Diretor de "Muito Prazer", Jorge Furtado diz: "A comédia é menosprezada"
Com "Saneamento Básico - O Filme" e "Meu Tio Matou um Cara", diretor fala sobre como a comédia é vista no país

Após um intervalo de quase 20 anos das comédias, Jorge Furtado, 67, volta aos cinemas de humor em seu trabalho mais recente, com filme "Muito Prazer", que chegou às grandes salas esta semana. Para o cineasta, o gênero ainda é tratado com menos importância do que deveria, ainda hoje.
“Eu acho que a comédia é muito menosprezada, na verdade. E ela é um gênero tão valioso como drama, como a tragédia”, afirma Furtado. Ele lembra que a vontade de fazer "Muito Prazer" surgiu justamente de seu gosto pessoal pelo gênero. “Eu gosto muito de comédia. Eu gosto de assistir comédia. Fico procurando comédias. E, quando encontro uma boa, é um alívio”, diz.
Na visão do cineasta, uma boa comédia não se resume à capacidade de provocar risadas, e o humor também pode ensinar e apresentar personagens que, justamente por serem imperfeitos, despertam identificação no público.
“A gente aprende, a gente se diverte com uma boa comédia, a gente se diverte durante a comédia, mas ela não é só pra rir", explica. Para Furtado, essa característica está relacionada à própria natureza dos protagonistas do gênero. “Os personagens da comédia, eles são falhos, eles têm problemas. Eles não são heróis. Não é Ulisses, não é o Super-Homem, não é o Homem-Aranha.”
Em vez de figuras extraordinárias, os personagens cômicos costumam enfrentar dificuldades bastante comuns, como problemas financeiros e conflitos familiares. É justamente essa proximidade com a vida cotidiana que, segundo o diretor, cria uma relação de empatia com o público.
“São personagens assim, que estão precisando de grana para pagar conta no fim do mês. Então, são muito humanos. Eu simpatizo com eles, eu gosto deles”, afirma.
Essa perspectiva também orienta a construção dos personagens, ele lembra que figuras de "Saneamento Básico", como Zico e Joaquim, e destaca o interesse em criar protagonistas pelos quais o público possa torcer. “A gente torce por eles, né? E eu gosto de torcer pelos personagens. Então, eu queria escrever uma história para personagens assim”, afirma.
Se em "Saneamento Básico" o universo da história estava ligado à política e aos problemas de uma pequena comunidade, em "Muito Prazer" se volta para um cenário mais contemporâneo: a internet e a tentativa de transformar atividades virtuais em fonte de renda. “Nesse mundo totalmente diferente. No 'Saneamento', é a política. Aqui não, é a internet. É conseguir monetizar, pagar conta com alguma coisa que eu venda na internet."
O dinheiro, aliás, aparece como um elemento recorrente nas comédias, segundo Furtado. Para ele, a preocupação financeira é uma das maneiras pelas quais o gênero se conecta à experiência humana — e também ao desejo.
A associação entre comédia e desejo leva o diretor a uma definição que resume sua visão: se a tragédia costuma caminhar para a morte, a comédia aponta para a continuidade da vida a partir do "felizes para sempre".
“Na tragédia, a gente morre; na comédia, a gente casa. Então, na comédia, termina com beijo. Eles se beijam, pronto, acabou a história”, conclui Furtado.
"Muito Prazer" está nos cinemas brasileiros.


