Quem é Ciro Nogueira, senador e ex-ministro de Bolsonaro que foi alvo da PF
Objetivo da operação é aprofundar investigações sobre um esquema de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional
A PF (Polícia Federal) realizou, nesta quinta-feira (7), uma nova fase da Operação Compliance Zero. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente do partido Progressistas, é um dos alvos das autoridades.
O objetivo da operação é aprofundar investigações sobre um esquema de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.
Ao todo são cumpridos 10 mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão temporária, expedidos pelo STF (Supremo Tribunal Federal), nos estados do Piauí, São Paulo, Minas Gerais e no Distrito Federal.
De acordo com a PF, ainda foi realizado o bloqueio de bens, direitos e valores no valor de R$ 18,85 milhões.
Segundo relatório da PF, o parlamentar teria apresentado uma emenda com objetivo de ampliar a cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. A suspeita é de que o instrumento teria sido elaborado com participação de integrantes do Banco Master.
Além disso, "no plano patrimonial, aponta-se a percepção de vantagens reiteradas, materializadas por pagamentos mensais, aquisição societária com expressivo deságio, custeio de despesas pessoais e fruição de bens de elevado valor, além de indícios de recebimento de numerário em espécie".
Em nota, a defesa de Ciro repudiou a operação e afirmou que o senador "não teve qualquer participação em atividades ilícitas e nos fatos investigados". De acordo com os advogados, o parlamentar está à disposição para prestar esclarecimentos.
Quem é Ciro Nogueira?
Ciro Nogueira é piauiense, empresário e formado em Direito pela PUC-RJ. O parlamentar também atuou como deputado federal por quatro mandatos. Ele começou no Senado em 2011 e foi eleito novamente em 2018 em coligação com o PT -- ele declarou à Justiça Eleitoral mais de R$ 23,3 milhões em bens na época. O senador também é, desde 2013, presidente do Progressistas.
Aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Nogueira atuou como ministro-chefe da Casa Civil no governo dele, entre agosto de 2021 e dezembro de 2022. Na ocasião, Bolsonaro nomeou a pasta como o “ministério mais importante” justamente pelo papel de interlocução previsto a quem ocupa essa cadeira.
Nogueira ainda era um dos aliados da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), mas votou pelo impeachment da atual presidente do NBN (Novo Banco de Desenvolvimento). Ao justificar a mudança de posição, o senador disse ter tentado chegar a uma solução que preservasse a estabilidade do governo Dilma, mas que isso foi "inútil" diante da expressiva votação pela abertura do processo na Câmara.
PF diz que Ciro recebeu sugestão de emenda do Master
Segundo a decisão do ministro André Mendonça, relator do caso no STF (Supremo Tribunal Federal), Ciro Nogueira recebeu um envelope com uma sugestão de emenda parlamentar elaborada pelo Banco Master.
O texto seria a chamada "emenda Master" (Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023), com suposta autoria de Nogueira, e buscava alterar o limite de garantia do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Conforme mostrou a CNN, Daniel Vorcaro celebrou com um interlocutor o momento da apresentação da emenda, mencionando o nome de Ciro.
“Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica mercado financeiro [sic]! Ajuda os bancos médios e diminui poder dos grandes! Está todo mundo louco”, escreveu o banqueiro à época.
O projeto era visto como essencial para o banco, uma vez que a instituição utilizava o FGC como parte de seu modelo de negócios. Os ativos oferecidos pelo Master eram atrativos aos investidores por apresentarem uma promessa de rendimentos acima da média e a garantia do fundo como segurança da aplicação.
PF cita "mesada" de Vorcaro a Ciro
Outro ponto de destaque na operação desta quinta-feira foi a identificação de pagamentos mensais feitos por Vorcaro a Nogueira, que variavam de R$ 300 mil até R$ 500 mil. Os investigadores encontraram diversas trocas de mensagens sobre os pagamentos entre o ex-banqueiro e seu primo Felipe Cançado Vorcaro.
Segundo a PF, os repasses eram realizados pela "parceria BRGD/CNLF" — empresa ligada à família de Vorcaro e que servia como fonte primária dos recursos. Do outro lado, a CNLF Empreendimentos Imobiliários, vinculada ao irmão de Ciro, Raimundo Neto e Silva Nogueira, recebia os valores enviados.
Tanto o irmão do senador quanto o primo do ex-banqueiro foram alvos da operação desta quinta-feira. O ministro André Mendonça determinou a prisão temporária de Felipe Cançado, enquanto Raimundo passa a usar tornozeleira eletrônica e fica proibido de se ausentar da comarca de residência, além de ter suspensa sua atividade de natureza econômica ou financeira.
Além dos repasses mensais, as investigações apontam que Ciro Nogueira recebia outras vantagens do banqueiro, como a disponibilização gratuita de imóvel de elevado padrão, por tempo indeterminado, deslocamentos e despesas inerentes a viagens internacionais de alto custo e pagamento de hospedagens em hotéis como o Park Hyatt New York — que conta com diárias que podem chegar a R$ 172 mil na categoria mais cara, dependendo da temporada.
A PF diz também que um cartão teria sido disponibilizado para cobrir despesas pessoais de Ciro Nogueira. Em troca de mensagens entre Léo Serrano, apontado como intermediário das operações, e Vorcaro, o ex-banqueiro confirmava a utilização do meio de pagamento.
Léo: "Só uma pergunta rápida... eh pros meninos continuarem pagando restaurantes do Ciro/Flávia até Sábado?"
Daniel Vorcaro: "Sim. Depois leva meu cartão para St. Barths”.
O Progressistas, partido de Ciro Nogueira, divulgou nota informando que espera que os "fatos ocorridos sejam devidamente esclarecidos, com estrita observância ao amplo direito de defesa e ao devido processo legal".
*Com informações de Elijonas Maia, da CNN Brasil


