Waack: Países negociam com os EUA, mas impasse segue com o Brasil

Trump agrediu a soberania de Canadá, Dinamarca, Panamá e México e acaba de impor tarifas extras à Índia; os dirigentes de todos esses países, porém, tentaram algum tipo de contato direto, coisa à qual Lula se recusa

William Waack
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Foi cancelada pelo governo americano a reunião entre o ministro da Fazenda do Brasil, Fernando Haddad (PT), e o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent.

O cancelamento confirma um fato com o qual o governo brasileiro ainda não conseguiu, não quis ou não soube como lidar. É o fato de que questões políticas nas relações entre Brasil e Estados Unidos se sobrepõem a quaisquer outras, inclusive comerciais.

As demandas políticas de Donald Trump são inaceitáveis para países soberanos. Elas significam submeter Poderes do Brasil a uma potência estrangeira.

Trump agrediu a soberania de vários outros países — entre eles, Canadá, Dinamarca, Panamá e México. E acaba de impor tarifas extras à Índia por razões de política externa.

Os dirigentes de todos esses países, porém, tentaram algum tipo de contato direto. Coisa à qual Lula se recusa, pois julga isso humilhante. Preferiu buscar algum tipo de conforto junto ao Brics, grupo dominado pela China e pouco solidário ao Brasil.

Com a própria China, Trump quer se entender via compra preferencial, pelos chineses, de soja americana — fato bem negativo para os nossos exportadores.

É verdade que só o Brasil está na situação de ter uma força política doméstica pedindo ajuda de uma potência estrangeira para derrubar um de seus Poderes — ou o regime inteiro. O que seria um motivo a mais para Lula procurar falar direto.

Trump não está nem aí para o fato de que as profundas relações entre Brasil e Estados Unidos são maiores do que direita ou esquerda.
E Lula acha que a situação, do jeito que está, o favorece.