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    Eleições 2022

    Sergio Vale: O que esperar do novo governo Lula

    Novo governo tem a chance de acertar em muitas frentes porque tende a reunir uma equipe experiente, mas também porque os caminhos das pedras já são conhecidos

    Lula e Alckmin participam de ato de campanha em Porto Alegre
    Lula e Alckmin participam de ato de campanha em Porto Alegre 19/10/2022REUTERS/Diego Vara

    Sergio Vale

    A vitória de Lula dá início a uma nova configuração de forças políticas e econômicas bem diferentes do que vivemos nos últimos anos. Os nomes e partidos, em muitos casos, podem ser parecidos ou até os mesmos no Congresso, por exemplo, mas há certamente um novo olhar radicalmente diferente do que vivenciamos nesses quase quatro anos.

    O novo governo tem a chance de acertar em muitas frentes porque tende a reunir uma equipe experiente, mas também porque os caminhos das pedras já são conhecidos. Ou seja, sabe-se muito bem o que precisa ser feito e em algumas frentes os ganhos serão imediatos, como no meio ambiente.

    Diferente de 2003, o Banco Central não é mais uma questão, dada a independência em Lei, e por mais que haja uma grande discussão sobre o waiver fiscal que será dado ano que vem, começando em R$ 100 bilhões e podendo chegar a R$ 400 bilhões no pior caso, o ponto é que todos sabem que alguma regra fiscal crível precisa ser feita. É a chance de aperfeiçoar a regra do teto atual que já tinha alguns defeitos de fabricação e o atual governo só piorou ao quebrá-la com frequência desde o inicio da pandemia.

    Bolsonaro terminantemente esqueceu a economia nos últimos anos e essa agenda estava nas mãos do Congresso. Arthur Lira era nosso ministro da Economia de fato e agora será possível, provavelmente, voltar a haver formulação de política econômica no Executivo.

    Uma das primeiras medidas esperadas e com grande chance de avançar, dado o bom momento de início de qualquer governo, é a reforma tributária. É provável que a PEC 45 que está na Câmara avance e alguma proposta mais razoável surja em relação ao imposto de renda de pessoa física e jurídica. Se juntarmos isso aos ganhos de imagem na questão ambiental, serão dois gols que o governo Lula poderá fazer logo em seu primeiro ano.

    Há chances reais de que essa frente democrática criada na eleição seja uma base real de sustentação política, com o PT talvez aprendendo finalmente a necessidade de compartilhar poder, que ele não compreendia em 2003. A escolha de Alckmin como coordenador e o nome cotado de Meirelles para a Fazenda dão sinais de que Lula entendeu o recado das urnas e fará de fato um governo de coalizão. Até porque não lhe sobra muita alternativa dado o Congresso à direita que foi eleito no começo de outubro.

    Importante não termos ilusão, de qualquer maneira. O governo tem duas grandes reformas a fazer, a tributária e a regra do teto logo, de começo. Outras reformas mais amplas podem demorar para acontecer ou nem avançar. Mas será uma marca importante se o novo governo conseguir avançar nessas duas frentes e trazer uma estabilidade fiscal mais duradoura e, finalmente, uma reforma na parte fiscal que ficou negligenciada por décadas, a tributária.

    No caso ambiental, a agenda ESG (ambiental, social e governança) tem sido cada vez mais importante para as empresas como baliza de tomada de decisão de investimento. Mas essa percepção também vale para os países. Se eles não seguirem condicionantes ESG, também terão dificuldade, cada vez mais, de atrair investimentos estrangeiros.

    A esperança aqui é que o Brasil volte a ser um player importante nessa seara em que todos saem ganhando, especialmente o agronegócio. Este é o que mais sofre com as políticas inconsequentes que foram feitas no setor nos últimos anos. A mudança climática é uma realidade e negar isso apenas afugentaria novas oportunidades de negócio. Não é válida a crença de que apenas a China seja importante, ainda mais em um momento que a própria China passa por dificuldades crescentes em sua economia.

    Lula tem vários instrumentos para melhorar a economia, mas, especialmente, a imagem do país lá fora, que começou a ser arranhada, na verdade, com Dilma Rousseff, que não tinha muito apreço pelas questões internacionais. Essa retomada de ativismo positivo nas organizações multilaterais será um ganho importante para o país. O resto é ruído, que apenas atrapalha e nada agrega.

    *Este texto não representa, necessariamente, a opinião da CNN Brasil