Waack: No Brasil o crime é forte e o Estado é fraco

Um aspecto chocante no assassinato do ex-delegado Ruy Ferraz Fontes é o fato de que, aparentemente, a organização criminosa decidiu atacar justamente um dos agentes do Estado que mais profundamente conhecia a "máfia" do PCC

William Waack
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A execução do ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo — ao que tudo indica, ordenada pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) — gerou as reações de costume.

Houve manifestações de solidariedade à família da vítima e aos colegas de profissão, além do horror generalizado provocado pelas imagens da execução, claramente orquestrada por um grupo treinado e fortemente armado com fuzis. As autoridades também se pronunciaram com as habituais palavras de condenação, prometendo uma rápida punição aos criminosos.

Especialistas e estudiosos da segurança pública demonstraram, mais uma vez, profunda preocupação com o poder, a penetração, a expansão e, sobretudo, a audácia das facções criminosas organizadas que atuam no Brasil. Para quem lida profissionalmente com essa questão, já não há hesitação em afirmar: o Estado brasileiro está perdendo, e de longe, a guerra contra o crime organizado.

Um aspecto particularmente chocante no assassinato do delegado Ruy Ferraz Fontes é o fato de que, aparentemente, a organização criminosa decidiu atacar justamente um dos agentes do Estado que mais profundamente conhecia essa “máfia”. Fontes destacou-se na perseguição aos principais chefes do grupo criminoso e, mesmo assim, em recente entrevista, lamentava viver sozinho e sem qualquer estrutura para garantir sua própria segurança.

Um dos maiores entraves ao combate ao crime organizado no Brasil é que não se trata de uma única facção, uma única região conflagrada ou um só tipo de crime transformado em negócio. São dezenas de grupos distintos, atuando em diferentes frentes e com ramificações regionais, nacionais e internacionais. Essas organizações praticam variadas formas de tráfico, roubo, assassinato, extorsão e lavagem de dinheiro.

Dada a gravidade da situação, o tema tem enorme relevância político-eleitoral. Isso talvez explique mais uma das reações previsíveis ao crime contra o delegado: o bate-cabeça na política.