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    Após cinco décadas de política, malufismo sai de cena sem deixar herdeiros

    Especialistas veem paralelo entre corrente em torno de Paulo Maluf e bolsonarismo, o que aliados rejeitam. Aos 90, ex-prefeito cumpre prisão domiciliar e enfrenta problemas de saúde

    Condenado pela Justiça e debilitado, ex-deputado Paulo Maluf não demonstra interesse pela política partidária
    Condenado pela Justiça e debilitado, ex-deputado Paulo Maluf não demonstra interesse pela política partidária Gustavo Lima/ Câmara dos Deputados

    Marcus Lopescolaboração para a CNN

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    “Você sabe o que significa a sigla PMDB? Paulo Maluf dirigirá o Brasil.” A frase foi dita pelo próprio Paulo Maluf, em 1984, após sair vitorioso da convenção do seu partido, o PDS, para disputar as eleições presidenciais, no ano seguinte.

    Maluf perdeu a eleição no Colégio Eleitoral para Tancredo Neves, candidato do PMDB, e nunca dirigiu o Brasil.

    Disputou 16 eleições, entre diretas e indiretas, das quais perdeu dez e ganhou seis. Nos tempos áureos, foi o deputado federal campeão de votos no país e um prefeito com altos índices de popularidade, mas deixou o cenário político após ter sido preso, em 2017, e, no ano seguinte, ter o mandato de deputado federal cassado.

    Com tantos reveses, o malufismo ― corrente política em torno de Maluf durante mais de cinco décadas ―, está praticamente extinto por falta de sucessores e por causa da controversa carreira do seu criador, recheada de acusações de improbidade administrativa e um discurso conservador em relação à pauta de costumes.

    Isso leva à comparação com outro movimento político personalista conservador de direita: o bolsonarismo, capitaneado pelo presidente Jair Bolsonaro.

    “Não há propriamente um paralelo entre as duas correntes [bolsonarismo e malufismo], mas uma ancestralidade comum”, diz o cientista político Antonio Sérgio Rocha, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

    Segundo ele, tanto no malufismo, como no bolsonarismo, predomina a manipulação do medo da classe média ― do empobrecimento, da esquerda no poder e da perda de status social com a ascensão de gente das classes C e D ―, além do uso de uma moral socialmente conservadora.

    Opinião semelhante tem a cientista política Deysi Cioccari, que é doutora em ciências sociais pela PUC-SP.

    “São políticas caracterizadas pela emoção. O carisma de Bolsonaro foi um dos maiores fatores para a sua eleição em 2018 e pela faixa de 25% dos eleitores que ele mantém no apoio. Bolsonaro não tem nenhuma realização que justifique essa média, a não ser a emoção daqueles que se identificam com ele. Com o malufismo, é o mesmo princípio”, diz.

    Aliados do ex-prefeito rejeitam a comparação com Bolsonaro, mesmo em pautas como a segurança.

    Maluf sempre defendeu que a população tem de ser protegida por uma segurança pública eficiente, mas não que a população esteja armada

    Jesse Ribeiro, ex-chefe de gabinete de Maluf na Câmara dos Deputados e um dos seus fiéis escudeiros há mais de 40 anos

    Lembrando o lema de Maluf no governo de São Paulo em relação à segurança ― “A Rota (polícia de elite de São Paulo) tem de ir para a rua” ― Ribeiro destaca outros contrapontos com Bolsonaro, como a histórica capacidade de articulação política de Maluf (inclusive com o PT, com o apoio a Fernando Haddad no segundo turno para a eleição do petista à prefeitura, em 2012) e o respeito às instituições, como o Judiciário, mesmo tendo sido condenado e preso a mando do Supremo Tribunal Federal (STF).

    Veja imagens da trajetória política de Maluf

     

    Após décadas se movimentando como peça importante no cenário político paulista e nacional, prestes a completar 91 anos e com a saúde debilitada, as vitórias mais recentes do nonagenário político foram contra a Covid-19, que o levou a ser hospitalizado, e a liberdade condicional concedida pelo ministro Edson Fachin, do STF.

    Maluf foi condenado pelo Supremo em ação penal por crime de lavagem de dinheiro, que teria sido desviado de obras da Prefeitura de São Paulo durante o período em que foi prefeito, entre 1993 e 1996.

    Para alguém que se orgulhava das constantes viagens ao exterior, principalmente Paris, Maluf, que hoje em dia se locomove apenas em cadeira de rodas, apresenta sonhos mais modestos, segundo interlocutores: passar uma temporada na sua casa em Campos de Jordão (SP), na Serra da Mantiqueira.

    A memória do político está boa na maior parte do tempo, segundo parentes e assessores que o visitam com autorização da Justiça na mansão da rua Costa Rica, nos Jardins, em São Paulo, onde vive apenas com a esposa, Sylvia, funcionários e cuidadores.

    Bunker do malufismo, pelo endereço passaram políticos de várias tendências ― inclusive da esquerda ― para acertar composições políticas. Em diversas ocasiões, principalmente em eleições, foram concedidas entrevistas coletivas no portão da residência.

    Essas entrevistas eram meio de improviso, mas Maluf era pontual: gostava de falar sempre na parte da manhã, “para não atrapalhar o horário de fechamento dos jornais e dos noticiários do meio-dia na televisão”.

    Sempre lidou com a imprensa à sua maneira: em vez de partir para o embate com profissionais quando sofria ataques na mídia, como costuma fazer o presidente Jair Bolsonaro em diversas ocasiões, Maluf preferia constranger repórteres com abraços e estalados beijinhos no rosto durante as entrevistas e aparições públicas.

    Doutor Paulo, como ficou conhecido por assessores e admiradores, lê os jornais todos os dias, acompanha os noticiários da televisão e chegou a criticar o acidente ocorrido em fevereiro nas obras da linha-6 do metrô, que abriu uma cratera na Marginal Tietê.

    Maluf, que sempre gostou de ostentar o diploma de engenheiro pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, a ponto de corrigir assessores e secretários de obras durante exposições públicas de projetos no período em que foi prefeito, comentou a interlocutores que a obra tinha sido executada de maneira errada. Deu a entender que, na época de Maluf, o túnel não desabaria.

    A CNN não conseguiu entrevistar o político, por conta das restrições legais e de saúde.

    Malufismo, uma corrente em extinção

    Com a saída de Maluf do cenário político após sua prisão determinada pelo STF, em 2017, o malufismo, que já estava enfraquecido desde a conturbada gestão Celso Pitta (1997-2000) na prefeitura paulistana, praticamente acabou.

    Assim como outras correntes políticas populares centradas na figura da sua liderança máxima, como o adhemarismo (Adhemar de Barros), o brizolismo (Leonel Brizola) e o janismo (Jânio Quadros), o malufismo não deixa sucessores diretos, segundo os próprios malufistas.

    “O malufismo morreu porque Maluf não se interessou em fazer o seu sucessor. Além disso, uma série de alianças equivocadas, como a com o PT na eleição de [Fernando] Haddad, fizeram o malufismo perder a sua identidade”, afirma o ex-vereador Antonio Salim Curiati Junior, formado politicamente na base malufista e vereador paulistano por oito anos (1997 a 2004).

    Seu pai, o ex-deputado estadual Salim Curiati, pertence ao grupo do “malufismo raiz”.

    Para o ex-vereador, outro problema comprometeu Maluf: o ego.

    Maluf nunca quis alguém que pudesse fazer sombra para ele

    Antonio Salim Curiati Junior

    Ele relembra a frase dita por Maluf na eleição do seu sucessor, Celso Pitta. “Se ele [Pitta] não for um grande prefeito, nunca mais votem em mim”, disse na campanha de 1996, quando esbanjava popularidade e altos índices de aprovação ao encerrar sua gestão na prefeitura.

    Pitta foi eleito na esteira dessa popularidade, mas seu governo foi considerado um desastre administrativo marcado por denúncias de corrupção que envolviam cobrança de propinas em um esquema que ficou conhecido como “máfia dos fiscais”.

    “A frase do Pitta ser um bom prefeito foi pior do que o ‘estupra mas não mata’”, diz Curiati Junior, referindo-se a outra frase polêmica de Maluf.

    Antenor Braido, ex-secretário de Comunicação de Pitta, defende o ex-chefe, mas admite que ele não tinha traquejo político para lidar com a administração pública e o apetite do legislativo municipal por cargos e verbas.

    “Não dá para negar que Maluf foi um ótimo prefeito, mas ele entregou a prefeitura quebrada ao seu sucessor, que era um técnico e não um político”, afirma Braido.

    Indagado sobre o fato de o próprio Pitta ter sido secretário de Finanças de Maluf, o ex-secretário contemporiza. “Pitta era o secretário, mas quem mandava era o prefeito”, diz Braido, que admite ser complicado explicar o porquê de Pitta ter aceitado a missão de suceder Maluf, já que não carregava nenhuma tradição na política e conhecia de perto a complexa situação financeira da prefeitura na época, já que participou da gestão malufista.

    É possível que a vaidade possa ter falado um pouco mais alto

    Antenor Braido, ex-secretário de Comunicação da Prefeitura de São Paulo

    O empresário Alberto Haddad, de 34 anos, tenta manter acesa a chama do malufismo. Pré-candidato a deputado estadual pela primeira vez em São Paulo pelo PP (Progressistas), ele se apresenta nas redes sociais como “Albertinho, o sobrinho de Maluf” e usa símbolos que tornaram o tio famoso, como o coração.

    Na verdade, o parentesco é um pouco mais distante: sua bisavó era tia de Salim Farah Maluf, pai de Paulo Maluf.

    Alberto, que se antecipa ao negar qualquer parentesco com Fernando Haddad, defende o legado e cita de cor todas as obras e projetos da carreira política do tio: Leve-Leite, Cingapura (habitação), aeroporto de Guarulhos e rodovias e avenidas em São Paulo, exatamente como fazia Maluf em suas campanhas eleitorais.

    Uma das marcas do malufismo no setor de transportes foi justamente o rodoviarismo, criticado por especialistas em gestão pública por ser considerado mais caro e menos eficiente, na relação custo/benefício, do que outros meios de transporte de massa, como o metrô.

    Uma das obras mais controversas de Maluf é justamente rodoviária: o Elevado João Goulart (ex-Costa e Silva), o Minhocão, inaugurado em 1971 durante a primeira gestão de Maluf na prefeitura, que assumiu o cargo nomeado pelo regime militar.

    Em relação ao Cingapura, as principais críticas são o baixo volume de unidades entregues ― cerca de 17 mil, ante uma meta de mais de 90 mil ― e a falta de projetos permanentes de urbanização no entorno dos conjuntos habitacionais.

    “Quero continuar o legado dele e a forma de administrar para a população”, diz Alberto, que volta a enumerar os feitos do padrinho.

    “O tio Paulo sempre foi o número 1 em tudo. Quando ele assumiu a prefeitura, São Paulo tinha dois túneis. Sozinho, ele fez oito. No governo do estado, mais do que dobrou a capacidade de vazão de água da Sabesp”, conta o orgulhoso sobrinho, que, de fato, sempre foi muito chegado a Maluf e o acompanhava desde a infância, segundo assessores e pessoas próximas ao ex-prefeito.

    Mas, segundo essas mesmas pessoas, é melhor Alberto não contar com a ajuda do tio que, apesar de continuar filiado ao PP, não demonstra mais interesse pela política partidária, dada as condições de saúde e a idade avançada.

    Alberto, que também cuida das redes sociais do tio, de fato não sabe se será eleito ou mesmo se a candidatura será confirmada, mas promete manter acesa a chama do malufismo, independente do resultado eleitoral nas eleições de outubro.

    Em 1986, candidato ao governo de São Paulo, Maluf perdeu a eleição para Orestes Quércia (PMDB), mas soltou uma de suas pérolas em um debate entre candidatos: “O malufista é igual corintiano: o time pode perder, mas ele será sempre corintiano.”

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