferência deste público por Lula parece inabalável.

Como a caneta presidencial tem tinta praticamente inesgotável, nunca é bom subestimar a capacidade de recuperação de um presidente no exercício do cargo.

A decisão de campanha mais importante de Jair Bolsonaro foi afastar, ao menos dos holofotes, a chamada “ala ideológica”, os “meninos maluquinhos” do seu entorno e da imprensa governista, que tantas arestas criaram na classe política e com o próprio eleitor, levando o presidente a defender abertamente bandeiras impopulares como o movimento antivacina.

Com o protagonismo dos profissionais do Centrão na coordenação da campanha, na articulação política e na gestão do orçamento, Bolsonaro volta a ser competitivo eleitoralmente e os números das pesquisas já mostram uma leve recuperação. Bolsonaro é um político experiente, com um mandato presidencial quase completo e outros sete como deputado federal.

Mesmo descontentando muitos dos seus amigos e parentes mais próximos, Bolsonaro entendeu que treino é treino, jogo é jogo, e é hora dos titulares entrarem em campo para evitar a goleada enquanto ainda é tempo.

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